O papel do intelectual

O intelectual deve arriscar o trabalho de “ligar os pontos”

Por Lucas Vasques | Foto: Arquivo Pessoal | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Discutir o papel e a importância dos intelectuais na atualidade foi o desafio do mestre em Sociologia Marcelo Coelho, protagonista de uma das palestras do Ciclo Mutações 2016: Entre Dois Mundos – 30 Anos de Experiência do Pensamento, organizado pelo filósofo Adauto Novaes, em São Paulo. Coelho abordou o tema O Silêncio dos Intelectuais (Entre o Silêncio e a Irrelevância).

 

Segundo o sociólogo, “acredita-se menos hoje em dia em esquemas gerais para a explicação do mundo”. E cita como exemplos o Marxismo e a Psicanálise. “As Ciências Humanas se tornaram mais especializadas, inibindo a intervenção do pensador capaz de dar respostas a problemas e fenômenos diversos, os quais hoje em dia reclamam análises mais específicas”, resume.

 

Marcelo Coelho integra o conselho editorial da Folha de S. Paulo, da qual é articulista. Escreveu os livros: Patópolis, Montaigne, Trivial Variado, A Professora de Desenho, Gosto se Discute e Noturno, além de ensaios para as coletâneas A Crise da Razão, O Silêncio dos Intelectuais, Ensaios sobre o Medo, O Esquecimento da Política, Vida, Vício, Virtude, Mutações: a Invenção das Crenças e Mutações: Fontes Passionais da Violência.

 

Marcelo Coelho: “O escritor, o artista, o arquiteto, o músico, muitas vezes, exercem o papel de ‘consciência’ de uma sociedade”

FILOSOFIA: O tema de sua palestra no evento Ciclo Mutações foi O Silêncio dos Intelectuais (Entre o Silêncio e a Irrelevância). Pode, em linhas gerais, explicar o que abordou especificamente e por qual motivo os intelectuais silenciaram?

Coelho: Sem dúvida, acredita-se menos hoje em dia em esquemas gerais para a explicação do mundo, como haviam sido o Marxismo e a Psicanálise. As Ciências Humanas se tornaram mais especializadas, inibindo a intervenção do pensador capaz de dar respostas a problemas e fenômenos diversos, os quais hoje em dia reclamam análises mais específicas. Há, além disso, algo que podemos caracterizar como um fenômeno tipicamente francês: na França, figuras como [Jean-Paul] Sartre, [Albert] Camus, e, antes, [André] Gide, Anatole France ou [Émile] Zola detinham um prestígio público que raramente era ombreado por escritores e intelectuais de outros países. O declínio dos meios tradicionais de comunicação, da revista, do livro, do jornal, e a ascensão da televisão criaram um paradoxo na França, porque a TV e o rádio continuaram precisando, naquele ambiente cultural, de filósofos, escritores, sociólogos de prestígio. A geração de Bernard-Henry Levy, Alain Finkielkraut e outros se tornou muito midiática e televisiva. Esses intelectuais não estão em silêncio, mas creio que baratearam seu pensamento. Além disso, foi num sentido muito preciso que Sartre se referiu ao intelectual como “aquele que se mete onde não é chamado”. Em suas conferências no Japão, em 1965, ele apontava a contradição existente entre o saber particular, técnico, especializado, de um estudioso ou cientista, e a ideologia de uma classe – a classe burguesa – que não podia se acomodar a valores como a verdade e o interesse universal. Desse modo, surgia para Sartre a alternativa: ou o especialista se conforma com a busca da verdade em seu campo específico de atuação – e, restringindo-se a isso, orgulha-se de não ser um intelectual –, ou nota o particularismo de sua ideologia, deixando o papel de simples “agente do saber prático” para se transformar num intelectual, “que se mete no que é de sua conta e de que os outros dizem que se mete no que não é de sua conta”. Sartre dá o exemplo de um físico nuclear, que pode muito bem restringir-se à sua atividade científica, e pode também assinar um manifesto contra a bomba atômica: passaria a assumir, neste último caso, o papel de intelectual. Será? Em que medida o técnico “engajado” pode ser chamado de intelectual? A tomada de posição política, sem dúvida, incorpora uma atenção a valores e a visões das quais, em sua atividade cotidiana, o cientista está excluído. O pressuposto de Sartre, em 1965, era o de que uma crítica mais ampla ao sistema social trazia consigo um diagnóstico teórico mais sólido do que a defesa ideológica do status quo, a qual impunha ao técnico a atitude de “não se meter onde não é chamado”. O mero fato de se preocupar com o que “não é de sua conta” carregaria, portanto, uma atitude intelectual. O técnico, o especialista, é, assim, sempre silencioso; quem fala, nesse sentido mais amplo, já se torna automaticamente intelectual. Verifica-se, em tempos mais recentes, uma perfeita inversão desse modelo sartreano. Mantém-se a ideia de que o intelectual “se mete onde não é chamado”. Todavia, não está mais claro o pressuposto sartreano de que determinada crítica acarreta por si só a condenação de todo o sistema social.

 

FILOSOFIA: Em sua opinião, regra geral, os intelectuais caíram na vala comum das generalidades? Em caso positivo, qual seriam os motivos que os levaram a isso?

Coelho: Claro que os intelectuais continuam existindo e falando bastante: cito Noam Chomsky, Vargas Llosa, o falecido José Saramago… Acontece que, com raras exceções, o que eles, em geral, dizem não se destaca por derivar de uma visão de mundo especial, por uma interpretação nova e pessoal dos fatos que comentam. Os temas consensuais dos direitos humanos, da condenação ao fundamentalismo, às ditaduras e às guerras ganham, da parte de escritores e acadêmicos, defensores dotados de eloquência e de prestígio, mas é raro que tenhamos a curiosidade de saber, como faríamos com Camus ou Sartre, “o que será que Fulano irá dizer desse assunto?”. Há exceções, claro: Slavoj Zizek, gostemos ou não de suas ideias, produz esse tipo de curiosidade, suas opiniões derivam de um “método”, de um “estilo” de pensamento que é só dele; o falecido [Jean] Baudrillard também tinha esse tipo de “angulação” própria para comentar os assuntos do momento; Fredric Jameson é um autor de muita força e capacidade de intervenção; Umberto Eco ficava no meio termo entre o senso comum e a visão própria; Zygmunt Bauman, a quem não voto especial admiração, está sempre comentando o mundo contemporâneo.

Apenas homens pensam?

 

FILOSOFIA: Como é possível recuperar a credibilidade dos intelectuais nos dias de hoje, onde os formatos mais atrativos pelos quais as pessoas se informam são rasos e superficiais?

Coelho: Não sei. Acho que, quando aparecem teorias novas, algum tipo de interesse surge. Veja-se o caso de Thomas Piketty, que acabou sendo lido e discutido, tanto em níveis mais sofisticados de debate quanto através de meios mais superficiais.

 

FILOSOFIA: É correto dizer que existe uma espécie de falsa competência entre os intelectuais de hoje, ou seja, qualquer um pode se transformar no próximo intelectual da moda, mesmo sem ter o preparo acadêmico necessário para isso?

Coelho: Eu reformularia um pouco a caracterização desse problema. Acho que, de um lado, há pessoas com muito preparo acadêmico (o que não era o caso de Camus, por exemplo), que, repentinamente, se veem forçadas a desempenhar um papel público talvez acima de seu carisma. Pierre Bourdieu, por exemplo, era um sociólogo empírico de grande competência, mas não sei se funcionava como “mestre do pensamento”, com a agilidade que tinham Roland Barthes ou Baudrillard. O preparo acadêmico pode até ser bom, mas a tentação da moda faz com que algumas figuras se barateiem muito para aparecer. Acho isso mais grave do que comentadores sem preparo. De que adianta eu ser especialista em Nicolau de Cusa quando escrevo o que qualquer pessoa poderia escrever a respeito da corrupção ou da falta d’água?

 

Filosofia anarquista

 

FILOSOFIA: Você acredita que, para ser intelectual, é necessário ser um erudito, ou o conceito de intelectual passa por outras características de formação?

Coelho: Acho que passa por outras características de formação. O escritor, o artista, o arquiteto, o músico, muitas vezes, exercem o papel de “consciência” de uma sociedade.

 

FILOSOFIA: Dentro desse cenário, qual seria o papel dos intelectuais na atualidade, uma vez que não cabe mais a pretensão de eles serem os porta-vozes da universalidade?

Coelho: Creio que há duas tarefas que o intelectual pode exercer. A primeira é a de, mesmo sem ter explicações completas ou abrangentes a oferecer, arriscar o trabalho de “ligar os pontos”, traçar relações, ver no acontecimento A reflexos e semelhanças com o acontecimento B, descobrindo novos contatos entre fatos isolados. O especialista, por definição, está preso ao acontecimento A, ao acontecimento B, e assim por diante. O intelectual tentaria essa aproximação do desconexo. Uma segunda tarefa, creio que foi a de Sartre, de Zola ou de Camus, é a de agir não apenas como um “explicador”, um “teorizador”, nem mesmo como um puro “crítico” da sociedade, mas, sim, também agir como sua “consciência”. Cabe-lhe, a partir de sua própria interioridade, de sua própria individualidade, remexer e definir aqueles sentimentos e ideias que estão latentes, inexpressos, na experiência ética e política de seus contemporâneos.

 

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