O eu imune

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A questão da existência do eu é uma das mais árduas da Filosofia da Mente. Ela já se arrasta há séculos, movendo-se pendularmente ora em direção a uma exaltação ontológica como o ego cogito de Descartes, ora em direção à negação de sua existência, como em Hume.

 

No século XX, a ideia de um eu substancial foi fortemente abalada por filósofos da mente como ­Gilbert Ryle e Daniel Dennett. Ryle sustentou que o eu não passaria de um fantasma na máquina, uma falsa ideia de substância gerada pelo uso equivocado da linguagem. Na mesma linha, Dennett defende uma ideia nominalista do eu, afirmando que ele é apenas um ponto imaginário para o qual convergem narrativas que fazemos acerca de nós mesmos. O neurocientista António Damásio parece ter uma posição semelhante, ao ressaltar que o cérebro gosta de contar histórias e, por meio delas, construir um passado coerente sobre nós mesmos.

 

Hume falava de um teatro no qual se desenvolve nossa vida mental. Dennett nega a existência desse teatro afirmando que ele não passa de uma ilusão, de uma falsa impressão que a mente pode criar sobre si mesma.

Construção compartilhada

 

Em seu artigo O eu como centro de gravidade da narrativa, Dennett propõe que uma das funções principais do eu é distinguir entre o que fazemos e aquilo que simplesmente nos acontece. Penso que este é um bom começo na busca por uma resposta sobre a utilidade do eu.

 

Minha posição sobre a possível função do eu não é original. Ela se inspira, parcialmente, na Psicanálise. Freud chamava o eu de ego e afirmava que ele constituía uma parte frágil do aparelho psíquico, uma espécie interface entre as pulsões do inconsciente, ou seja o id, e o superego. O ego desenvolve mecanismos de defesa contra a repressão imposta pelo superego (uma parte do psiquismo na qual estão introjetados valores sociais e culturais) e também contra o id.

 

Em outras palavras, uma das funções principais do eu é nos defender de inimigos externos e internos. O psiquismo e a pele nos inserem diretamente no meio ambiente e, por isso, seriam interfaces excessivamente vulneráveis se não fossem capazes de criar mecanismos de defesa. Não é à toa que as doenças da pele e os transtornos mentais com componentes predominantemente ambientais são os mais difíceis de curar (se é que podem ser curados).

 

Ao definir o eu pelos seus aspectos funcionais, evitamos disputas metafísicas intermináveis que tendem, de um lado, a identificar o eu com a alma ou alguma substância imaterial e, do outro, com o cérebro. Supor que nosso eu seja algo imaterial, à parte do mundo no qual vivemos, é uma posição difícil de ser sustentada, embora cara a todas as religiões tradicionais. Por outro lado, sustentar que o eu é apenas um cérebro, é, igualmente, uma posição desconfortável, pois em qual área do cérebro ele se localizaria?

 

Pensando o Existencialismo

 

Estamos mergulhados no mundo. O que pensamos e sentimos, o que os nossos olhos produzem, tudo isso faz parte de um mundo no qual somos atores e espectadores ao mesmo tempo. No entanto, temos a indescritível sensação de que o mundo está fora de nós, a sensação de que existe um “dentro” e um “fora”. A percepção é aquilo que Merleau-Ponty descreve, em seu livro O visível e o invisível, como o ponto máximo de proximidade e ao mesmo tempo de distância em relação ao mundo.

 

A pele não basta para demarcar esse “dentro” e “fora”, pois ingerimos alimentos e água, o que ultrapassa seus limites e nos insere fortemente no mundo. Por que criamos, então, essa demarcação entre “dentro” e “fora”?

 

Penso que o eu é uma versão psíquica de nosso sistema imune. Há alguns anos, o cientista cognitivo Francisco Varela sustentou uma posição semelhante. Varela, como bom discípulo de Merleau-Ponty, buscava enraizar a cognição no corpo e, para isso, defendia que nosso sistema imune tem propriedades cognitivas. Contudo, uma comparação no sentido inverso ao buscado por Varela, ou seja, atribuir ao eu propriedades do nosso sistema imunológico, também pode ser interessante.

 

Da mesma forma que o sistema imune, o eu detecta invasores que podem colocar em risco sua integridade. Isso significa que esses invasores devem ser excluídos, consciente ou inconscientemente, da história pessoal que montamos acerca de nós mesmos. Essa história precisa constantemente ser reavaliada e reconsiderada, pois os invasores mudam de forma o tempo todo, como ocorre no caso da aids e de outros vírus letais.

 

O sistema imunológico comete erros. É possível que ele se equivoque ao reconhecer constituintes essenciais do organismo como antígenos, ou seja, como agentes invasores. Esse equívoco dá origem às doenças autoimunes, uma espécie de autorrejeição do corpo que pode ser fatal. Usando esse mesmo modelo, é possível que identifiquemos, no futuro, a origem de alguns transtornos mentais como uma forma indesejada de rejeição de partes do eu por ele mesmo.

 

Curiosamente, foi em 1900, quando a Psicanálise se consolidava, que Paul Ehrlich descobriu as doenças autoimunes e as batizou com o nome de horror autotoxicus.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 105

Adaptado do texto “O eu imune”

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org