Naturalização do machismo

Apesar das mudanças significativas que percebemos atualmente acerca da condição feminina, resquícios arcaicos do patriarcalismo conservador ainda permanecem incrustados nas relações sociais

Por Renato Nunes Bittencourt* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

A subjugação da mulher pelo poder masculino, situação radicalmente questionada em nossa sociedade atual (apesar das  resistências insanas de grupos fundamentalistas que chafurdam na misoginia), encontra arcaica fundamentação cultural em nossa organização civilizacional, seja nas tradições religiosas, míticas e até mesmo artísticas e filosóficas. Para compreendermos convenientemente os fundamentos do espírito patriarcalista, a análise de obras clássicas do pensamento grego adquire suma importância. Posteriormente faremos conexões com nossa realidade atual.

 

Iniciamos assim essa investigação através da análise da trilogia trágica Oréstia, de Ésquilo (525 a.C. ~ 456 a.C.), que apresenta a culminação de uma das mais célebres narrativas míticas da cultura grega: no retorno do rei Agamenon da Guerra de Tróia, Clitemnestra, sua esposa, lhe prepara uma traiçoeira recepção triunfal, insistindo para que o monarca adentrasse no palácio real de Micenas caminhando em um tapete púrpuro, que simboliza a mais terrível traição mascarada pelo laurel da glória: a cor vermelha da ação heroica é conspurcada pela mácula do sangue de seu assassinato. Clitemnestra considera que o seu crime é legítimo por acreditar que tal ato serviria de reparação pelo sacrifício de sua doce filha Ifigênia, imposição da deusa Ártemis para que as frotas aqueias pudessem finalmente zarpar rumo às terras troianas, a fim de vingarem o rapto de Helena, esposa de Menelau, irmão de Agamenon. Orestes, honrando o nome do pai, vinga a morte do progenitor executando impiedosamente sua mãe Clitemnestra:

“Pára, meu filho! Pára, mira e respeita/ os seios dos quais tantas vezes tua boca/ até durante o sono tirou alimento”

Clitemnestra é retratada como uma mulher com características masculinas, sabendo refletir, planejar e usar a retórica

 

Segundo o princípio materno defendido fervorosamente pelas Eríneas, as entidades punidoras dos crimes de sangue, Orestes deveria ser submetido a um violento castigo, mas, baseando-se no direito olímpico, de caráter patriarcal, ele é proclamado inocente. O deus Apolo faz ver ao júri reunido na assembleia que maior delito fora na verdade o cometido por Clitemnestra contra Agamenon, de modo que o assassinato de Orestes contra sua mãe representaria, na verdade, a extensão imediata do próprio poder reparador do deus. Orestes efetivou o ato terrível não em seu próprio nome, mas em nome da justa ordem social preconizada por Apolo:

 

“É lei que o sangue, uma vez derramado/ em plena terra, exija sangue novo./ Um assassínio clama em altos brados/ pelas divinas fúrias vingadoras,/ para que em nome das primeiras vítimas/ elas provoquem implacavelmente/ nova desgraça em seguida à antiga”

 

Clitemnestra, ao assassinar Agamenon, cometeu um crime que, não sendo punido, destruiria a estabilidade da estrutura social.  Tal fato retira todo traço de culpa sobre a cabeça de Orestes, e se porventura o herói não justiçasse o sangue derramado de seu pai pela pérfida obra de sua mãe, ele cometeria uma injustiça ainda mais grave, pois acabaria por contrariar o imperativo divino, que de forma alguma pode ser posto de lado:

 

“Por certo o onipotente oráculo de Apolo/ não falhara depois de haver determina- do/ que eu enfrentasse esse perigo até o fim/ e revelado em altas vozes aflições/ que fizeram gelar o sangue no meu peito/ se não vingasse um dia a morte de meu pai/ punindo os homicidas; o deus ordenou/ que eu os exterminasse em retaliação,/ enfurecido pela perda de meus bens./ Se eu não obedecesse, disse ainda o deus/ teria de pagar um dia a minha dívida/ com a própria vida entre terríveis sofrimentos”

 

Uma das lendas mais famosas sobre as Eríneas consiste na perseguição a Orestes, o príncipe de Teba, pelo assassinato de sua mãe, a rainha Clitemnestra

 

Na dimensão olímpica, o papel progenitor do pai, considerado como o elemento ativo da relação, prevalece sobre o papel natural exercido pela mãe, que é colocada como gênero passivo, um mero receptáculo da fonte de vida. Conforme o deus Apolo expõe aos jurados no julgamento de Orestes:

“Aquele que se chama de filho/ não é gerado pela mãe – ela somente/ é a nutriz do germe nela semeado –;/ de fato, o criador é o homem que fecunda;/ ela, como uma estranha, apenas salvaguarda/ o nascituro quando os deuses não o atingem”

 

Após as colocações precedentes, cabe agora analisarmos o Econômico de Xenofonte (? ~ 354 a.C.), discípulo histórico de Sócrates (? ~ 399 a.C.). Esse diálogo filosófico trata sobre os fundamentos que devem regular a administração da casa, favorecendo a justa manutenção da ordem da vida privada de modo a proporcionar para a família a harmonia; e ao patriarca do lar, o homem, aquele que é naturalmente destinado para a vida pública, Xenofonte proclama:

 

“Os bens entram na casa através dos atos do marido, mas são gastos, em sua maioria, através das despesas feitas pela mulher”

 

O homem é o provedor social dos bens e cabe à mulher geri-los convenientemente no âmbito doméstico, evitando-se os desperdícios, circunstância que Xenofonte considera regra entre as mulheres por sua falta de controle racional. Tal preconceito se perpetua mesmo na atualidade, imputando-se às mulheres a predominância de traços impulsivos que lhes fariam dispender exageradamente seu dinheiro, gerando não apenas sua própria ruína financeira, mas também a dos maridos que patrocinam esses gastos. Naturaliza-se a ideia de que a mulher compra por ímpeto, enquanto o homem o faz de modo racionalmente planejado, tornando digno de estigmatização o homem que dispende dinheiro de maneira incontrolada, pois se assemelharia ao pretenso hábito feminino.

 

 

Natural X Cultural

Xenofonte, no seu projeto de administração familiar, ratifica aquilo que seria a ordem natural das coisas: para o homem, a vida social na esfera pública da visibilidade, onde, pelo seu empenho profissional, pode adquirir a riqueza e o sustento do lar; e para a mulher, a reclusão na dimensão da idiotia, a vida reservada, anônima, que encontra dignificação por cuidar da ordem doméstica:

 

“Já que ambas as tarefas, as do interior e as do exterior da casa, exigem trabalhos e zelo, desde o início, na minha opinião, o deus preparou-lhes a natureza, a da mulher, para os trabalhos e cuidados do interior, a do homem, para os trabalhos e cuidados do exterior da casa”

 

Xenofonte, no Econômico, apresenta o que se configuraria como a educação clássica da mulher: ver o mínimo, ouvir o mínimo, falar o mínimo. Isso significa a anulação de qualquer demanda existencial da mulher perante os desmandos do marido. Já no mundo grego havia a condenação moral às mulheres que falam demais ou bisbilhotam a vida alheia ao invés de cuidarem da urgência do lar. Para Xenofonte, o modelo de mulher é a dita “Mulher-Abelha” (Melissa), a mulher submissa, que fica dentro da colmeia, isto é, cuidando da casa. A abelha-rainha/boa esposa apenas reina no espaço privado da casa. E pensar que muitas menininhas da sociedade burguesa usaram sandalinhas cujo logotipo era uma abelhinha. Seria talvez uma vã coincidência comercial?

 

Ao pensar sobre o casamento e a formação da esposa, Xenofonte propõe uma analogia entre a colmeia e a vida conjugal. Para ele, a esposa ideal deve se assemelhar à melissa (abelha rainha) e se restringir às atividades do lar

 

A cultura patriarcal se caracteriza pela dominação completa sobre o modo de ser da mulher, submetida inapelavelmente ao crivo autoritário do macho. Tal poder dominador se revestiu no decorrer do tempo por uma aura tão inquestionável que esse sistema de hierarquização sexual foi naturalizado pelas próprias mulheres, silenciadas em suas aspirações de autonomia existencial perante o arbítrio dos homens. Conforme argumenta Friedrich Engels (1820-1895), “A administração do lar se transformou em serviço privado. A mulher se converteu na primeira criada e foi afastada da participação na produção social. Só a grande indústria de nossos dias lhe abriu de novo – embora apenas para a mulher proletária – o caminho da produção social. Mas isso se fez de tal modo que, se a mulher cumpre seus deveres no serviço privado da família, fica excluída do trabalho público e nada pode ganhar. Se quer participar da indústria pública e ganhar dinheiro de maneira autônoma, torna-se impossível para ela cumprir suas obrigações domésticas”.

 

No imaginário patriarcal de nossa estruturação social, persiste o preconceito de que a mulher não possuiria aptidões para exercer determinadas funções superiores, como a gestão política ou cargos administrativos de comando. Comumente homens subordinados à autoridade de mulheres se consideram inferiorizados moralmente por tal circunstância, e não hesitam em depreciar – velada ou abertamente – tal poder, imputando-o como ilegítimo. Pierre Bourdieu (1930- 2002), esmiuçando a estrutura ideológica da dominação masculina, argumenta que “A definição de um cargo, sobretudo de autoridade, inclui todo tipo de capacitações e aptidões sexualmente conotadas: se tantas posições dificilmente são ocupadas por mulheres é porque elas são talhadas sob medida para homens cuja virilidade mesma se construiu como oposta às mulheres tais como elas são hoje”.

 

Análise desnuda do feminismo

A ovelha negra das relações de gênero

 

Para essa mentalidade obtusa que não assimilou convenientemente o progresso cultural moderno, a mulher deveria permanecer circunscrita ao espaço da casa, exercendo docilmente suas funções domésticas, acatando silenciosamente os mandos e desmandos do marido. O dito popular “mulher no volante, perigo constante” não pode jamais ser analisado como um mero discurso jocoso sobre a pretensa imperícia automobilística da mulher, pois retrata acidamente a dificuldade machista em aceitar o empoderamento feminino. Quando o machista estúpido afirma que lugar de mulher é na cozinha e que a única coisa que a mulher pode pilotar é o fogão, ele pratica uma violência simbólica que diminui a dimensão humana da mulher, colocando-a como um sujeito desprovido de autonomia, a margem da organização social. Segundo Bourdieu, “A opressão como forma de invisibilização traduz uma recusa à existência legítima, pública, isto é, conhecida e reconhecida sobretudo pelo direito, e por uma estigmatização que só aparece de forma realmente declarada quando o movimento reivindica a visibilidade”.

 

A mulher é continuamente coisificada na sociedade de consumo. Diversas marcas agregam valor aos seus produtos associando a imagem da mulher aos dispositivos fetichistas, que exercem poderoso efeito sedutor sobre a sensibilidade masculina ao estabelecerem uma espécie de simbiose entre a pessoa e o objeto. Aquilo que o sujeito não possui naturalmente, a abastança financeira lhe concede, encontrando meios concretos para modificar a sua própria constituição pessoal, favorecendo assim a obtenção de adesões externas para sua fruição narcísica. Nesse caso em questão, a aquisição do produto se configura simbolicamente como a capacidade de obter a adesão sexual da mulher, pois a coisa possuiria poderes especiais que permitem a subjugação da condição feminina ao crivo fálico do homem. A publicidade vende a falsa ideia de que a aquisição do produto lhe fornece a capacidade galvânica de agregar para si as mulheres desejadas, reduzindo-as ao mesmo nível das coisas. Rachel Moreno argumenta que “A violência midiática está enquadrada na violência, descrita como um tipo de violência que através de padrões estereotipados, mensagens, valores, ícones ou signos, transmite e reproduz a dominação, desigualdade e discriminação nas relações sociais,naturalizando a subordinação da mulher na sociedade”.

 

A representação feminina na mídia remete à coisificação e à submissão, pois a publicidade nutre reproduções simbólicas discriminatórias

 

No âmbito da sexualidade, as violações conjugais praticadas pelos homens são muito mais facilmente perdoadas do que as femininas, como se fosse algo natural apenas a lubricidade masculina e apenas ao homem outorgada a possibilidade de obter efetiva satisfação sexual da maneira que lhe convém. Arthur Schopenhauer (1788-
1860), na sua Metafísica do amor, apresenta um argumento plausível para a motivação econômica da negação da poligamia feminina: como a mulher apenas pode engendrar filhos uma vez por ano, lhe caberia aceitar docilmente essa condição inexorável e se adequar ao autoritário crivo marital. Já o homem, livre das limitações da gravidez, poderia copular com a quantidade de mulheres que sua própria energia sexual permitisse, pois assim a própria organização social se beneficiaria, uma vez que a taxa de natalidade de sua comunidade, em situações extremas, permaneceria estável. De um procedimento econômico para se converter em um hábito cultural cujas bases axiológicas se perdem nas teias da história, é apenas um passo.

 

O homem que somente encontra sua autoafirmação pessoal através da degradação da figura da mulher é um miserável moral, pois o ressentimento se configura como a base de sua reatividade contra a intensidade feminina. A experiência amorosa pautada pela alteridade reconhece as demandas existenciais das mulheres e respeita suas subjetividades inalienáveis.

 

 

Política e direito da mulher

No caso da sociedade brasileira, a constituição laica do Estado Democrático cada vez mais se torna apenas teoria, pois o obscurantismo fascista presente no discurso de ódio de parlamentares defensores dos interesses da bancada da bala, do machismo naturalizado e das corporações financeiras travestidas de seitas religiosas arrisca jogar ao fogo nossa precária cidadania, anulando nossos esquálidos direitos civis. Qualquer esfera pública esclarecida deveria se envergonhar por chancelar as insanidades enunciadas e praticadas por tantos parlamentares estúpidos que só encontram sintonia mental com odiosas ideias intolerantes, incompatíveis com o espírito de progresso humano. Para essa corja aferrada ao poder, problemas de violência conjugal do homem sobre a mulher devem ser circunscritos apenas ao espaço doméstico, de modo a não prejudicar a imagem pública de políticos que insistem em adotar posturas agressivas contra suas esposas. A agressão a uma mulher pode ser perdoada no âmbito moral caso a parte ofendida aceite, mas juridicamente a questão não pode ser encerrada, pois senão corre-se o risco de perpetuação da infame naturalização da violência sobre a mulher.

 

No contexto da argumentação, não podemos deixar de abordar o perigo para a emancipação feminina presente na PL 5069/2013, que torna crime induzir ou auxiliar uma gestante a abortar. As exceções que o projeto prevê são as hipóteses em que a legislação brasileira já permite o aborto atualmente, casos em que houver risco à vida da gestante ou se a gravidez for resultado de estupro. No caso do estupro, para que um médico possa realizar o aborto, o projeto de lei passa a exigir exame de corpo de delito e comunicação à autoridade policial. Cabe ressaltar que, atualmente, não há necessidade de comprovação ou comunicação à autoridade policial, basta a palavra da gestante. A mudança jurídica aumenta ainda mais o trauma sofrido pela mulher violentada, que não raro encontra dificuldades em ser acolhida juridicamente quando sofre agressões masculinas. Em nossa cultura do estupro que considera algo correto que uma mulher seja assediada e/ou violada por andar de forma sensual, esse projeto de lei só reforça a prática da barbárie. Se a vida civilizada pressupõe o controle das paixões, existe uma grande distância entre o desejo e a satisfação do mesmo. Se um homem não consegue dominar sua libido ao ver uma mulher, o erro não está nela, não importa a forma como ela se vista, mas no próprio homem incapaz de apreciar a sensualidade feminina sem possuí-la contra a própria vontade da mulher.

 

O reacionarismo político-religioso é uma ameaça à emancipação da mulher

 

O reacionarismo político vigente no Congresso Brasileiro é um atentado à inteligência, mas como grande parte do nosso eleitorado brasileiro vive de acordo com as categorias degradantes da massificação existencial, não poderemos esperar mudanças significativas para melhor, apenas chorar perante o marco infeliz de nossa degradação política que cunha a ferro e fogo a destruição da ordem republicana. Quisera que esses “animais políticos” fossem meros palhaços em uma nau dos loucos a ser colocada à deriva no oceano do ostracismo – mas, infelizmente, essa corja virulenta, graças ao apoio da imbecilidade dos seus correligionários, aumenta sua força retórica, e, tanto pior, sua força parlamentar, moldando nossas leis conforme seus escusos interesses primitivos.

 

O Brasil corre o risco de se tornar um Estado Teocrático de orientação cristã, pautado em uma interpretação completamente distorcida da Bíblia e absolutamente alheio aos princípios beatíficos propostos por Jesus. O sonho dourado dos pastores fundamentalistas é que Jesus jamais tivesse convivido com mulheres adúlteras e com prostitutas. Apenas com “mulheres de bem”. Na verdade, com nenhuma mulher. A motivação de quem tanto quer mudar o modo de ser do outro é o temor de mudar a si mesmo, então esse tipo humano não poupa esforços em adequar toda a realidade externa ao seu limitado paradigma existencial, tornando assim a vida mais precária, mais medíocre, mais fascista.

 

 

*Renato Nunes Bittencourt é doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ. Professor da FACC-UFRJ.

E-mail: renatonunesbittencourt@gmail.com

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 119