A presença da mulher na filosofia

Confira a entrevista com a Dra. Maria Cristina Müller, que aborda o sentido da política e cidadania na sociedade

Maria Cristina

Nesta edição, nossa entrevistada promove um resgate histórico de tantas mulheres que contribuíram para o desenvolvimento filosófico no decorrer da história da disciplina, oferecendo com destaque para os leitores o pensamento da filósofa contemporânea Hannah Arendt, e seu protagonismo para o debate das diversas questões atuais vigentes na sociedade. Dra. Maria Cristina Müller afirma que “a mulher sempre esteve presente na filosofia, ainda que isto não seja transmitido nem reconhecido”.

Em um cenário em que as mulheres conquistam espaço no mundo globalizado, a entrevistada nos brinda com reflexões sobre o papel da mulher não apenas na filosofia, mas também na própria sociedade.

Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/SP (2010), Dra. Maria Cristina Müller é docente do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina desde o ano de 2000 e concentra suas pesquisas exatamente em Filosofia Política e Ética com ênfase em Hannah Arendt.

Entre os temas desta pesquisa, vale ressaltar: a possibilidade da moralidade, o sentido da política, a cidadania, os direitos humanos, a participação política, a responsabilidade, o espaço público, a liberdade e o esgotamento da tradição do pensamento político e moral e a crítica à contemporaneidade. Confira!

Você poderia nos falar um pouco sobre sua trajetória acadêmica e suas principais pesquisas e se em algum momento enfrentou dificuldades no meio acadêmico por ser mulher?

Minha formação de graduação (Universidade de Passo Fundo/RS), de mestrado (PUCRS) e de doutorado (UFSCar) é em filosofia. Na graduação, participei de projeto de pesquisa como bolsista de IC e no último ano fiz um intercâmbio acadêmico/cultural na Universitat de Barcelona. Naquela oportunidade tive contato com o pensamento filosófico de uma mulher, Hannah Arendt, através de outra grande pensadora, Profa. Dra. Fina Birulés.

Era o ano de 1995 e aconteceu ali o despertar para uma nova compreensão de filosofia simultaneamente à confirmação de que havia de fato mulheres filósofas, pois até então isto me era negado. Um misto de alegria, desconfiança, receio e fascínio se misturaram.

O Mestrado se efetivou na sequência e, quando da construção da pesquisa, não tive dúvida de que investigaria o pensamento de Hannah Arendt e sua compreensão de política e do mundo contemporâneo; queria conhecer com profundidade sua filosofia.

O doutorado foi para mim o ápice dessa busca por compreender a filosofia de Hannah Arendt. Na UFSCar, existe a presença de docentes do sexo feminino, no entanto, minha experiência acadêmica continuava marcada pelo olhar masculino, com exceção de Arendt, Fina Birulés e das minhas colegas de estudos.

Pertenço a uma geração de mulheres que têm livre acesso ao ensino e à carreira profissional; no entanto, a construção da independência se dá, como para quase a totalidade das mulheres, pela via econômica.

Este modo de conquistar independência, como concessão, não faz desaparecer a distância entre a predominância do valor do homem em detrimento da mulher; como se nos dissessem: vocês podem estudar e trabalhar, mas o que dizem ou fazem não nos interessa. Isto se evidenciava toda vez que era obrigada a defender que Hannah Arendt era uma das maiores filósofas da contemporaneidade e não uma curiosidade. Por si só isso demonstra a negação simbólica do dizer feminino na filosofia e no mundo em geral.

As dificuldades que nós mulheres enfrentamos no meio acadêmico vão além da mera competição e da demonstração de excelência acadêmica. Enfrentamos constante assédio sexual, às vezes disfarçado de galanteios e elogios, por outras, expresso diretamente, o que revela que mesmo no meio intelectual há a crença de que a mulher é um objeto que está a serviço do prazer masculino.

Confrontamo-nos com o desprezo do feminino quando ouvimos que, por sermos inteligentes e competentes academicamente, somos mais parecidas com um homem do que com uma mulher. Isto apenas para falar das dificuldades mais comuns e caricatas que, sim, vivenciei. Entendo que tais dificuldades estão ligadas ao imaginário simbólico e à linguagem comum que inferioriza o sexo feminino e consolida uma identidade equivocada.

Há, entre outros, a imagem de que o sexo feminino é fraco e sem importância, apto “apenas” a exercer tarefas domésticas, voltado para questões fúteis, merecedor de denominações tais como megera, fofoqueira, embusteira, histérica, sedutora, princesa etc; há o discurso de que as mulheres são minoria e vítimas.
Talvez, a maior dificuldade esteja em alterar esse imaginário simbólico e essa linguagem. Somos maioria e precisamos nos apoderar.

Confira a entrevista na íntegra em Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 133!

Por Fábio Antônio Gabriel | Foto Thaís Souza – Atelie Fotográfico | Adaptação web Isis Fonseca