O conceito de duplo efeito nos filmes

Por Flávio Paranhos* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

É possível extrair Filosofia de filmes comerciais? Sim, claro. É possível extrair Filosofia de pedras, se necessário e houver inspiração suficiente. O leitor habitual da revista certamente se lembra de que discutimos aqui uma produção da Disney (O príncipe da Pérsia) que, para nossa surpresa, não só nos permitiu filosofar, como a partir de uma perspectiva crítica aos Estados Unidos. Algo completamente inusitado em se tratando de Disney.

 

O fim dos dias (End of days, 1999, Peter Hyams) é um filme hollywoodiano, portanto, comercial, portanto, agradável à maioria das pessoas. Conta com ninguém menos do que Arnold Schwarzenegger como protagonista, o herói que salva o mundo, pra variar. Note que seu ano de lançamento é 1999, nada acidental, já que a estória explora a histeria coletiva que tomou conta do mundo (lembra-se?) devido a esse número cabalístico. De “todos os computadores do mundo irão se desintegrar” (o “bug do milênio”) até “o mundo irá se desintegrar”, fomos submetidos a todo tipo de bizarrice histérica. Ao fim e ao cabo, aqui estamos, 15 anos depois, viciados em Facebook, Linkedin, Instagram, Twitter e, claro, WhatsApp. Talvez tivesse sido melhor o mundo acabar mesmo…

 

O fim dos dias começa com o nascimento de um bebê que seria o escolhido. Ou melhor, a escolhida. Dali a alguns anos, mais precisamente em 1999, ela seria a que se deitaria com o diabo, capetão em pessoa, para que ele finalmente botasse ordem na casa, que Deus deixara uma bagunça. Corta pra 1999. Arnold Schwarzenegger é um ex-policial alcoólatra que ficou assim porque não conseguiu salvar a própria família quando policial. Mas continua competente e consciencioso. É ele o escolhido pra salvar o mundo.

 

Desta vez não estragarei o prazer de quem ainda não viu o filme, ou, como eu, viu há tanto tempo que, ao ver de novo, foi quase como a primeira vez. Pinçarei apenas uma cena. Já no terço final, quando a moça escolhida para se deitar com o demo está numa igreja católica de Nova York, protegida pelos padres locais, chega outra turma enviada diretamente pelo Vaticano para “resolver o problema” de uma vez. O que significava, claro, matar a moça. O dilema – esconder a moça do diabo era praticamente impossível, um risco grande demais. A alternativa, entretanto, não era nada católica: matá-la. O que fazer?

 

Estar numa posição de escolher entre dois males, o menor, será sempre consequência de um conflito do tipo secundum quid, ou seja, se estou numa situação de erro, é porque me coloquei assim a partir de outro erro. O filósofo norte-americano Alan Donagan admite que em tais situações é desejável que se escolha o mal menor, já que há erros mais e menos graves. Roubar é menos grave do que matar, por exemplo.

 

 

A teoria (ou doutrina) do duplo efeito seria uma forma de “salvar” a proposta de se fazer um mal para se atingir um bem? De certa forma, sim. Se considerarmos que aquela acrescenta a esta um detalhe: que o mal não seja, ele próprio, instrumento para se atingir um bem, mas, sim, um acidente. Donagan concordará com essa assertiva, desde que o mal em questão não seja um mal mesmo se considerado isoladamente. Tal situação é exemplificada da seguinte forma: imagine-se que um médico coloque-se em risco de adquirir uma infecção ao se dispor a tratar doentes infectados. Tal exemplo é incontroverso, de acordo com Donagan, porque tornar-se exposto a uma infecção não é em si uma ação não permissível.

 

A teoria do duplo efeito passa a ser problemática quando aplicada a casos quando o mal for não permissível quando considerado por si mesmo. Matar é errado. Matar em autodefesa não será errado em acordo com a teoria original (do jesuíta Gury) do duplo efeito, pois o ato de se defender seria um, e o de matar, outro. Matar teria sido acidental, defender é que teria sido o ato original. Tal abordagem não faz muito sentido, e Donagan apresenta outra forma de se apresentar a teoria do duplo efeito, de Germain Grisez, que acrescenta a ­intenção no ato. Se o mal acontecido não foi instrumento (Gury) nem intenção (Grisez), e o bem é proporcionalmente sério, então está moralmente justificado. Entretanto, nenhuma dessas abordagens é necessária, acredita Donagan, pois nem faz sentido separar um ato em duas partes, nem também levar em consideração a intenção, pois basta que o ato tenha sido voluntário e justifique-se por si mesmo. Matar em autodefesa é moralmente justificável não porque não houve intenção de ­matar para se defender, mas porque, mesmo tendo havido tal intenção, se foi em ato de autodefesa, com o objetivo de autodefesa, está moralmente justificável na medida em que o preceito fundamental respeitar o ser humano como ser racional aplica-se até o momento em que estamos diante de alguém que nos aplica violência e que por isso perde o “direito” a tal respeito. Não há necessidade de se recorrer à teoria do duplo efeito para situações em que o efeito ruim (o mal) é em si mesmo justificável para se alcançar o efeito bom (o bem). Porque são uma e a mesma coisa, e esta será justificável se o for originalmente, ou seja, se for de acordo com um preceito fundamental da moralidade.

 

A filosofia no cinema

 

Voltando então ao nosso filme, os enviados do Vaticano estavam certos em sua opção ou os padres locais? Se a moça se deitasse com o capetão, seria “o fim dos dias”, o mundo estaria entregue ao caos (Parênteses: se ocorre a alguém questionar isso, pois o mundo, sob o domínio leibniziano de Deus, já é um caos, uma desgraça, não se incomode, você não está só). E protegê-la estava se mostrando impossível. Temos aqui a tradicional luta entre a ética consequencialista e não consequencialista. Matar é errado, não importa a consequência. E se a consequência for o fim do mundo? É como se fosse um utilitarismo elevado à enésima potência. Não se trata aqui de “o maior bem para o maior número de pessoas”, mas, sim, de “o maior bem para… todo mundo”. Essa conta é mais fácil de fazer. Pode matar a moça sem culpa católica.

 

Mas é apenas um filme, dirão. E hollywoodiano. Em Hollywood não se mata a mocinha, e sempre há um herói, e o vilão perde, mesmo que seja o diabo em pessoa. Bem, eu prometi não estragar o prazer do leitor. Assista ao filme e veja se desta vez houve um final feliz.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed.

Adaptado do texto “Duplo efeito”

*Flávio Paranhos. Médico (UFGO), doutor (UFMG) e research fellow (Harvard) em Oftalmologia. Mestre (UFGO) e visiting fellow (Tufts) em Filosofia. Professor da PUC Goiás. Autor de Cinema & Filosofia (Kindle Portuguese Edition) e do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial).