O Lobo de Wall Street e a Ética

Por Flávio paranhos* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

Há alguns anos, li uma reportagem interessante numa revista americana. Uma pesquisa perguntava se o cidadão queria ter sucesso na vida e, também, se achava que as pessoas bem-sucedidas tiveram de cometer atos antiéticos e até desonestos para estar aonde chegaram. A resposta para ambas era: sim. Mas, peraí, se você acha que quem é bem sucedido precisa ser antiético ou desonesto para sê-lo, e você quer ser bem-sucedido, você está disposto a ser antiético e desonesto, certo?

 

Trata-se de um caso clássico de narciso que acha feio o espelho mesmo, e não o que não é (desculpe-me, Caetano). E essa perguntinha chata do título foi a que fez nossa revista-prima francesa. Um dos artigos que se propôs respondê-la escolheu uma abordagem interessante. Citando a biografia do pintor Paul ­Gauguin, Martin Legros nos lembra que a noção de “antiético”, ou melhor, a percepção mais ou menos aguda do que é ser antiético dependerá não apenas do ato em si, mas também, e principalmente, das consequências do ato. Gauguin, lembra Legros, tinha 33 anos quando abandonou a família numa viagem a Copenhague, seguindo viagem a Paris, Arles, Rouen, até ir parar no Taiti. Lá, dedicou-se inteiramente à sua arte, tornando-se, por fim, o grande Gauguin.

 

Valores éticos em crise

 

Mas e se tudo não tivesse passado de uma imensa ideia de jerico? E se ele tivesse ido pro Taiti, dedicado-se inteiramente à sua arte e permanecido medíocre? Voltaria de mão abanando e rabo entre as pernas pra França, para se tornar o pequeno Gauguin, o canalha que abandonou sua família em nome de um surto de megalomania que não vingou.

 

Quem agora se lembrou da melhor cena do melhor filme de todos os tempos, do melhor cineasta que já existiu, acertou. Refiro-me à cena de Crimes e pecados (1989), de Woody Allen, em que o médico ­oftalmologista, Judah Rosenthal, consumido pela culpa, visita sua antiga casa e imagina um diálogo com sua família. Tia May tenta convencer o pai de Judah de que “nada está escrito em pedra”, de que “moral é para quem quer ter moral” e de que os nazistas foram condenados pela história somente porque perderam a guerra. Se tivessem vencido, seriam vistos de forma completamente diferente. De forma moralmente positiva. A não ser que você seja dessas pessoas que ainda acredita em coelhinho da páscoa, papai noel e campeonato brasileiro de futebol, terá de concordar com a sábia tia May.

 

Os fins justificam os meios

 

Nesse momento, vale esclarecer o sentido que a pergunta tem aqui. Seria pertinente algum leitor ponderar que “bem-sucedido” pode assumir várias formas, muitas delas dispensando que se pise em cabeças para se chegar aonde se quer. Sejamos claros: “bem-sucedido” aqui se refere a bens materiais e/ou carreira profissional. Ou seja, o “homem de ação” de Fernando Pessoa e o “homem extraordinário” de Dostoiévski.

 

No extremo, quase como uma caricatura, podemos citar nosso velho conhecido Gordon Gekko (“Greed is Good”), assim como nosso recém-apresentado Jordan Belfort, o lobo de Wall Street. A bolsa de valores é rica tanto como ficção, quanto realidade para ilustrar a tese de que o homem é o lobo do homem. O que se faz ali é dinheiro a partir de dinheiro. Não dinheiro a partir de trabalho. Um jogo, cujos participantes se dividem em tubarões, rêmoras e presas. As presas somos eu e você. Jogando ou não. Os tubarões se revezam. As rêmoras trocam de tubarão quando o seu próprio é devorado pelos demais.

 

Em O Lobo de Wall Street, Martin Scorsese expõe a linha tênue que separa o excesso de dinheiro da noção que temos do que é certo e errado

 

Imagino que agora você está balançando a cabeça, concordando comigo, que somos coitadinhos devorados pelos tubarões capitalistas. Pois pare. Não somos coitadinhos. Somos incompetentes. Queríamos ser tubarões, mas não temos capacidade para isso. O máximo que conseguimos é puxar o tapete de nosso colega no concurso para professor de universidade. Ou na escolha para quem será promovido a gerente. Ou trapacear no banco imobiliário.

 

O perigo de apresentar esses exemplos extremos é esse. Como não somos assim, acionamos o mecanismo mental de autopreservação, autoelogio e autocomiseração. Esquecemos que não prestamos também. Por quê? Porque ninguém presta. A justiça é a conveniência do mais forte, já dizia o sábio Trasímaco para o pateta Sócrates.

 

Outro perigo de tais exemplos é imaginar que há apenas Gordons Gekkos e Jordans Belfortes no mundo sujo da bolsa. Hoje há algo muito pior. Algo que deixa os dois parecendo assaltantes de carrinho de picolé. Há máquinas. Espécie de robozinhos que operam o chamado High Frequency Trade (HFT). São operações de compra e venda na bolsa realizadas em velocidade menor do que um segundo. Um algoritmo rastreador de mudança de padrão de comportamento aciona uma operação assim que identifica tal mudança. Uma ação vinha com um preço numa direção. De repente, acontece uma divergência. O robozinho detecta essa divergência bem antes que humanos a percebam e aciona a operação. Quando os humanos se dão conta, é tarde demais, não compensa realizar o negócio.

 

Existe livre-arbítrio?

 

E o que temos nós a ver com isso? Calma, há mais. Nada é tão ruim que não fique desgraçado. Como essa tecnologia se encontra nas mãos de mais de um grupo de tubarões, começou a acontecer algo bizarro. Competição de robôs. Ganha quem for décimos de segundo mais rápido. Mas como alcançar isso? Só melhorar a performance do robô não adianta. É preciso fazê-los aprender a interpretar notícias. São constantemente alimentados com notícias e têm a capacidade de agir baseado no que elas dizem. Semântica? Então agora podemos julgá-los – os robôs – moralmente. Podemos apontar nossos dedos acusadores para seus narizes e xingá-los: “Malvados! Muito malvados, vocês! Coisa feia…”

 

Mas Jordan Belfort é um humano (e é mesmo, já que se trata de um filme baseado numa história real), e humanos não se contentam em apenas ganhar dinheiro de forma, digamos, questionável. Humanos também se esbaldam. Cheiram cocaína, traem a esposa/marido, humilham funcionários, depositam o dinheiro em contas em paraísos fiscais, sonegam, enfim, o pacote completo. E agora eu permito que você, leitor, diga a você mesmo: “Ah, não, essas coisas eu não faço!”. Tudo bem. Então estamos em posição de julgar moralmente Jordan Belfort. Não. Retiro o que eu disse. Bobagem essa história de “estar em posição de julgar”, já que julgamos os outros o tempo todo, estando nós “em posição” ou não.

Máquinas superinteligentes ainda são um sonho distante, mas não impossível

 

Dito de outra forma, impessoal. Jordan Belfort era um canalha, certo? Depende. Ele teve sucesso? Seus malfeitos foram descobertos? Foi flagrado? Se a resposta é não, então não tem como julgá-lo canalha, pois nem ficaremos sabendo, já que ele terá comprado todo mundo que possa nos informar a respeito de suas canalhices. E os que sabem não o criticarão. “Não por recearem praticar uma injustiça, mas por temerem sofrê-la.” Se a resposta é sim, pedra nele. Mas cuidado pra não deixar ricochetear de volta em seu telhado.

 

*Flávio Paranhos é médico (UFGO), doutor (UFMG) e research fellow (Harvard) em Oftalmologia. Mestre (UFGO) e visiting fellow (Tufts) em Filosofia. Professor da PUC Goiás. Autor de Filosofia & Cinema (Kindle Portuguese Edition) e do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial).

Adaptado do texto “É possível ser honesto e (ainda assim) bem-sucedido”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 92