Nosso corpo conta nossa história

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Algumas pessoas guardam elementos em registros somáticos, ao longo de seus corpos. No entanto, o que cada pessoa guarda, como ela arquiva, e onde, eis o material de longa pesquisa em clínica. Há quem armazene sobre a pele da face os carinhos e os amores da vida, enquanto outros repousam naquelas células a dor e a tristeza. O que uma pessoa guarda em sua biblioteca existencial nem sempre está diretamente relacionado àquilo que ela viveu; existem movimentos peculiares, feito o vivenciar o amor e registrar a perda.

 

Em sua obra O tempo reencontrado, Marcel Proust escreveu: “O corpo encerra o espírito numa fortaleza; depressa a fortaleza é cercada por todos os lados, e por fim o espírito tem de se render. Mas limitando-me a distinguir as duas espécies de perigos que ameaçam o espírito, e começando pelo exterior, lembrava-me de que já muitas vezes na vida me acontecera, em momentos de excitação intelectual em que uma circunstância qualquer suspendera em mim toda a atividade física (por exemplo, ao deixar de carruagem, meio embriagado, o restaurante de Rivebelle a caminho de um cassino qualquer nas proximidades), sentir muito nitidamente dentro de mim o objeto atual do meu pensamento e compreender até que ponto dependia de um acaso, não apenas que tal objeto não entrasse ainda nos meus pensamentos, mas que fosse aniquilado com o meu próprio corpo”.

 

Mas alguns espíritos são pobres, pequenos em demasia, para determinados corpos; assim como ocorre em via contrária. Outras vezes estamos diante de impasses, pois corpo e alma parecem não combinar, não coabitar em paz em uma mesma criatura. Além disso, estas disposições são passíveis de mudanças ao longo da existência. Entre outras coisas, por isso Victor Hugo explanou o problema: “O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem”.

Entenda a cultura do corpo

 

O que existe de mais físico, concreto, palpável, em algumas pessoas é o conceito, o verbo mental, bem mais além do que proponha a pedra, o tijolo, os aspectos convencionados como sensoriais. Muitas questões disso podem evoluir. Um homem que guardou em seus braços a luta intensa que foi sua vida, o ardor, o sacrifício, a intensidade de seu mundo, o que ocorrerá de suas lembranças se em um acidente um dos braços lhe faltar? As lembranças então depositadas no braço se perderão? Migrarão? Isso dependeria de muitos fatores, e cada historicidade é única para podermos responder.

 

O escritor Pedro Chagas nos traz um exemplo no qual os corpos são feitos de tempo: “Um dia, perceberam que nada era tão grande que apagasse as rugas, que nada era tão forte que apagasse os anos. Um dia perceberam que até o amor envelhece. Estavam, nesse dia, absolutamente nus diante da verdade. Ela viu que ele estava velho, ele viu que ela estava velha. Pensaram, por momentos, que eram os olhos que estavam equivocados, que tudo o que havia era o mesmo corpo de sempre, a mesma pele de sempre. Pensaram, por momentos, que eram os olhos, e nada mais, que estavam equivocados”.

 

Consultar um coração para se saber se suportará os problemas atuais… Como se faz? Pergunta-se verbalmente, em som alto, diretamente ao coração? Toca-se com a mão espalmada e quente suavemente sobre o peito? Entoa-se uma antiga cantiga outonal? Se for o coração de Clarice Lispector: “O prazer é abrir as mãos e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarniçadamente prendendo. E de súbito o sobressalto: ah, abri as mãos e o coração, e não estou perdendo nada! E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre!

 

O que é o homem?

 

Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser. Mas vem uma segurança estranha: sempre ter-se-á o que gastar”. Porque cada coração é repleto de sua singularidade.

 

Carlos Drummond de Andrade afirma que “o corpo não é feito só para sofrer, mas para sofrer e gozar. Na inocência do sofrimento como na inocência do gozo, o corpo se realiza, vulnerável e solene. […] Será mesmo o acaso, será lei divina ou dragonária, que me parte e reparte em pedacinhos? Meu corpo, minha dor, meu prazer e transcendência, és afinal meu ser inteiro e único”.

 

Ainda que se saiba consultar, o que podemos dizer sobre a resposta que um órgão, um tecido, um sistema nervoso, ossos… Aquele que conseguiu o caminho para perguntar conhecerá os sinais da resposta? Haverá resposta? Respostas? Respostas que às vezes se desfazem em novas interrogações. Caminhos. E todos estes elementos se reúnem em volta do fogo trepidante da fogueira à noite para que se considere o que fazer a respeito.

 

Vergílio Ferreira escreveu: “As coisas familiares, tão redutíveis e manuseáveis, imediatamente regressam ao indizível e insondável, se as mantivermos sob o fogo do ‘porquê’. É um porquê inocente e por isso as crianças o conhecem. É uma interrogação elementar e por isso ela é a primeira. E o que responde a esse questionar não é a resposta – que a não há – mas as múltiplas formas da tranquilidade que identificamos com a sensatez. Essa a nossa virtude de adultos e que as crianças aprendem na aprendizagem de adultos. E uma das formas da sensatez é a integração no mundo da positividade do mundo que se lhe furta”.

 

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*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br