O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari

Por João Teixeira* | Foto: Wikimedia | Adaptação web Caroline Svitras

 

Na minha graduação em Filosofia tive um professor que era apaixonado pela obra de Freud. Ele lia Freud como se fosse um filósofo e considerava a Psicanálise como uma das mais brilhantes narrativas da espécie humana, só comparável à Bíblia ou ao darwinismo.

 

Passei a interessar-me pela obra de Freud e comecei a lê-la pelas cartas a Fliess, trombei com o Projeto para uma Psicologia Científica, mas dei a volta e fui para os Estudos sobre histeria. Só alguns anos mais tarde percebi que Totem e tabu era apenas um manual de Antropologia fantástico. Mas isso não é importante. Freud nunca foi um etnógrafo e suas concepções sobre a vida dos povos primitivos se basearam, totalmente, no livro O Ramo dourado, de James Frazer.

 

Mas Totem e tabu expõe a teoria freudiana da cultura. Não é um livro de Antropologia. Nele, Freud examina como o Édipo é uma estrutura biopsicossocial. A proibição edipiana da sexualidade imposta pelo pai é a origem do incesto. Sem o incesto não teria havido civilização. É por isso que o casamento interfamiliar acaba, reprimido pelo pai. Essa é também uma vantagem biológica, pois o cruzamento de DNAs diferentes fortalece a imunidade. Contudo, o Édipo dá origem à conspiração para o parricídio, que se tornará, depois, a morte do líder e a conspiração contra o príncipe. O enredo familiar e o da cultura são praticamente os mesmos nas culturas ocidentais.

 

Mas não será essa uma interpretação do Édipo influenciada pelo judaísmo? Renato Mezan, um dos grandes comentadores brasileiros da obra de Freud, afirma, no seu livro Freud, pensador da cultura, que Freud era judeu e que isso teve grande influência ao longo de sua obra.

 

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O Deus judaico, o Yahweh ou outro nome, é esse grande pressuposto. É o Deus do antigo testamento, o Deus cruel contra o qual o homem, essa criatura finita, se revolta. É o Deus que criou este mundo insuportável, o Deus arbitrário que mandou Abrahão sacrificar seu filho por um mero capricho. Era o Deus que mandava matar os filhos e que, por isso, justificaria o desejo parricida inerente à cultura judaica.

 

O Édipo de Freud é o parricida. Essa preocupação aparece, claramente, no Totem e tabu. Somos todos parricidas, pelo menos inconscientemente. Mas será que essa ideia é adequada para a nossa cultura cristã, a cultura do novo testamento? Afinal, a crucificação não é um parricídio.

 

Na cultura cristã há um Deus que manda seu filho único sofrer e morrer para salvar a humanidade. É um Deus filicida. E, afinal de contas, não será esse Édipo invertido que atravessa nossa cultura? Por que essa questão não foi levantada pelos comentadores de Freud?

 

Os pais massacram os filhos. Antigamente, eles eram forçados a trabalhar já na infância. Muitos sofriam espancamentos. Pais modernos fazem o discurso da liberdade, mas constrangem o futuro de seus filhos por meio de uma educação rigorosa. Frequentemente, esses pais projetam em seus filhos seus planos de vida frustrados. Muitas pessoas só percebem isso ao chegar à metade de suas vidas, quando acontecem os divórcios e muitos abandonam seus empregos e vão construir pousadas em lugares longínquos.

 

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Parricidas são inaceitáveis. Se há conspirações para cometer o parricídio, frequentemente elas são apenas uma reação ao filicídio, cujo papel fundamental no drama familiar é mantido sempre sob um impecável disfarce de carinho e de generosidade. Mas haverá mais parricídios do que filicídios? O que nos dizem as estatísticas?

 

A hipótese do filicídio foi abordada, pela primeira vez, por um psicanalista argentino dos anos 1970, Arnaldo Rascovsky. Porém, ele não atraiu muita atenção por parte dos intérpretes oficiais da obra de Freud. Rascovsky afirmou que as gerações mais velhas barram as mais novas, impondo a elas uma educação que inibe a criatividade. A formação dos exércitos sempre pelo recrutamento dos mais jovens que eram enviados à morte também era um dos argumentos de Rascovsky para defender sua hipótese.

 

Creio que, hoje em dia, é muito difícil negar o filicídio. O desdém de nossa geração com os problemas ambientais é uma prova dessa afirmação. Os grandes conglomerados que reúnem montadoras, petroleiras e produtores de autopeças condenaram o planeta ao suicídio ambiental. As organizações ambientais são hipócritas e, frequentemente, financiadas pelas petroleiras. Ou seja, estão condenando as gerações futuras à extinção.

 

Todos querem consumir aqui e agora, e sempre com medo de perder a vez no futuro. Ninguém, verdadeiramente, está preocupado com o destino de seus netos.

 

Meu caso de amor com a Psicanálise terminou quando li o Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari. Eles criticam a Psicanálise por erigir o pai e a mãe como entidades metafísicas desenraizadas da sociedade na qual vivem. É por isso que eles atacam a ideia freudiana de Édipo e afirmam que é preciso considerar a realidade dos pais como criaturas que trabalham e que estão inseridas em uma sociedade opressora, na qual não há heróis e na qual somos cotidianamente massacrados pelos aparelhos do poder. O Anti-Édipo é um livro apaixonante, provocador e que impressiona pelo extraordinário conhecimento histórico que os autores têm da Psicanálise e da Psiquiatria nos séculos XIX e XX. Mas ainda prefiro O Filicídio de Rascovsky.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 113

Adaptado do texto “O Anti-Édipo”

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org