Nise – O coração da loucura

Por Victor Costa* | Foto: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

Em 1936, quando o governo de Getúlio Vargas começou a perseguir comunistas, Dra. Nise da Silveira foi presa porque trabalhava como médica voluntária de grupos ligados ao Partido Comunista Brasileiro (do qual ela era filiada). Presa, mas logo liberada. Um mês depois, a polícia de Vargas prendeu Dra. Nise pela segunda vez – acusada, agora sim, de ser comunista. Foi uma enfermeira do Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, onde Dra. Nise trabalhava como psiquiatra do serviço público, que fez a seguinte denúncia: no meio dos livros de psiquiatria da doutora havia também livros de Marx. Criminosa! Dra. Nise permaneceu 18 meses como presa política numa cela de mulheres. Neste período conviveu com Elisa Berger, Eneida Costa e Olga Benário. Nas áreas comuns da prisão, conheceu seu conterrâneo alagoano, Graciliano Ramos (que trata do encontro em Memórias do cárcere). Em 1944, finalmente conseguiu ser readmitida como psiquiatra no serviço público. Então retornou à cidade do Rio e tomou posse no Centro Psiquiátrico Nacional, no bairro do Engenho de Dentro. É nesse ponto da história que começa o filme Nise – O coração da loucura (2016), dirigido por Roberto Berliner.

 

A jovem Dra. Nise (Glória Pires) entra em cena e, de costas para nós, bate no portão. Ninguém a atende. Ela insiste. Insiste até esmurrar o portão. Então a recebem. Ela entra. E a câmera a acompanha. Passamos todos pelo portão. Estamos dentro do manicômio, que mais parece uma prisão. Grades e mais grades. Gritos e mais gritos. Logo, Dra. Nise toma conhecimento dos métodos da lobotomia e do eletrochoque – práticas que associou imediatamente à tortura nas prisões do regime ditatorial de Vargas.

 

Berliner ficciona alguns dados biográficos da vida de Nise, como o sonoro não aperto da Dra. para seu supervisor diante do botão que acionaria o eletrochoque em um paciente. No filme, o não aperto se transformou numa cena em que Nise diz para o diretor do hospital que não conseguiria jamais aplicar técnicas como a do eletrochoque e da lobotomia. Como isto é um texto, e não o filme do Berliner, prefiro ficar com a história do não aperto. Diante da cama de um doente mental muito perturbado, o psiquiatra supervisor da Dra. Nise aperta o botão do procedimento do eletrochoque e o paciente entra em convulsão. Alguns segundos depois, o paciente tranquiliza-se e fica como que em estado vegetativo. Ele então manda entrar outro paciente, prepara novamente o procedimento e diz à jovem Dra. Nise: “agora é a sua vez, pode apertar o botão”. Ao que ela responde, sonora e imediatamente: “não aperto”! Nascia assim a cientista que iria revolucionar o tratamento da esquizofrenia, a humanista que iria mergulhar sem medo no inconsciente humano e recolocar o conceito de afeto no centro das relações entre terapeuta e doente mental

 

Destaque especial para a direção de fotografia de André Horta, que faz da câmera uma confidente de Nise. No plano-sequência em que vemos o primeiro grupo de internos chegando à sala da Dra. Nise, avistamos primeiramente a Dra. na porta, observando atentamente a chegada desses primeiros clientes (que é como ela chamava os pacientes); e em seguida a câmera de Horta toma a frente da Dra. e passamos a ver aquilo que ela via, detalhadamente. Essa passagem – de uma câmera objetiva para uma câmera subjetiva – em um único plano (sem cortes) é uma das coisas lindas que Horta é capaz de fazer associado a Berliner (que é um perito documentarista).

 

Voltemos ao ateliê de pintura. Almir Mavigner foi monitor do ateliê até 1951. Monitor era o líder do grupo de pacientes em cada ateliê. Nise exige que os monitores desenvolvessem seus ofícios ao lado dos doentes, estimulando-
os. A doutora também retirou as divisões de gênero das atividades, misturando homens e mulheres. Dra. Nise começou a estudar profundamente a comunicação dos esquizofrênicos, e insistia que os monitores não deveriam em momento algum forçar a comunicação e a sociabilidade com os doentes. Segundo as palavras da Dra. Nise, na condição esquizofrênica a pessoa vive estados existenciais caracterizados pelo rompimento do pensamento lógico e pelo desligamento do mundo real. Isso acarreta distúrbios seríssimos na linguagem, que é o instrumento de expressão do lógico e do abstrato; por isso, muitas vezes é impossível comunicar-se com o doente por meio de palavras. Ela dizia ainda que quem quiser entrar em contato com um doente mental deve aprender a decifrar as imagens que ele pinta ou modela – deve tentar captar as veladas expressões de suas tentativas de comunicação. Essas são as imagens do inconsciente.

 

O que quis a Dra. Nise da Silveira foi acessar os complexos e abstratos pensamentos de um esquizofrênico – o que é ainda hoje um dos maiores desafios da Psiquiatria e das terapias que lidam com saúde mental. E para isso usou a Arte como tratamento. Segundo meu amigo e professor José Otavio Pompeu, que defendeu uma tese a respeito da prática terapêutica da Dra. Nise da Silveira, publicada recentemente em um livro organizado por ele e que conta ainda com outros textos (inclusive da própria Dra. Nise), chamado simplesmente Nise da Silveira, a originalidade de nossa médica psiquiatra foi “juntar a terapia ocupacional ativa de Herman Simon [um psiquiatra alemão influenciado por Pinel], que propunha a adaptação e ressocialização do doente, com a ideia de Jung (o qual conheceu pessoalmente e se correspondeu por cartas), de que a expressão plástica despontencializa a energia psíquica investida na esquizofrenia. A isso, Nise associou ainda a ressalva de Freud, que isto precisava ser trazido para o mundo do real por meio de alguma linguagem inteligível pelo paciente, o que ela chamou de pontes para o consciente, e que era o modo de  evitar que o doente não submergisse no mar do inconsciente, perdendo totalmente a razão”. É possível conceber o tamanho dessa mulher?

 

Nise da Silveira, antes de qualquer coisa, foi uma exímia cientista do futuro. A partir do ato de resistência do não aperto uniu – como poucos até hoje – Ciência, Arte e Filosofia. José Otavio nos conta que nos períodos em que Nise esteve na clandestinidade, depois da prisão, ela intensificou o contato com as obras de Espinosa, e foi surpreendida por sua filosofia. Quando Dra. Nise volta para o Rio, vai trabalhar no hospital do Engenho de Dentro, vê os doentes mentais pintando ao lado de Almir Mavignier e começa então a criar seu conceito de imagens do inconsciente, a primeira influência que ela resgata é justamente a de Espinosa, mais especificamente a noção de espírito (psique). Segundo ela mesma, foi lendo Espinosa que descobriu que a psique é composta por um grande número de partes, porque afinal os homens ignoram as causas de seus desejos – do que insistia Espinosa que as emoções eram ideias completamente difusas: eram acontecimentos psíquicos dos quais temos apenas um conhecimento limitado. Então, a razão deve interpor-se entre o desejo e a ação. Ou seja, o prazer é diferente da realidade – e entre eles há a mediação racional. Outro filósofo lido pela Dra. Nise foi Henri Bergson. Ela leu muitos livros de Bergson na cadeia. José Otávio faz uma aproximação interessante entre os conceitos de imagens do inconsciente e de memória pura (de Bergson). “Seria como se as alucinações e o turbilhão de imagens e sensações que aterrorizam o esquizofrênico fossem virtuais e inconscientes e, ao poder pintar, estas lembranças condensassem-se na tela e permitissem ao doente viver o tempo presente”.

 

*Victor Costa é redator e roteirista. mestrando em Filosofia no HCTE-UFRJ e bacharel em Filosofia pela PUC-CAMPINAS. Estudou roteiro cinematografico na EICTV, em Cuba. E-mail: victorcosta.pauta@gmail.com

Adaptação do texto “Não aperto”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 120