O fim da internet?

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Há alguns dias reli certas passagens do livro Meditação sobre a técnica, publicado em 1933 pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset. Uma de suas afirmações lapidares era que nas décadas seguintes as discussões sobre as vantagens, danos e limites da tecnologia seriam um tema filosófico predominante.

 

Creio que essa afirmação foi profética, sobretudo se considerarmos a tecnologia que mais invadiu a vida cotidiana: a internet. Como ocorre com outras invenções ­contemporâneas, a internet é o resultado da fusão de tecnologias já existentes, no caso o telefone e o computador. Telefones servem para nos comunicarmos e computadores, para estocar informação. Da combinação de ambos surgiu a internet, uma imensa rede de informação que se expande diariamente.

 

Mas haverá limites para a expansão da internet? Números e estatísticas referentes a ela são sempre assustadores. Hoje em dia, 20 usuários da internet são suficientes para produzir todo o fluxo de informação que ocorria na rede em 2008. No início de 1995 havia 200 mil usuários de internet, mas ao final desse mesmo ano eles já eram 16 milhões. Em dez anos, o número de usuários já ultrapassava 1 bilhão e estima-se que, atualmente, sejam 2,4 bilhões. Em 2012 havia 9 bilhões de dispositivos conectados à internet, incluindo laptops e smartphones. Com a popularização crescente dos tablets, smartphones e iPhones, a previsão é que esse número chegue a 50 bilhões em 2020.

 

A esses números ainda serão acrescentados os da internet industrial e os da internet das coisas. O projeto da internet industrial é conectar e sincronizar as linhas de produção de todas as fábricas do mundo para adequar sua capacidade às variações da demanda. Com isso, o trabalho e o uso de matérias-primas atingirão um novo patamar de aperfeiçoamento e racionalização.

 

A internet das coisas está em plena expansão. Já existem geladeiras inteligentes que repõem automaticamente os alimentos consumidos enviando mensagens ao supermercado. Já é corriqueiro usar chips nos animais de estimação para poder localizá-los rapidamente. A mesma técnica é usada na pecuária. Chips sofisticados implantados em vacas informam aos fazendeiros a temperatura, os batimentos cardíacos e outros dados sobre as condições de saúde do animal. Carros também já estão sendo equipados com dispositivos que informam às companhias de seguro como os motoristas estão dirigindo. O próximo passo será o monitoramento do corpo humano por meio de chips diretamente conectados a bases de dados dos planos de saúde.

 

Imersão em mundos virtuais

 

Essa explosão de informação pode levar, nas próximas décadas, à distopia de um mundo diabolicamente controlado. Todavia, além de problemas técnicos, nosso modo de interação com a tecnologia está, surpreendentemente, revertendo esse cenário.

 

Do ponto de vista técnico, a internet caminha para a saturação. Até agora, a transmissão de informação tem sido controlada por uma técnica chamada Transmission Control Protocol (TCP). É uma técnica simples e engenhosa que impede congestionamentos na rede. A velocidade de transmissão de informação é, automaticamente, regulada. Quando há muita demanda por informação em alguns pontos da rede, a velocidade é reduzida nesses locais para que um fluxo homogêneo seja mantido e não se formem gargalos. A TCP garante um equilíbrio na rede, embora em alguns momentos ela se torne mais lenta. Mas o que ocorrerá com a TCP quando o fluxo de informação aumentar exponencialmente?

 

Há, ainda, outros limites. A internet consome uma quantidade extraordinária de energia elétrica para manter seus servidores funcionando. Apenas a companhia Google consome, sozinha, o equivalente de energia elétrica gasto por 200 mil habitantes de uma cidade.

 

Tecnologia e exclusão social

 

A expansão quantitativa da internet está modificando nossa atitude em relação à tecnologia. Todos os dias somos submetidos a um porre de informações. O excesso de informação a torna algo inútil e passamos, então, a ignorá-la. Há duas décadas, enviar e-mail era uma forma privilegiada de estabelecer novos contatos. Hoje em dia nem sequer os e-mails de pessoas conhecidas são respondidos. Eles são lidos de relance e pensamos sempre em respondê-los depois, mas após um ou dois dias eles envelhecem e acabam esquecidos. Paradoxalmente, quando enviamos um e-mail importante, precisamos telefonar para avisar sobre seu envio para que ele não se perca no meio da avalanche de mensagens.

 

Os mecanismos de busca também enfrentam uma crise. O principal deles, o Google, retorna excesso de informação, por vezes pouco confiável.

 

Será, então, que a internet vai acabar? Não acredito nessa possibilidade. Mas para sobreviver, ela precisa ser reorganizada. Hoje em dia, são os usuários que estabelecem os links. Uma arquitetura alternativa seria deixar que a rede fizesse isso, independentemente de seus usuários. Seria como deixá-la evoluir por meio da seleção natural. Links mais visitados, e por mais tempo, sobreviveriam e ampliariam a rede, formando caminhos que levariam até eles. Outros links, com informação incorreta ou obsoleta, seriam extintos. A rede seria menor, mas com mais qualidade, e mantê-la não levaria a um consumo predatório de energia.

 

Uma internet autônoma e com auto-organização seria imune à manipulação. Mas dificilmente ela será adotada, pois se choca, frontalmente, com os interesses financeiros predominantes.

 

Adaptado do texto “O fim da internet?”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 104

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org