O corpo é apenas carne?

A filosofia de Merleau-Ponty e a compreensão de nosso próprio estado físico

Por André Roberto Ribeiro Torres* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Ao mencionarmos a palavra “carne”, a imagem de um açougue com retalhos de animais e carcaças penduradas é quase inevitável. Falar em “carne” no senso comum é, muitas vezes, aludir a um convite para churrasco. E a referência bovina é tão marcante que é comum referirem-se à carne sem abranger o produto do frango e do peixe, também frequentes na alimentação. Mesmo para o porco se faz uma referência especial: “carne de porco”, pois, isoladamente, a palavra carne está associada ao boi.

Nesse sentido, carne é entendida como o preenchimento muscular do esqueleto até o limite da pele, esta, por sua vez, tradicionalmente encarada como o limite de separação entre o corpo e o mundo fora dele. Extraída dos animais mortos, levam à ideia popular do açougue.

Humanamente, falando, refere-se a uma profunda intimidade. Quando penso em minha carne, refiro-me a uma parte bastante concreta de minha internalidade. Aquilo que me é carnal me é vital. Quem é carne da minha carne afeta profundamente meus sentimentos. E seguiriam-se muitos exemplos sucessivos na mesma linha de entendimento.

 

Composição

Caberia, então perguntar-se sobre o corpo humano. Ele é um conjunto de carne, órgãos, ossos, nervos, fluidos e demais ingredientes biológicos que fisicamente nos compõe? Sim, sem dúvida ele é. Mas se resume a isso?

Novamente, o grande problema dessa pergunta seria a tendência a ouvi-la no campo do senso comum. Sem que sejam tomadas as devidas providências lógicas, a busca de exploração predominaria inevitavelmente um campo mais teológico que filosófico. E isso difere de nossa intenção aqui. Dificilmente se poderia pensar na palavra “carne” como um conceito filosófico.

Uma concepção clássica de que o corpo é habitado por uma alma está presente nas filosofias de Sócrates e Platão. Para ambos, a alma imortal reside no corpo, por sua vez, mortal. Para eles, a alma está aprisionada ao corpo e será libertada dele com a morte (PLATÃO, 2011).

É assim que podemos perceber a existência de certas compreensões modernas e contemporâneas sobre o corpo. No pensamento tipicamente dicotômico ocidental moderno, o corpo é visto como uma espécie de “meio de transporte” daquilo que de fato tem importância: a mente.

 

Ideias

Muita energia se dispende em determinadas filosofias e ciências para tentar desfazer essa divisão inaugurada, possivelmente, por Platão e reafirmada por outros filósofos como William de Ockham e René Descartes, cujas propostas indicam fundamentações para tal separação.

Ockham, com sua navalha, promove um argumento bastante útil para a ciência – a de que, entre duas ou mais explicações, a mais simples é suficiente, cortando as outras opções – ao mesmo tempo em que aponta o utilitarismo da realidade prática tão característico da Idade Moderna, ajudando a separar, indiretamente, os papéis atribuídos à Filosofia e à Ciência como saberes diferentes (MARCONDES, 2016).

Descartes redefine a divisão no próprio corpo quando, em suas meditações, constata a existência de duas coisas: uma que pensa (res cogitans) e uma que ocupa espaço (res extensa) (DESCARTES, 2011). A linguagem moderna, em busca de ciências do controle, denomina essa separação entre corpo e mente.

À propósito, fala-se com tanta naturalidade sobre a mente, levando tal conceito a uma obviedade irrefletida. No entanto, o conceito de mente é uma possibilidade de compreensão do fenômeno da consciência que não exige uma concordância obrigatória ou absoluta. A fundação da Filosofia da Mente se dá justamente com Descartes e, por considerar a possibilidade de uma instância de pensamento sem a obrigatoriedade de um corpo físico em específico, fundamenta também pesquisas atuais em Inteligência Artificial.

 

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Adaptado do texto “O corpo é apenas carne?”

*André Roberto Ribeiro Torres é licenciado em Filosofia; psicólogo; psicoterapeuta existencial; mestre em Psicologia; professor do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera de Campinas – unidade Taquaral; fundador, coordenador e docente do Curso de Formação Independente de Psicologia Fenomenológico-Existencial em Campinas – SP.