O apartheid mitigado

Uma reflexão filosófica sobre as relações sociais na cidade moderna exige que detenhamos nossa atenção para um dos seus frutos mais impactantes na configuração visual do tecido urbano: a construção do shopping center

Por Renato Nunes Bittencourt* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web caroline Svitras

Mais do que um espaço comercial que favorece o desenvolvimento de interações societárias assépticas e seguras, o shopping center é também uma ideologia materializada e uma produção de signos, características que exigem um estudo multidisciplinar para compreendermos razoavelmente a presença desse espaço na topografia citadina.

 

A configuração física do shopping center apresenta uma estrutura de receptividade e acolhimento similar àquela exercida pelo útero materno na proteção do feto. Com efeito, o frequentador desse espaço social de consumo vivencia uma experiência de segurança tal como a proporcionada por uma mãe, regulando a sensações de calor e de frio em seu organismo. Talvez, por isso, seja praticamente impensável uma visita rápida em tal centro de compras. Vai-se ao shopping center para se passar uma manhã inteira, uma tarde inteira, uma noite inteira, até mesmo para se ficar o dia todo. Por isso existe a profusão de tantos serviços, para que o consumidor-cidadão deseje gastar parte do seu tempo diário nesse ambiente tão agradável. Conforme argumenta o antropólogo italiano Massimo ­Canevacci, “o shopping center, o hipermercado é a somatória máxima do pós-moderno, espaço metropolitano liberado e protegido, no qual todos modelos se somam, se justapõem sincronicamente, onde se experimenta e entra em contato com a hierarquia dos olhares, entre a fantasmagoria das mercadorias e dos narcisismos, espaço no qual o tempo é como que suspenso ou, por assim dizer, adiado”.

 

 

O grande prazer do consumidor-cidadão frequentador do shopping center reside em sentir o ar-condicionado em contato com sua epiderme, relaxando os seus músculos após o sofrimento imposto pelo sol escaldante do espaço aberto das ruas. No caso de um dia frio, a climatização do shopping center lhe proporciona uma sensação de conforto, como um banho morno após sentir as agruras do ar gelado.

 

O sistema de vigilância do regime capitalista segue a estrutura do Panóptico idealizado por Jeremy Bentham (1748-1832), dispositivo que representa analogamente a manifestação social (policial) do olhar onisciente de Deus, que conhece de antemão o íntimo de todas as coisas, uma espécie de grande projeto utópico, cuja instauração resolveria definitivamente o problema da segurança da sociedade urbana: “Quanto mais constantemente as pessoas a serem inspecionadas estiverem sob a vista das pessoas que devam inspecioná-las, mais perfeitamente o propósito do estabelecimento terá sido alcançado. A perfeição ideal, se esse fosse o objetivo, exigiria que cada pessoa estivesse realmente nessa condição durante cada momento do tempo. Sendo isso impossível, a próxima coisa a se desejar é que, em todo momento, ao ver razão para acreditar nisso e ao não ver a possibilidade contrária, ele deveria pensar que está nessa condição”.

 

Ao estudarmos as infraestruturas das grandes cidades, poderemos constatar a elaboração de uma espécie de arquitetura do medo, que modificou grotescamente as configurações estéticas dos centros urbanos, tornando, assim, necessária a construção de prédios, condomínios e shopping centers de “segurança máxima” como defesa contra as ameaças dos “outros”, isto é, as pessoas que não são consideradas economicamente viáveis, assim como a grande massa de marginais sociais estereotipados como feios e sujos. Essa é a face excludente do capitalismo tardio, que embeleza o mais feio dos homens, desde que ele tenha dinheiro, caso contrário, resta-lhe a vivência de todas as violências possíveis.

 

 

O shopping center é sectário da lógica da identidade pautada nos signos do sucesso, na qual os consumidores-cidadãos se associam a grupos econômicos que adquiriram um muito razoável padrão de vida no atual contexto sociopolítico. Para a semióloga brasileira Dilma Mesquita, “a partir de um controle quase imperceptível, cada indivíduo tem a nítida sensação de estar protegido do ‘restado de peste’ (a peste chamada violência) que reina lá fora; ‘objetos de informação e nunca sujeitos de uma comunicação’, os indivíduos têm ainda a impressão de serem capazes de guiar as suas escolhas, na pretensão de estarem exercendo uma espécie de livre-arbítrio – ledo engano: o que fazem é apenas enquadrar-se nas pré-moldadas ‘tribos’ que, a partir de uma falsa ideia de grupo espontaneamente formado a partir de afinidades, acabam por implodir com a ideia e o sentido verdadeiro de coletividade”. Por conseguinte, a ideologia comercialista imperante na construção de um shopping center não coaduna com a ética da alteridade tampouco com os projetos sociais que visam à plena integração dos cidadãos em uma rede orgânica de comunhão e cooperação interpessoal.

 

Zygmunt Bauman

A visão asquerosa da pobreza, a violência endêmica que insiste em manifestar sua face terrífica e paralisante sobre o indivíduo, assim como o mal-estar da convivência coletiva massificada, não adentram no sagrado recinto do consumo integrado. Cria-se, assim, a doce narcose da existência de um mundo melhor, no qual todos os conflitos e situações desagradáveis são anulados graças ao poder tecnológico do monitoramento contínuo, até o momento em que o corpo do consumidor-cidadão se retira da grande malha de proteção e retorna ao seu hábitat espremido entre as malhas de ferro da insegurança social. Para o pensador polonês Zygmunt Bauman (1925), “a insegurança alimenta o medo: não há novidade, portanto, o fato de que a guerra à insegurança tenha grande destaque na lista das prioridades dos planejadores urbanos […]. O problema, porém, é que, com a insegurança, estão destinadas a desaparecer das ruas da cidade a espontaneidade, a flexibilidade, a capacidade de surpreender e a oferta de aventura, em suma, todos os atrativos da vida urbana – a alternativa à insegurança não é a beatitude da tranquilidade, mas a maldição do tédio. É possível derrotar o medo e ao mesmo tempo suprimir o tédio?”.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 93

Adaptado do texto “O apartheid mitigado”

*Renato Nunes Bittencourt é doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ. Professor do curso de especialização em Pesquisa de Mercado e Opinião da UERJ. Professor da Faculdade CCAA e da Faculdade Duque de Caxias-Uniesp. Membro do Grupo de Pesquisa Spinoza & Nietzsche. renatonunesbittencourt@gmail.com