O mito de Sísifo

Somos no mundo contemporâneo, operários em trabalhos sem sentido em grandes corporações, convivemos com a constatação do absurdo da vida que temos, em que há um divórcio entre o que somos e a vida que levamos

Por Raquel Bastos* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Movida pelas reflexões suscitadas pelo conteúdo da disciplina de Ética, Política e Sociedade, destinada a administradores do mundo capitalista, busquei no mito de Sísifo – em especial na leitura do livro “O Mito de Sísifo” de Albert Camus, publicado em 1942 – elementos para compreender por meio da filosofia do absurdo a futilidade da busca para o sentido da vida, onde “o dia do trabalho é insuportavelmente longo e a vida intoleravelmente curta”.

 

Para Camus, a vida não deve ser construída sobre o amparo da esperança que é abordada em sua trilogia do absurdo, como algo tão negativo quanto o suicídio. A lógica absurda tem o conflito inerente como premissa e que deve ser preservado, pois é o único capaz de exprimir a vida. A esperança é vista como nefasta porque quanto mais se espera do amanhã, mais esse amanhã nos aproxima da morte. Juntos, o suicídio e a esperança significariam o medo à liberdade. O suicídio, entendido como suicídio filosófico seria a tentativa de fugir do absurdo, não pela abdicação da vida, mas ao suprimir a consciência do absurdo. Como desfecho, Camus compreende em sua filosofia que a infelicidade dos homens proveria a esperança. Mas como viver sem esperança, estratégia de auto ajuda tão intensamente difundida nos dias atuais, em meio às dificuldades da existência?

 

Camus comparará o trabalho repetitivo e eterno de Sísifo ao trabalho do operário que repete o mesmo gesto durante todo o dia e todos os dias, em uma rotina que confronta a inevitabilidade da tarefa, como uma forma de tortura. Na narrativa de Camus sobre o mito de Sísifo, os deuses enfurecidos com a perspicácia de Sísifo, “tinham pensado com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança”, condenando “Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso”. A força deste mito reside em seu simbolismo da eterna repetição sem possibilidade de uma solução capaz de interromper essa punição divina, onde a esperança assume uma função de estorvo na única compreensão possível e libertadora, a da condição absurda da vida.

 

A filósofa Olgaria Matos, no entanto, nos incita a refletir sobre esse espaço de liberdade da filosofia do absurdo ao questionar o que pensa Sísifo quando desce a montanha para novamente pegar a pedra. Para a filósofa, a repetição do ato em si não deixa de ser importante, mas quando Sísifo “se afunda, pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino, ele é mais forte que o seu rochedo”. O operário, impotente e revoltado, toma consciência da sua condição miserável e a lucidez que antes o atormentava, devora também a sua expectativa de vitória.

 

Para Olgaria Matos, esse é o exato momento da tomada de consciência do absurdo e por isso é também o momento da liberdade, pois, quando autônomos no pensamento, vencemos a condenação dos deuses, retirando o peso do destino e da fatalidade ao reconhecemos a nossa condição absurda. Momento de cisão entre a tarefa mecânica e a consciente, onde a sabedoria não é algo dado, mas algo a ser desenvolvido para se aprender a viver em mundo de ambiguidades e de não escolhas. Sísifo irá seguir o caminho da revolta em vez do desespero. Essa revolta consiste em assumir com teimosia a absurdidade, concordando com a sua tarefa, ressignificando-a. O absurdo é vencido pela decisão humana de Sísifo, em fazer de sua tarefa o seu destino.

 

Uma vez tomada a decisão, Sísifo sente-se feliz. E, em meio ao absurdo do capitalismo contemporâneo, é preciso, mais do que nunca, “imaginar Sísifo feliz”. Mas essa felicidade pode ser a vitória da revolta contra a absurdidade de uma condição imposta e imutável? Talvez Camus tenha conseguindo entender como vencer o absurdo quando disse que “não existe destino que não se supere pelo desprezo”, isto é claro quando se compreende a historicidade das condições de sua tarefa.

 

Felicidade

Compreendendo sua historicidade, Sísifo “feliz”, contemplativo, no alto do cimo, se torna artístico, criador de seu próprio destino, e, ao aceitá-lo sem resignação, o “herói absurdo” transcende-o epicamente, afirmando a sua liberdade. É por isso que, para Camus, Sísifo pode vencer os deuses, ainda que não possa deixar de cumprir o destino que lhe é imposto. Para o autor, a vida deve ser vivida pelo que ela é, sem recorrer à esperança. Por sua vez, a arte pode ressignificar a existência e ser compreendida como revolta, uma resistência estética do homem ao absurdo.

 

Olgaria Matos ilustra essa ressignificação por meio das imagens dos trabalhadores da construção do edifício Empire State Building, em Nova York, o arranha-céu construído à partir de 1931, um marco da modernidade, que contratou três mil e quatrocentos trabalhadores, na maioria imigrantes europeus e algumas centenas de índios mohawk. Lewis Hine, sociólogo e fotógrafo, registrou o trabalho humano durante a construção, arriscando-se em condições tão precárias quanto a dos operários. Retratou o frágil heroísmo desses homens, revelando ironicamente o absurdo do trabalho humano na construção da modernidade. Após a obra finalizada, restou àqueles homens o anonimato, mas a arte permaneceu expressa na arquitetura e nos retratos desses heróis absurdos.

 

A estratégia da ressignificação da vida em uma vida ética e estética está contemplada não só no mito de Sísifo, mas em todo pensamento helenístico, onde há uma “virada em direção a nós” que, para Foucault, deveria ser tal qual uma meta que libertaria o sujeito, quando este passasse a se ocupar de si mesmo, assim como as inspirações e orientações do oráculo de Delfos sobre o “cuidado de si”, que posteriormente se transformaria na expressão “conhece-te a ti mesmo”. Esse imperativo do “cuidado de si”, por sua vez, consistiria em atividades a serem postas em prática ao longo de toda a existência, levando o sujeito a uma imanência do mundo em que o “eu” se direciona a uma meta: o retorno a si e não como egoísmo ou renúncia, mas como um “duplo-retorno”. Primeiramente, um “retorno para si” e, em um segundo momento, um “retorno para o outro e para o mundo”.

 

Prática helenística

Foucault compreende em seus estudos a existência desta prática helenística de imanência do “cuidado de si”, como um conjunto de exercícios e técnicas desenvolvidos para atuarem “de si sobre si”, chamado de práticas ascéticas, com exercícios cujo objetivo refere-se a “uma maneira de ligar o sujeito à verdade”. Essas práticas ascéticas estariam ligadas à constituição do sujeito, buscando atingir uma forma ou relação de si para consigo “que fosse plena, acabada, completa, autossuficiente e capaz de produzir a transfiguração de si, levando a uma que consiste na felicidade que se tem consigo mesmo” fortalecendo-o para o enfrentamento dos infortúnios da existência.

 

O mesmo filósofo destaca que essas práticas ascéticas funcionariam como a forja de uma armadura chamada logói – discursos verdadeiros – capazes de extrair do indivíduo verdades recônditas. Essas práticas ascéticas permitiriam, através de exercícios do silêncio para a escuta, a fala, a escrita e a leitura, estabelecer ou converter o sujeito em um sujeito ético, e eram consideradas obrigatórias aos indivíduos em um sistema moral, filosófico e religioso, destinados a produzirem no sujeito a transfiguração deles mesmos.

 

 

Essas práticas ascéticas do “cuidado de si” desembocariam, para Foucault, em uma estilização da existência ou estética da existência, onde o homem constrói sua vida de acordo com suas escolhas para esse caminho, um estilo de vida, como expressão máxima da sua liberdade. A partir desta tomada de decisão a vida passaria a ser definida como uma obra de arte. No entanto, o leitor deste texto necessita resgatar, na antiguidade, uma compreensão mais ampliada de arte que em nossa sociedade tornou-se, na indústria de massa capitalista, algo relacionado somente a materialidade dos objetos, escapando-nos a compreensão da arte vinculada à vida.

 

Essa vida, sob uma ótica da estética da existência apontaria, segundo Foucault, para um modo de existir que parte da ideia de “termos que criar a nós mesmos como uma obra de arte”, um processo de formação de si mesmo semelhante a uma escultura ou uma pintura de nós, um processo ético e estético, expresso na cultura germânica, com a grande expressividade da palavra-conceito Bildung, elaborada durante o Romantismo Alemão.

 

A estética da existência, sob o signo do “cuidado de si” significaria a transformação da existência em uma espécie de exercício permanente, definidos pelos critérios estéticos e também éticos do bem viver, como sujeito consciente de nossos atos por meio do conhecimento de si mesmo. A ética do “cuidado de si” concerniria à maneira pela qual cada indivíduo constituiria a si mesmo como sujeito de sua própria conduta, responsabilidade e consciência dos seus atos e suas ações para consigo e também para com os outros. Uma ética do “cuidado de si” implicada diretamente na produção inventiva de si, capaz de fazer da existência estética uma obra de arte com potencial de transformar o mundo que a cerca em um exercício que Judith Revel considera ser, ao mesmo tempo, de sujeição e resistência, é, portanto, “um gesto eminentemente político”.

 

Mas e as “dicas para sobreviver ao mundo capitalista” alardeadas no título do texto? Isso não passa de uma trollagem, uma provocação às saídas fáceis propagandeadas pela literatura de autoajuda, buscadas avidamente por leitores que desejam soluções rápidas e receitas prontas do bem viver no ambiente de trabalho em uma sociedade capitalista. Camus já nos alertou sobre o quanto a esperança é nefasta. Não há uma dica, um conselho, muito menos uma solução, o que há é o conflito com a lógica absurda que deve ser preservada, pois é a única capaz de exprimir a vida. Somente por meio da lógica do absurdo e do desprezo é possível superar o destino. Se mesmo assim você precisa de um conselho, ouça o Oráculo de Delfos e “conhece-te a ti mesmo”.

 

Para mais garanta a sua revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 124 nas bancas ou clicando aqui!

*Raquel Bastos é professora da Anhanguera de Osasco, graduada em Ciências Sociais pela Faculdade de Ciências e Letras – Unesp de Araraquara; Mestre em Saúde Coletiva pela Faculdade de Medicina de Botucatu na Universidade Estadual Paulista – Unesp; Doutora em Saúde Coletiva pela Faculdade Paulista de Medicina na Universidade Federal de São Paulo – Unifesp. Realizou parte do mestrado na Universidad de Ciências Medicas de Santa Clara, em Cuba, e parte de seu doutoramento no Institut de sciences sociales des religions contemporaines (ISSRC) em Lausanne (Unil), na Suíça.

Adaptado do texto “O mito de Sísifo e a estética da existência em Foucault”