O controle dos segredos

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O poder sempre esteve ligado a um controle dos segredos. Na verdade, por milhares de anos o poder esteve baseado no segredo. Em discursos que analisei para minha tese de doutorado, Ao leitor sem medo, o rei Jaime I da Inglaterra e seu ministro, o filósofo Francis Bacon, falavam ambos nos “mistérios da realeza”. Havia a ideia, no século XVI, de que o governo tem algo de profundamente misterioso, tanto que também se falava em arcanos da realeza. Jaime condenava as “curiosidades”, assim mesmo, no plural, dos súditos que se intrometiam em questões que não lhes diziam respeito e que só os governantes, de direito divino, poderiam entender.

 

A democracia se constrói contra isso. Ela não aceita o direito divino dos reis, isto é, a tese de que Deus escolheu esses homens – e algumas mulheres – para reger seus desígnios. A democracia populariza o poder. As pessoas simples passam a ter voz. Ninguém tem direito de mandar só porque nasceu em berço de ouro e prata. Um dos mais admirados governantes democráticos é Abraham Lincoln, e não só porque aboliu a escravidão nos Estados Unidos, mas também porque nasceu numa simples cabana nas lonjuras do Oeste americano. Na verdade, desde a Enciclopédia (organizada por Diderot), no século XVIII, o conhecimento dissipa o obscurantismo e faz progredir a humanidade. A palavra “mistério”, que associava a monarquia à religião e fazia os súditos se curvarem diante do rei, é substituída por obscurantismo, trevas, ignorância – que são atrasos a extirpar, não segredos a respeitar.

 

Esse é um princípio, o princípio democrático, o grande princípio ético da igualdade entre as pessoas. Não quer dizer que esteja realizado. Talvez nunca se realize, mas é uma força motriz ética de primeira grandeza. O princípio também está constantemente ameaçado. Talvez, apenas, porque já temos know-how de milhares de anos de ditaduras, despotismos, tiranias, e só uns duzentos anos de práticas democráticas. Estamos aprendendo democracia? Esta é a visão otimista. A pessimista diria que não, que a democracia é uma utopia inviável, ou que somente pode ser parcialmente realizada.

 

Hoje, talvez a maior ameaça à democracia seja o controle dos cidadãos pelos poderes de Estado, em especial do norte-americano. Calcula-se que a guerra ao terror já custou um trilhão de dólares aos Estados Unidos, com parte da conta sendo terceirizada. Há informações de toda ordem sobre todos nós. Filmes distópicos, como o premonitório A rede (1995), em que Sandra Bullock tem a identidade alterada pela rede oficial de computadores e – para variar – tem de correr muito e lutar para se salvar, apenas previram o que hoje acontece.

 

Deveríamos ficar mais atentos ao que Julian Assange e Edward Snowden revelaram sobre os mecanismos de controle do Estado norte-americano, e que a França e o Reino Unido emulam. Uma teia de controles se abateu sobre o mundo. As informações assim coletadas podem ser usadas de qualquer forma, não apenas contra os terroristas do Oriente Médio. Basta ver que Dilma Rousseff foi espionada, que Angela Merkel foi espionada. Estes assuntos deveriam nos preocupar bastante. Que será da independência dos países e da liberdade dos indivíduos se o mundo estiver sob controle de uma ou poucas agências que, elas mesmas, ninguém controla? Os pesadelos de Foucault se realizaram. Estudar e confrontar esta realidade é uma agenda prioritária para quem ama a Filosofia ou a política. Hoje, a disputa pelo poder de controlar ou quebrar segredos é prioritária na luta pela ética e a democracia.

 

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 100