O desconcertante filme de Peter Brook

Por Flávio Paranhos | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Tell Me Lies (1968) é um documentário diferente, com cenas que parecem ficcionais entremeando cenas típicas de documentário e outras de eventos reais. O “evento real” mais impressionante é, sem dúvida, o do monge budista vietnamita ateando fogo a si próprio, observado por atônitos e desesperados outros monges, contidos por policiais. Mas estou passando o carro à frente dos bois.

 

É um filme-protesto, engajado, portanto, mas sem padecer do que padecem obras engajadas, ou seja, não é empobrecido pelo engajamento. Pelo contrário, nesse caso, enriquecido. Trata-se de um protesto contra a guerra do Vietnã, mas poderia ser contra a guerra do Afeganistão. Ou do Iraque. Ou de Gaza. Não sei o que é mais desconcertante, se sua atualidade ou nossa infinita boçalidade. Por “nossa” entenda a minha, a sua, a do ser humano, enfim. Não adianta fazer cara de inocente e dizer que tudo é culpa dos americanos, franceses, vietnamitas, comunistas, capitalistas. A boçalidade faz parte de nossa essência. Negá-la é ser ingênuo ou hipócrita.

 

Voltando ao filme. É até difícil escolher cenas. Há o [diálogo] da festa em que o casal de protagonistas discute com ingleses de aparência aristocrática o absurdo (para o casal) da guerra, assim como a vergonhosa (também para o casal) participação britânica. Os aristocratas refutam, claro, e buscam razões para justificar o injustificável (para qualquer um com o mínimo de consciência crítica). Mas Brook não seria Brook se não tivesse suas sacadas geniais. E a que ele tem nessa cena é profundamente embaraçosa para quem até ali se sentia bem com sua própria cumplicidade com os protagonistas. Um dos, digamos, personagens diz: “Quer ter uma opinião concisa e objetiva sobre o Vietnã, fique a distância”. Você, que se sentia feliz com sua própria indignação, acaba de levar um tapa com luva de pelica. Não, com soco-inglês. É fácil se indignar a distância.

 

 

Então você se levanta e age? Não. Você continua a ver o filme. Há mais. Logo a seguir, ainda na cena da festa, trava-se um diálogo entre um dos protagonistas, que é branco, com dois rapazes negros. Todos elegantes no traje e trato. Stokely, um dos rapazes negros, tenta explicar ao protagonista, que o questiona sobre violência, que não se trata de dizer “violência gera violência”, mas, sim, “violência branca gera violência de cor”. E o “de cor”, aqui, já não mais apenas negra, de acordo com Stokely, mas tudo o que for “não branco” (asiáticos, latino-americanos, negros dentro e fora dos Estados Unidos).

 

Então, trazem uma moça vietnamita à conversa. Bela, tímida, é “usada” pelo protagonista para argumentar pela paz. E novamente a argúcia de Stokely é desconcertante. Não se trata de desejar paz, defende ele, porém, justiça. Pode se ter paz e não ter justiça, e aí não adianta nada. Enquanto houver opressão e repressão, a paz é inútil. Ou apenas seletivamente útil. O que não é justo, de forma alguma. “Mas você nos parece em paz”, pondera o protagonista. “Pareço pacífico, é verdade, mas não estou em paz. Não posso estar em paz se meus irmãos sofrem injustiças.” E de novo Brook se mostra maravilhosamente autocrítico. Diante de nós está um rapaz negro, elegantemente vestido, sedutoramente falando, ao ponto de parecer blasé, a respeito de coisas “sérias”. E nos vemos concordando com tudo o que ele diz, ao ponto de nos imaginarmos sendo ele, na festa, com copo na mão, defendendo nossas ideias. Aí, Brook, por meio do protagonista, nos confronta:

– Não faz muito tempo, eu conversava com um inglês de tendências conservadoras, de tal forma dogmático que estava preparado a deixar os outros morrerem por suas ideias. Você não acha que suas ideias também podem te colocar numa situação semelhante, extrema?

 

Danos do colonialismo

 

Aqui deixaremos o filme de lado e aproveitaremos a deixa para discutir algo que em Filosofia ficou conhecido como o princípio (ou teoria, doutrina) do duplo efeito. O filósofo moral norte-americano Alan Donagan cita uma das formulações possíveis de tal princípio, que, de acordo com ele, tem raízes na contrarreforma, citando o jesuíta J. P. Gury: “É legítimo praticar uma causa boa ou indiferente da qual se seguirão dois efeitos, um bom e um ruim, se houver uma razão proporcionalmente séria, e o fim último do agente for bom, e o efeito ruim não for o instrumento para o efeito bom”. Para ilustrar, Donagan fornece um exemplo que considera incontroverso. Um médico que se expõe a uma infecção ao tratar um paciente. Expor-se a uma infecção e, mesmo, morrer em consequência disso é um mal, mas será um acidente, e não o instrumento para cuidar do doente.

 

Outro filósofo, ou melhor, filósofa, a britânica Philippa Foot, em seu agora clássico artigo The Problem of Abortion and the Doctrine of Double Effect, diferencia situações de dilemas morais, sendo uma delas o hoje também clássico dilema do vagão de trem desgovernado. Desviar o trem para evitar matar cinco pessoas, mas matando uma ao fazer isso, é legitimado pela doutrina do duplo efeito, pois a morte de um no lugar de cinco não era a intenção nem instrumento para salvar cinco, mas um acidente. Por outro lado, a escolha de um juiz que é obrigado a escolher uma pessoa inocente para sacrificar e aplacar a sanha de uma multidão desejosa de vingança e pronta a matar cinco outros inocentes não é justificada pelo princípio, pois será preciso matar o inocente, portanto, o mal (o efeito mau) foi instrumento para o bem (efeito bom).

 

Podemos agora responder ao protagonista do filme de Brook? Estamos dispostos a permitir que outros morram para defender nossas ideias? Se o fizermos, estaremos justificados pela doutrina do duplo efeito? Veja que bizarro. Se a morte de tais pessoas for um “acidente de percurso”, estaremos justificados. Se não nos valermos de suas mortes como instrumento, então está tudo bem. Será mesmo? Até onde estamos dispostos a chegar para defender nossas ideias? Agimos ou, como Stokely, despejamos grandes filosofias com certo enfado, a partir da perspectiva distante de nosso smoking e copo de uísque?

 

Tell Me Lies é desses filmes que nos deixam bastante desconfortáveis, como acontece com obras de arte geniais.

 

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*Flávio Paranhos é médico(UFGO), Doutor (UFMG) e Research Fellow (Harcard) em Oftalmologia. Mestre (UFGO) e Visiting Fellow (Tufts) em Filosofia. Professor da PUC Goiás. Autor do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial) e de Cinema & Filosofia (Amazon Kindle Portuguese Edition).

Filosofia Ciência & Vida Ed. 99

Adaptado do texto “Até onde você vai por uma ideia?”