Paulina: entenda o conceito filosófico do filme

Por Victor Costa

Até onde estamos dispostos a ir para transformar a sociedade? Paulina expande o debate sobre cultura do estupro e a ética da justiça | Foto Divulgação

Na semana em que o Brasil soube do estrupo coletivo de uma jovem de 16 anos na cidade do Rio de Janeiro, Paulina (2016) estreava nas terras tupiniquins. Trata-se de um filme coproduzido pela Videofilmes de Walter Salles e dirigido pelo argentino Santiago Mitre, uma produção realizada a partir da colaboração entre Argentina, Brasil e França. Santiago Mitre é um exímio roteirista que ficou conhecido pelos seus trabalhos com o diretor, também argentino, Pablo Trapero em Abutres (2010) e Elefante branco (2012) – que confirmam a tese de que para um filme argentino ser muito bom não basta ter Ricardo Darín no elenco, é preciso ser bem escrito e bem dirigido. Para escrever Paulina, Mitre se baseou na história de um antigo filme argentino chamado La patota (de  meados da década de 1960), em que uma jovem professora de Filosofia, chamada Paulina, é estuprada por seus alunos. Em Paulina de Mitre, cujo título em português releva de imediato o nome de sua protagonista, se passa o mesmo (em espanhol Mitre escancarou sua referência e chamou o filme simplesmente de La patota – que significa literalmente “A gangue”). Paulina é uma brilhante advogada que está prestes a concluir seu doutorado e ingressar em uma infalível carreira apadrinhada pelo pai que é um respeitadíssimo juiz em Buenos Aires. Mas ela decide largar tudo para ir dar aulas de política numa escola em Misiones, cidadezinha argentina na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Em Misiones, Paulina sofre a violência de um estupro.

O filme começa com um longo plano-sequência com cerca de 8 minutos diante da discussão entre Paulina e seu pai. O take funciona como um prólogo. A partir dele conhecemos o currículo Lattes de Paulina, a ficha-limpa de seu pai e a decisão de Paulina (a contragosto do pai) de mudar-se para o interior. Nesse prólogo somos como que jogados no campo de batalha entre a vontade e o poder. Quando Paulina revela ao pai sua vontade completamente utópica e motivada por sua ideologia assumidamente de esquerda, o pai surta e, como numa tribuna familiar disputada por dois advogados, diz à filha: “me convença que quer ir”. Paulina, como uma xamã guarani, encarna todos os sonhos mais românticos e caóticos da esquerda burguesa sul-americana, da qual este que vos escreve faz parte, e vocifera seu fluxo de consciência burguesa-engajada sobre o pai. Freud, se visse a cena, iria ter faniquitos na cadeira do cinema. Não é que Paulina responde à provocação machista-discursiva do pai (convença-me!), ela evita a resposta direta e aposta em observações interrogativas.

Minhas professoras e professores de Filosofia sempre insistiam que o caminho do conceito filosófico se inicia pela interrogação bem formulada. A pulga circunscrita atrás da orelha. “A dúvida move o pensamento”, como dizia Aristóteles. Paulina é um filme que nos coloca não uma pulga, mas um tiranossauro atrás da orelha. Sua cabeça vai pesar ao assistir esse filme. O pai de Paulina, velho romântico da esquerda argentina que lutou contra a ditadura militar, não concorda com a decisão da filha de repente, não mais que de repente, trancar o doutorado e mudar-se para o interior para dar aulas numa escola paupérrima. Mas a entende. O afeto também é político. Entre a vontade de vida e o lugar do poder, o afeto familiar se assenta. Paulina então se muda para Misiones, vilarejo cheio de conflitos sociais na fronteira Brasil, Argentina e Paraguai – lugar onde as pessoas ainda falam o idioma guarani. Paulina é poderosamente mulher no sul das Américas. Elas bebem, fumam e riem. Paulina volta tarde para casa numa lambreta emprestada pela amiga. Alguma coisa vai acontecer abaixo da linha do Equador, você sabe. Numa curva da estrada de terra, depois de um pequeno interpretada pela atriz Dolores Fonzi, a atriz do momento no cinema argentino. Dolores é linda e forte, uma espécie de Afrodite sul-americana. Emprestando seu corpo para Paulina, nossa protagonista se apresenta como uma Antígona sul-americana: sabe o que deseja e ignora por completo as regras coercitivas do poder. Paulina muda-se para Misiones e começa a lecionar as aulas de política. Constrói uma bela amizade com uma funcionária da escola e certo dia, depois de uma aula difícil (os alunos não dão retornos muito positivos diante das aulas de Paulina), vai tomar vinho na casa dessa amiga. Lindas cenas íntimas de duas pessoas tão diferentes que se encontram e se reconhecem a partir da condição de ser túnel, Paulina é atacada por um grupo de homens. É a cena de quando é estuprada.

Seu pai então faz de tudo para ela mudar de ideia e retornar à sua vida anterior: voltar para Buenos Aires, terminar o doutorado e ingressar na carreira de juíza. É aí que descobrimos que Paulina não está interessada no certo ou no errado, no juízo, e sim na verdade que emana das linhas de subjetivação, isso de que tanto falavam Foucault e Deleuze: as possibilidades de existência para além, mais para muito além, do domínio das regras codificadas do saber e do poder. Aquela velha instituição do poder, representada pelo poder soberano na época das monarquias, agora, como falava Foucault, está recoberta pela administração dos corpos e pela gestão calculista da vida. Com isso temos que a vida, os corpos, são organizados e controlados pelos instrumentos de pequenos poderes diluídos nas relações, os micropoderes. A essa gestão calculista da vida, Foucault chamou de “biopoder”. É dessa gestão calculista da vida, dos biopoderes, que Paulina quer escapar. Essa noção de biopoder atravessa o filme Paulina. Paulina, ela mesma, vítima da noção de Justiça de seu pai juiz; seu algoz, pelo seu olhar, vítima do sistema Judiciário, social, educacional.

Mesmo depois da violência que sofreu, Paulina não abala suas convicções e volta a lecionar em Misiones. E mais: ela descobre quem é seu estuprador e decide se encontrar com ele no mesmo local onde ele a estuprou. Às vezes entendemos as motivações de Paulina, às vezes não. Mas o roteiro e a direção de Mitre são muito assertivos porque somos levados a acompanhar e a ouvir Paulina, não a julgá-la. A vítima da violência como a de um estupro precisa ser ouvida, não julgada. Mitre utiliza um recurso narrativo simples e fino. Usa o depoimento de Paulina na delegacia, fazendo o Boletim de Ocorrência, como locução de trechos de um quase curta-metragem em flashback dentro do próprio filme que nos apresenta a vida daquele que já sabemos, e sabemos apenas isso, que é o estuprador. Trata-se um jovem muito simples, não bonito, provavelmente descendente de índios, visivelmente atravessando por uma série de problemas sociais desde a pobreza, a sexualidade até a educação. Ele trabalha numa madeireira, estuda na escola em que Paulina leciona, bebe, fala pouco e acabou de ser dispensado pela namorada que é linda e gostosa. Neste “curta-flashback” descobrimos que este rapaz pensava ser a ex-namorada (que o dispensou) a vítima do abuso sexual – ele decidiu atacá-la por ciúmes (antes, ele a viu transando com outro homem). Vingança machista passional. Essa é a conclusão mais óbvia que chegamos a intuir assistindo este trecho do filme. Mitre é de uma sutiliza suntuosa. A perspectiva é que o machismo é construído a partir da noção de carência. O machismo é a carência pura. Carência de convicções, de carinhos, de cuidados, de atenções. Depois de saber deste contexto, voltamos à Paulina. Não conseguimos entender o que se passa em seu pensamento e em seu corpo. Mas sabemos que ela sofre na mesma medida em que se questiona, reflete. Paulina tem muito a postura de uma filósofa, que sabe que a verdade não existe, mas nunca deixa de buscá-la. Utopias atravessando a chão de terra de Misiones. Ela quer se encontrar com seu algoz para entender suas razões. Numa das lindas cenas do cinema latino-americano atual, ela entra na madeireira e vai até o seu estuprador. Apresenta-se e marca o encontro. Vira as costas e sai de peito aberto e cabelos ao vento. Que cena. Nesse ínterim, o pai de
Paulina faz de tudo para encontrar o estuprador – vale-se de seus abusos de poder para interferir no caso. Até que a polícia encontra e prende o rapaz (seu encontro com Paulina é cancelado,
ou melhor, adiado). Na delegacia, na hora do reconhecimento do acusado, Paulina nega que o conhece. Novamente: que cena! Paulina mente sobre o reconhecimento de seu algoz.

Paulina sabe que as instituições – a Justiça, a polícia, a cadeia – causam uma violência tão proporcional quanto a que ela recebeu. Ela não suporta mais violência. Vou pular muitas coisas. Como roteirista, preciso reconhecer que o roteiro de Mitre é uma obra excepcional que se concentra na ações e reflexões de Paulina. Acho que poucas pessoas entendem as razões de Paulina. Mas o
que fica claro é que ela tem uma convicção inabalável (e invejável) na humanidade. Um dos últimos takes do filme é outro longo diálogo entre pai e filha, repleto, como no do início, de vontades
e poderes. O pai de Paulina está atormentado com a ideia de que sua filha sofreu um crime do qual ele não pôde/conseguiu punir o culpado. Ele sente sua reputação de macho-juiz-juiz-macho manchada, e sofre por isso. Mas ele ama sua filha e a admira. Paulina também o ama e pouco se importa com as preocupações maistream burguesas -machistas do pai. A cena final é um plano frontal de meio corpo de Paulina caminhando por Misiones, em silêncio numa rua de terra vermelha.

 

Foto: Divulgação

Victor Costa é redator e roteirista. Mestrando em Filosofia no HCTE-UFRJ e bacharel em Filosofia pela PUC-Campinas. Estudou roteiro cinematográfico na EICTV, em Cuba. www.facebook.com/remosinuteis. E-mail: victorcosta. pauta@gmail.com

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 121