O amor depois dos 40

Por Lúcio Packter* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Por que uma pessoa, um ser vivo, simularia estar viva? Afinal, ela vive. Por que simularia algo que já é, que já possui? Não é mais simples, direto, plausível, simplesmente viver? Qual o motivo de simular? Uma das respostas para isso é insólita: uma parte da pessoa feneceu, uma parte ligada aos sonhos floridos, à poesia do amor, paz, realizações pessoais; outras partes, ligadas à dor, ao medo, às ansiedades e mentiras, necessidades sustadas, seguem viçando – entre outras coisas, possivelmente pelo sucumbir daquela primeira parte. Então, algumas pessoas ainda buscam o amor, a sexualidade, esmeram por uma vida melhor; mas na falta dos fatores que antes levavam e que possibilitavam tais experiências, muitas dessas pessoas adotam a simulação, tornam-se criaturas de plástico, aparentam estar vivas, fazem de conta que amam, que perdoam, que compreendem… tudo um simulacro. Procuram o amor, conhecem os protocolos, as informalidades, os procedimentos. E, no entanto, não há gosto, não há cor, não há aroma, não há textura, vida alguma para além do embotamento.

 

As crianças cresceram enquanto Marlene chegava aos 54 anos e um dia a casa ficou maior, quando as “crianças” partiram. O casamento de Marlene terminou há alguns anos, apenas morreu de velhice. Marlene fez duas plásticas corretivas, costuma fazer caminhadas, mantém o corpo hidratado e limpo. Marlene faz parte de um grupo imenso de pessoas que recentemente inventou um novo modo existencial, resultado dos desenvolvimentos de um novo mundo: ela tem energia, disposição, vida suficiente para desejar namorar. Em um site de relacionamentos, Marlene conheceu Ângelo, um homem de 49 anos, viúvo, dois filhos, netos, empresário do ramo de peças. O que buscam? Como se desenvolvem neste relacionamento? O que acontece? Quais as questões mais presentes? Perspectivas para a vida, quais? Qual o lugar que a sociedade possui para Marlene e Ângelo?

The Kiss, por Gustav Kilimt | Imagem: web gallery

Marlene tem um neto de 10 anos, é bonita, sensível, encontrou Ângelo em um site de relacionamentos; isso ocorreu após uns namoricos casuais e uma chateação que Marlene prefere não mencionar. O que Marlene busca em seu relacionamento com Ângelo é companheirismo, paz, afetividade; deseja viajar, ir a bons concertos, ter sexo com qualidade. Busca um amigo, uma pessoa calma e inspirada na convivência. Ela não se entregará inteiramente a Ângelo, mas poderá ser uma mulher maravilhosa com quem ele de fato conseguirá viver bem, em paz. Marlene não confia mais, não acredita no amor, mas sabe que se Ângelo for um bom homem, tudo isso derreterá e se transformará em confiança, amor. Marlene passou momentos difíceis com o ex-marido, um homem vaidoso, alcoólatra, frustrante – segundo ela.

 

Como se desenvolveu o relacionamento com Ângelo? Após um início encantador, enamorada e cativada em delicadeza, romance, promissor início com duração de seis meses, questões familiares e pendências afetivas não conhecidas anteriormente com relação ao ex-marido promoveram momentos de estresse, desentendimentos. Ângelo notou que o ex-marido e o neto eram muito presentes na vida de Marlene. Permitiam que sonhasse, mas causavam alaridos que acabavam por inviabilizar os romances de Marlene. Por que será que Marlene não mencionou nada disso a Ângelo? Ainda que plenamente separados, o ex-marido de Marlene almoça com ela duas vezes por semana e dorme em sua casa uma sexta-feira por questões do trabalho que ele realiza. Ângelo soube disso depois de estar envolvido com ela, pois no início isso ficara apenas sugerido, entre as linhas confusas da dubiedade. Marlene aprecia a sinceridade e não considera que tenha agido de má-fé com Ângelo, não considera que esteja fazendo qualquer coisa errada. Pensa que Ângelo tem “ciú­me” e que isso atrapalha a relação. Seu ex-marido dorme em outro quarto, eles mal se falam. Ângelo logo constata em inúmeros sinais que não ocupará o lugar existencial na vida de Marlene que o início da relação prometia, não ocupará um lugar que lhe permita viver em paz com ela, pois fantasmas rondam, e seres vivos ameaçadores rondam. Marlene acredita que sabe conciliar os elementos, mas a maneira como age cria constrangimentos, abre passagem para dores. Mais uma vez, o romance não acontecerá por muito tempo, provavelmente.

 

 

O que Ângelo deseja é um relacionamento no qual “não tenha aborrecimentos”. Jovial, realiza caminhadas e cuida da aparência. Não acredita mais em amor, não corre riscos neste sentido, primeiro examina com quem vai se envolver. Detesta mentiras, mas mente socialmente. Exige fidelidade, mas ocasionalmente não a exerce. Elogia a sinceridade e se atrapalha frequentemente com isso devido a uma idosa vaidade social que lhe perturba o discernimento. Ângelo é reconhecidamente um homem bom, se considerarmos os critérios de nossa época. Seus enganos e estorvos não arranham sua dignidade diante dos demais. Aprendeu a delicada arte de lidar com as contradições de modo a se sair bem. Gosta muito de Marlene, mas entrou em uma situação de “morde e assopra” – segundo as palavras dele. Ângelo nunca ficou com uma mulher mais de um ano. Não faz planos. Marlene é importante para ele, mas pode ser mais importante ficar sem ela. Ângelo tem uma amiga íntima e a encontra esporadicamente; não considera que esteja traindo Marlene, porém não sabe por que não fala a ela sobre isso.

 

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel.
luciopackter@uol.com.br

Adaptado do texto “Os amores tardios”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 111