O financiamento da esquerda

Por Amadeu Roberto Garrido de Paula* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Sem a ajuda de Engels, Marx não teria conseguido finalizar o primeiro volume dessa obra fenomenal (“O Capital”), devido às dificuldades e das condições precárias de vida de sua família em Londres”. (“Esquerda Marxista Internacional, Corrente Marxista”, 30/8/2016).

Efetivamente, enquanto envolvido nas abstrações da teoria econômica, por vezes quase que inextricáveis, Marx era constantemente forçado a deixar suas meditações para ouvir os xingamentos dos vendeiros e carniceiros à porta de sua casa em Londres, empunhando as listas das contas atrasadas. Friedrich Engels, um dos filhos de um grande capitalista e comerciante de Manchester, de uma rica família, sensibilizado pelas condições miseráveis em que viviam as famílias no período da revolução industrial, além de produzir suas próprias e importantes obras no campo da sociologia, foi o arrimo financeiro de Marx, sem o qual essa obra, que a esquerda marxista remanescente em nossos dias qualifica como fenomenal, não teria vindo à luz.

Com a adesão de Lênin às ideias marxistas, lograram tomar o poder central num país economicamente atrasado, a Rússia, num contraponto a um de seus basilares princípios, o de que o socialismo somente vingaria num país em que o capitalismo houvesse se desenvolvido suficientemente. Em verdade, Lênin, com sua capacidade carismática, capaz de galvanizar grandes massas, principalmente um povo subjugado por um czarismo cruel, e pouco crítico, não lançou, na Rússia, as bases de uma economia socialista, de uma sociedade sem classes, tal como pregadas por Marx e Engels, mas simplesmente liderou um movimento que se apoderou do poder político, para desenvolver um projeto de novo governo, certamente vislumbrando no horizonte aqueles princípios.

Desde logo, os sovietes que se organizaram na Rússia perceberam que, sem recursos financeiros sólidos, não teriam como implantar governo algum, sobretudo fundado num Estado forte. Não há Estado e Estado forte sem muito dinheiro. Não à toa, neste momento histórico, sorriem do mundo os governos abastecidos por monopólios petrolíferos, geralmente totalitários e opressores, porque uma autêntica democracia pressupõe efetiva distribuição de renda e justiça social. E adotaram várias providências para criar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas; os recursos financeiros permitiram a primeira viagem espacial tripulada e a manutenção, por longos anos, da “Guerra Fria”, que muitos prejuízos trouxe à humanidade. Em suma, para derrotar a “burguesia” é necessário usar o dinheiro acumulado pela “burguesia”.

Não é preciso dizer no que deu a desastrada experiência soviética. A “ditadura do proletariado”, preconizada por Marx e Engels, resumiu-se ao fuzilamento de milhares de camponeses que não queriam perder a propriedade privada de suas terras, hoje reivindicada, no Brasil, pelo “Movimento Sem Terra” e outros. Genocídio comparável ao genocídio perpetrado pelo nazismo na Segunda Guerra Mundial, mas os iluminados somente se lembram deste último; e caiu a “ditadura do proletariado” como um castelinho de cartas ao vento da praia.

 

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

Em nosso país, os movimentos de esquerda que se opuseram ao governo militar de armas na mão, exceção feita ao Partido Comunista Brasileiro, que permaneceu no campo institucional ou, como diziam, adotavam a “via pacífica” e, por isso mesmo, foi fortemente anatematizado pelos mencionados grupos guerrilheiros, estes tinham em conta que, sem dinheiro para enfrentar um grande exército regular, necessitavam, preliminarmente, de dinheiro. Por consequência, não se configuraram como “grupos terroristas”, como dizia a ditadura e hoje muitos repetem, mas como grupos de assaltantes de bancos, que, escondidos em “aparelhos” nos grandes centros urbanos,  não tinham como conquistar o povo para suas finalidades políticas. Desse modo, logo esses fins se transformaram em meros fins de sobrevivência, considerada a forte repressão que se organizou para combatê-los com ferocidade. Não obstante alguns assaltos bancários bem sucedidos, sucumbiram, de modo muito mais rápido que o crime organizado de hoje, que o Estado de Direito não consegue enfrentar e neutralizar. Não poderia ser de outra forma.

 

 

Mais uma vez ficou evidenciado que, sem o dinheiro acumulado pela “burguesia”, não há como empreender um movimento revolucionário para derrubar o capitalismo. Ganhou corpo, nessa quadra, o pensamento do Partido Comunista Italiano, que, sob a condução de Enrico Berlinguer, deu azo ao “eurocomunismo”. Seu princípio fundamental consistiu em que sua atividade política não se destinava a obter uma democracia formal, nos moldes do Iluminismo, com todas suas liberdades individuais e coletivas, seus sistemas abertos de acesso ao poder pelas maiorias, simplesmente como um meio para atingir o socialismo, mas como um fim universal. Era a renúncia aos postulados marxistas e a adesão à sociedade de classes, à livre iniciativa de mercado, ao movimento social-democrata que sempre fustigaram, numa erronia histórica de graves consequências. Com efeito, se os comunistas se unissem aos social-democratas e os social-democratas aos comunistas, em defesa de um regime livre e democrático na Alemanha pré-guerra, com certeza o nacional socialismo não seria vitorioso e a Segunda Guerra Mundial não eclodiria. A divisão da esquerda, considerada “lato sensu”, permitiu que a segunda hecatombe do século passado levasse a vida e impusesse sofrimentos inolvidáveis a grande parte da humanidade.

 

Nossa realidade

Na última quadra política do Brasil, vimos a esquerda galgar o poder e sucumbir num presidencialismo de coalizão. O PT precisava incondicionalmente do velho e vil metal. Para obtê-lo, chafurdou-se no pantanal. Começou o “déblâque” com o episódio de Celso Daniel, depois as vilanias reveladas no mensalão e nas operações da Polícia Federal, sobretudo a Lava-Jato. A proibição do financiamento de campanhas por pessoas jurídicas foi a pá de cal. O PT morreu. Se ressuscitará em novos moldes, só o futuro dirá.

Voltamos ao fenômeno insuperável da interligação dinheiro e esquerda. Esta, assim como a direita, definhou. Foram-se as ideologias em favor de visões de mundo pragmáticas; do Estado do bem-estar social, considerado o regime democrático sensível à justiça social e a democracia dos direitos individuais e coletivos e das liberdades. E de um Estado menos pesado e abocanhador a fundo perdido. Para isso o Brasil precisa de todas as reformas consabidas, reiteradas nos discursos e jamais realizadas a contento.

 

 

*Amadeu Roberto Garrido de Paula é membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas.

Adaptado do texto “O que seria de Marx sem Engels e da esquerda sem dinheiro?”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 124