Nietzsche sobre o amor

O fato de Nietzsche optar por uma existência de solidão amorosa não significa que inexista no conjunto de sua obra indícios que apontem uma maneira diferente de interpretar a questão do amor em sua filosofia

Por Renato Nunes Bittencourt* | Imagens: Wikimedia/123RF | Adaptação web Caroline Svitras

 

É usual que interpretações superficiais acerca do pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900) defendam a tese de que nosso filósofo, cuja vida afetiva foi um fracasso (conforme os preceitos burgueses da estruturação familiar), somente redigiu páginas amargas sobre as relações amorosas em decorrência dessa triste situação, e que se porventura fosse um homem bem sucedido na experiência conjugal teria talvez atenuado suas críticas aos signos amorosos e ao espírito de vida familiar.

 

Grande crítico das instituições fundamentais da organização civilizacional do mundo ocidental, Nietzsche elaborou incisivas investigações sobre as motivações psicológicas subjacentes nas relações humanas, realizando uma competente desmistificação das mesmas. Ao analisar as bases moralistas antinaturais que normatizam as ações humanas e que determinam padrões comportamentais que domesticam a espontaneidade pessoal, a filosofia nietzschiana contribui para a formação de um projeto axiológico imanente que afirma a dignidade da vida em todas as suas contradições e problemas. Nesse contexto, apesar de Nietzsche não abordar de maneira sistemática a questão do amor, foco de nosso presente texto, todavia encontramos no conjunto de sua obra belíssimas contribuições para a reflexão sobre tal tema – que abordaremos nas linhas a seguir, sem que façamos uma problematização exaustiva, impossível em tal singelo texto.

 

A embriaguez, resultante das homenagens a Dionísio, possibilitava o rompimento com o racional

Nietzsche constitui a sua filosofia trágica a partir do princípio dionisíaco de afirmação incondicional da existência mesmo na dor e na morte, pois haveria uma vida eterna para além da mera individualidade, limitada pelo espaço e pelo tempo: “Sob a magia do dionisíaco torna a selar-se não apenas o laço de pessoa a pessoa, mas também a natureza alheada, inamistosa ou subjugada volta a celebrar a festa de reconciliação com seu filho perdido, o homem. Espontaneamente oferece a terra as suas dádivas e pacificamente se achegam as feras da montanha e do deserto. O carro de Dionísio está coberto de flores e grinaldas: sob o seu jugo avançam o tigre e a pantera. Se se transmuta em pintura o jubiloso hino beethoveniano à Alegria e se não se refreia a força de imaginação, quando milhões de seres frementes se espojam no pó, então é possível acercar-se do dionisíaco. Agora o escravo é homem livre, agora se rompem todas as rígidas e hostis delimitações que a necessidade, a arbitrariedade ou a ‘moda impudente’ estabeleceram entre os homens. Agora, graças ao evangelho da harmonia universal, cada qual se sente não só unificado, conciliado, fundido com o seu próximo, mas um só, como se o véu de Maia tivesse sido rasgado e, reduzido a tiras, esvoaçasse diante do uno primordial”.

 

A relação amorosa pode ser considerada uma experiência dionisíaca, pois quando se conquista a intensidade do amor ocorre uma fusão interpessoal na qual os parceiros se fundem como que em um só ser. O amor é êxtase, pois dissolve a individualidade pessoal corriqueira que mantém a pessoa aprisionada nos limites de sua própria subjetividade. Nessa experiência libertadora, a intensidade amorosa faz com que a pessoa se dissolva momentaneamente no ser amado e vice-versa. O amor é extravagância existencial, pois as pessoas vivenciam a loucura da paixão sem a vergonha que tanto impede o florescimento da singularidade. O amor é embasado pela alegria, pois é tal afeto que empodera os sujeitos amorosos e lhes dá força para construírem uma história de vida em comunhão, concedendo novos significados para a realidade circundante. O dionisíaco não é apenas a dissolução individual e a imersão pessoal no devir, mas também a capacidade simbólica de se transformar a existência pelos afetos tonificantes que retiram a pessoa da sua vida comum, banal. Por isso a vivência do amor modifica radicalmente o sujeito.

 

O conceito de amor fati [amor ao destino] é fundamental para compreendermos a tragicidade da filosofia nietzschiana. O amor fati é a adesão incondicional ao existir, a afirmação da vida como ela é, muito mais do que uma mera aceitação da realidade. Nessa experiência trágica, nascida da compreensão do caráter inevitavelmente contraditório da vida, a pessoa se apropria das condições adversas da existência e faz de toda vivência um acontecimento prenhe de alegria, de reinvenção, de criatividade, de ressignificação valorativa, para além de toda forma de determinação moral.

 

Confira a crítica do filme A garota dinamarquesa

 

Nietzsche apresenta primeiramente essa questão no § 276 de A Gaia Ciência: “amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”. Já em Ecce homo, sua autobiografia filosófica, Nietzsche apresenta a experiência do amor fati em outros detalhes axiológicos também convergentes com a afirmação incondicional dos signos contraditórios da vida: “Minha fórmula para a grandeza do homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não suportar apenas o necessário, menos ainda ocultá-lo – todo idealismo é mendacidade ante o necessário – mas amá-lo”.

 

A desilusão de Nietzsche com Lou Salomé é o marco de sua inaptidão para o desenvolvimento de uma experiência afetiva

Qualquer pessoa pode vivenciar o amor fati em sua existência, pois constantemente somos estimulados pelas circunstâncias ruins a fortalecermos nosso ânimo e assim encontrar um evento de júbilo onde uma pessoa pessimista encontraria dor. O amor fati é então uma espécie de reencantamento do mundo e das suas relações, de modo a estabelecer a alegria de viver como capacidade de se colocar acima das contingências usualmente categorizadas como desagradáveis. Obviamente que a concretização desse estado de espírito que modifica a forma de atuação na realidade exige uma transformação interior que favorece diretamente a condução da vida pessoal no mundo circundante mediante os signos da ética trágica, em que todas as experiências são compreendidas em perspectivas globais, amplas. Para que se obtenha a capacidade de interpretar a vida sem os traços reativos da moralidade dicotômica, é necessário vencer o medo pessoal perante os desafios cotidianos da existência e aderir aos acontecimentos como experiências inigualáveis, retirando deles um aprendizado para o fortalecimento da criatividade pessoal.

 

O amor fati problematizado por Nietzsche pode ser aplicado na abordagem sobre as relações afetivas. Usualmente tendemos a querer melhorar radicalmente as pessoas com as quais interagimos, muitas vezes moldando-as conforme nossas próprias valorações. Tudo aquilo que nos desagrada no outro, não hesitamos em combater ferrenhamente para transformá-lo, sem levarmos em consideração que talvez tais características sejam as que estabelecem a singularidade de tal pessoa. A tendência é que exerçamos opressão sobre nosso parceiro, exigindo-lhe mudanças de acordo com nossas conveniências pessoais, circunstância que enfraquece a força amorosa e exaure a vitalidade do relacionamento.

 

Toda relação amorosa autêntica é um ajuste mútuo de qualidades, e assim como queremos mudar o parceiro, cabe-nos levar em conta que o parceiro talvez também queira nos modificar. Essa disposição é uma das molas fundamentais dos processos amorosos. E se porventura desenvolvêssemos a capacidade de não apenas tolerar, mas de aceitar as características que imputamos como desagradáveis de nosso parceiro? Certamente esse procedimento insólito é extremamente difícil de ser aplicado na vida afetiva, mas talvez os seus resultados práticos compensem o esforço por sua realização, pois não existe sucesso amoroso sem a superação de entraves existenciais.

 

O profano no campo do sagrado

 

Nietzsche, no seu Assim falava Zaratustra, apresenta um belo discurso sobre o poder agregador das palavras em sua difícil tarefa de conectar as pessoas em uma experiência comunicacional intrinsecamente artificial: “Não são as palavras e os sons os arco-íris e as pontes fictícias ligando aquilo que está eternamente separado? […]. Não foram os nomes e os sons dados às coisas, para que o homem se recreasse com elas? É uma linda doidice a fala: graças a ela, o homem dança por cima de todas as coisas. Que aprazíveis são toda a fala e a mentira dos sons! Com os sons, o nosso amor dança sobre arco-íris multicores”. A relação amorosa se fundamenta não apenas nas percepções sensórias e na linguagem corporal, mas acima de tudo pela comunicação verbal, e essa, mesmo limitada semanticamente, é o suporte da interatividade interpessoal. Como representar por palavras nossas vivências mais recônditas, nossos afetos mais intensos?

 

The Kiss, por Gustav Kilimt | Imagem: web gallery

 

O amor nunca pode ser expresso convenientemente por palavras, mas é o esforço por comunicar esse afeto que concede ao discurso a sua dignidade, mesmo que muitas vezes não existam palavras adequadas para representar tal sentimento e tal estado existencial. Por isso o discurso poético, apesar de suas recorrentes metáforas e fabulações, é mais pertinente para expressar a intensidade dos afetos do que a linguagem prosaica ou o jargão científico. No amor, nem sempre a verdade fatual, em sua busca sôfrega por precisão descritiva, é a melhor maneira de se representar semanticamente a potência afetiva da pessoa, tornando-se até mesmo um disparate, uma ofensa, ao receptor, não obstante a honesta verdade pronunciada pelo falante amoroso. Imaginemos o quão extravagante seria alguém dizer para a pessoa amada os efeitos físicos que lhe são percebidos pela sua contemplação mediante o uso de uma linguagem científica e, portanto, verdadeira. Sendo assim, na práxis amorosa, a verdade objetiva não faz sentido na constituição do relacionamento, mas sim a criatividade poética da linguagem, na qual a crueza da vida biológica é adaptada para a doçura retórica das belas palavras de amor, cuja intensa sutileza seduz e encanta o ouvinte apaixonado. A suave “mentira” do discurso amoroso vale mais do que a certeza fria da verdade fundamentada na evidência científica.

 

Repensando os muros existenciais

 

Na terceira dissertação da Genealogia da moral, Nietzsche estabelece uma contundente crítica ao ideal ascético, dispositivo normativo da moral teológica que conduziu ao contínuo processo de degradação da experiência da corporeidade em prol da espiritualidade desvinculada do jogo imanente da vida concreta. Toda satisfação saudável dos prazeres carnais e a própria afirmação da dignidade da vida foram imputadas, pelo sistema religioso negador de sensibilidade, como pecados mortais que afastam o ser humano da sublimidade divina. Contra essa perspectiva cadavérica, Nietzsche apresenta a possibilidade de conciliação entre a castidade e a sensualidade, pois não há oposição necessária entre ambas as esferas: na verdade as duas são intrinsecamente complementares, e essa conciliação se constitui como a base de toda fruição feliz da existência. Existem momentos em que necessitamos de um acúmulo de forças vitais para a efetivação de uma obra de grande porte, a realização de um grande feito, circunstância que impede o dispêndio momentâneo de energias orgânicas, em um disciplinado exercício ascético que potencializa nossa capacidade de atuação criativa. Conforme a interpretação nietzschiana, o grande problema ético e fisiológico surge quando o ascetismo se torna um fim em si mesmo, como um projeto reativo contra a imanência da vida.

O culto a Apolo representa uma ordem e a paz das coisas, o grego buscava, na adoração apolínea, o equilíbrio que dava sentido a uma vida cercada de horrores

Na continuidade da argumentação acerca da relação entre castidade e sensualidade e sua má compreensão pelo espírito moralista que secciona as forças vitais entre puras e impuras, Nietzsche enuncia a ideia de que “todo bom casamento, todo verdadeiro caso amoroso está além dessa oposição”. Isso significa que a própria relação amorosa depende dessa ambivalência para perpetuar sua intensidade afetiva, pois na economia libidinal de uma interação conjugal não se consegue sustentar continuamente o dispêndio das forças eróticas, assim como uma vida conjugal sem reinvenção dos jogos sexuais tende a se tornar monocórdia, empobrecendo o relacionamento. Nessas condições, a sabedoria prática do casal conduz os parceiros amorosos, em circunstâncias ótimas, a desfrutarem ao máximo as qualidades eróticas de ambas as polaridades, tornando assim a vida sexual do casal mais plena, mais alegre, mais realizada.

 

Nietzsche, filósofo que se manteve no decorrer de sua vida intelectual constantemente afastado das demandas práticas dos relacionamentos afetivos, contribui assim com reflexões candentes sobre a questão do amor, esse afeto primordial que talvez seja a força motriz que nos estimula a realizar as ações mais criativas e os empreendimentos mais extraordinários de nossa existência fugaz e contingente.

 

 

Renato Nunes Bittencourt é doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ. Professor da FACC-UFRJ.

E-mail: renatonunesbittencourt@gmail.com

Adaptado do texto “Amor fati: por uma relação autêntica”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 120