O ensino deve ser neutro?

O agravamento da crise política e econômica suscitou uma em especial: a polêmica da “Escola sem Partido”

Por Júlio Cesar da Silva* | Foto: Reprodução/vita.it | Adaptação web Caroline Svitras

Em linhas gerais, o polêmico projeto aborda diretamente o papel do educador em sala de aula, apresentando uma solução para a suposta tendência do professor de conduzir os temas lecionados por um viés pessoal e, portanto, “convertendo” os alunos em prol das ideologias presentes nesse viés. Ainda que o cerne dos defensores da proposta seja permitir que os alunos conheçam mais de um aspecto do tema apresentado em sala de aula, não é possível deixar de perceber que a proposta também carrega um forte sentimento de oposição à ideologia de esquerda, geralmente acusada de exercer o papel ativo de doutrinação. Um embate contra a “onda vermelha” que ameaçaria os valores de toda a sociedade.

 

O tema educação, no Brasil, aparece constantemente nos noticiários da grande mídia, geralmente descrevendo um cenário de escolas sucateadas, alunos do ensino fundamental considerados como ineptos em interpretação de texto ou em operações simples da aritmética. Não ficam de fora os relatos envolvendo violência contra o professor ou a expectativa construída pelos pais de que a escola deveria ser o único local para o aprendizado de valores éticos e morais. Ao professor recai uma missão muito além de suas reais capacidades.

 

Percebe-se o quanto é difícil encontrar propostas focadas em abordar alguma possível solução para o conjunto heterogêneo de problemas que acometem o ensino no Brasil. Especificamente, o cerne da proposta da Escola sem Partido envolve o universo da sala de aula, um cenário que seria prioritariamente responsabilidade de um profissional comprometido com uma postura de neutralidade. A neutralidade significaria apresentar, sem um viés ideológico, as diversas fontes de conhecimento referentes aos conteúdos a serem ministrados. Caberia aos alunos, conduzir o processo de reflexão e análise a respeito do tema apresentado. O “neutro”, segundo o projeto, requer que o professor deixe de lado suas opiniões pessoais e abra espaço para o desenvolvimento do senso crítico do aluno.

 

A educação pública marginalizada

Porém, partindo do pressuposto de que a neutralidade do professor em sala de aula seja uma abordagem capaz de despertar o senso crítico nos alunos, coloquei-me a pensar “o que constitui a educação que permita a liberdade de senso crítico em vez da doutrinação”? Seria absolutamente a neutralidade do professor como defende a Escola sem Partido? Com uma resposta a essas perguntas, acredito colaborar para uma análise de algumas categorias conceituais relacionadas ao ensino, afastando o temor infundado na suposta e ameaçadora “onda vermelha”.

 

Inicialmente percebo que muito se diz sobre educação de qualidade e pouco efetivo é o domínio dos envolvidos do que constitui o processo de aprendizado. Principalmente, o aprendizado com senso crítico. A simples disponibilidade da informação não pode ser considerada como condição plena do exercício do senso crítico, como se os alunos fossem naturalmente capazes de argumentar sobre assuntos que possuem múltiplas abordagens. Uma leitura aprofundada sobre o ato de argumentar demonstra que este não é simplesmente a emissão de uma opinião, muito menos uma habilidade inata possuída por todos os estudantes.

 

Argumentar é a habilidade de utilizar premissas (asserções afirmativas capazes de serem classificadas como verdadeiras ou falsas) para encontrar uma conclusão dentro de um parâmetro lógico conhecido como passo inferencial e, também, de acordo com as informações apresentadas. Essa forma de expressão é por sinal a primeira maneira de se fazer ciência no mundo. Trata-se, nada mais, nada menos, do filosofar: apresentar razões para um determinado aspecto, fenômeno ou conceito. O total afastamento da filosofia do cotidiano dos alunos e da sociedade, ao longo dos últimos anos, parece ser responsável por fazer com que muitos considerem a simples emissão de opinião como algo de extremo valor. Ter opinião é importante, mas apresentar razões para tal opinião é ainda mais, além de determinar que se possa iniciar um debate.

 

O controle dos segredos

 

Não se engane, leitor, a maioria dos filósofos buscou ao longo dos séculos estruturar seus argumentos e conceitos para que soem profundos e consistentes aos estudiosos e críticos de suas épocas. Cada um apresentou suas razões e conclusões apoiadas na lógica. Garantindo, por sua vez, uma exposição clara, coerente e organizada; capaz de estabelecer uma estrutura sólida para a defesa em situações de debates calorosos. Não se trata da lógica reduzida a jogos ou questões de concurso, mas de uma ferramenta muito mais ampla e desenvolvida desde a Grécia antiga. Portanto, um processo complexo e profundo de raciocinar. Um exemplo rápido para que possamos melhor ilustrar a importância do que escrevo:

 

Hoje estou cansado e, dado que amanhã tenho muito que fazer, devo descansar. Por isso, não irei ao cinema. As premissas são identificadas como os motivos que levam à conclusão, que geralmente aparece após um “portanto”, “logo” ou, no caso do exemplo, após o “Por isso”. A não ida ao cinema é justificada pelas premissas que descrevem o cansaço e a necessidade de reduzir seus efeitos (descansando), uma vez que terá novas atividades no dia seguinte ao que se sente o cansaço. Para refutar este argumento, torna-se necessário invalidar suas premissas, de forma que elas não sustentem mais a conclusão. Poderíamos, por exemplo, apresentar dados científicos de que o descanso não reduz os efeitos do cansaço, ou que a pessoa está enganada a respeito do cansaço que sente, ou ainda que o cinema não será capaz de colaborar para aumentar o cansaço e nem diminuir o tempo de descanso.

 

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Adaptado do texto “Escola com Aporia X Escola com Neutralidade”

*Júlio Cesar da Silva é Mestre em Administração e Graduando em Filosofia pela UFMG, é bolsista da FAPEMIG de iniciação científica sobre lógica paraconsistente. Atua como professor da Faculdade Pitágoras Unidade Raja de BH/MG. Veja mais em: http://esclarecimentofilosofico.org.