Mecanismo de fuga do sofrimento

Para Blaise Pascal, o homem busca se refugiar na fantasia. Ele maquia a exposição radical à sua miserável existência e se projeta em um ambiente mais agradável do que o real

Por Bárbara Uliano Shinkawa* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Em tempos conturbados pela intolerância, quando ela é mais visível que a solidariedade, o respeito e o amor, vale a pena revisitar momentos em que o mundo já presenciou barbáries motivadas pelo ódio, por noções deturpadas e cruéis a respeito de quem é o outro que, antes de tudo, é um ser humano. Dirigido e protagonizado por Roberto Benigni, o filme A vida é bela (1997) é uma das obras que falam sobre marcas pesarosas para os homens. Benigni, em uma de suas mais famosas produções, faz uma releitura de um dos momentos mais cruéis da história humana com um olhar diferenciado e de ternura.

 

À moda de Charles Chaplin (1889- 1977), a primeira parte do filme é um grande pastelão de cenas bastante engraçadas que fazem a plateia torcer para que o pobretão e pícaro Guido se encontre e conquiste definitivamente a professora Dora. Embora haja prenúncios do que irá acontecer mais adiante, os maus presságios são contornados pelo amor e graça emanados do casal.

 

É na segunda parte, em que se explora a questão da guerra, que reside o maior valor do filme. Benigni ousou abordar um tema tão chocante e sublime, dado o horror provocado quando se fala em Holocausto, para mostrar o sacrifício do pai em razão do filho por amor. O riso provocado mesmo em um mar de horror é a tentativa desesperada de um pai em salvar seu filho ainda tão pequeno para tanta crueldade. Salvaguardar sua inocência e vida enquanto for possível.

 

Privilegiando esse enredo tragicômico que ressalta a união e o amor de pai e filho, a história é sustentada por aquilo que Blaise Pascal (1623-1662) nomeou como divertimento. O divertimento é, de uma maneira geral, a distração do pensamento humano sobre sua real condição. Assim, o homem usa saídas para divertir sua consciência daquilo que o amedronta.

 

Blaise Pascal

 

Em A vida é bela há cenas recheadas de divertimento para direcionar a mente para outras situações que não sejam a de guerra. É o que Guido, personagem de Benigni, usa para manter protegido Josué, seu pequeno filho, da crueldade da guerra e, consequentemente, mantê-lo a salvo da morte anunciada. São esses os momentos que este artigo irá ressaltar.

 

 

O divertimento

Segundo Pascal, “é preciso um eu-imaginário que habite o mais belo lugar do mundo […] o pensamento do outro […] sendo necessário estar sempre na estima do pensamento do outro”. Essa habilidade constitui certo automatismo humano, ou seja, ela é inerente ao homem. Eis o divertimento. Ele se assemelha a Janus. Embora tenha o poder de mudar o foco do homem, por exemplo, de algo ruim, para uma situação melhor, mas como distração que é, pode fazer que o homem se esqueça de si, de quem é: “O ‘divertimento’, que à primeira vista parece inofensivo, mostra-se numa análise mais detalhada um fenômeno avassalador, na medida em que impede o homem de se pensar, com toda a consequência que daí advém. […] unifica os afazeres humanos; sérios ou não, todos são colocados no registro do desvio de atenção de algo muito mais importante ao homem: sua própria existência, seu ser”.

 

A ideia de divertimento, além de estar atrelada ao entretenimento, possui outras acepções mais caras ao estudo de Pascal. Segundo o dicionário Michaelis, divertir, que vem do latim Divertere, é: “dissuadir”, “entreter”, “distrair”, “mudar de fim, direção”. Mudar a direção do pensamento de si ou sobre si é o que faz o divertimento. Embora ele só aconteça enquanto se está desatento, uma vez que recobrada a atenção já não se está nesse estado de distração: “Acautelai-vos. Que outra coisa é ser superintendente, chanceler, primeiro presidente, senão estar numa condição em que se tem, desde manhã, um grande número de pessoas que vêm de todos os lados para não lhes deixar uma hora no dia em que possam pensar em si mesmos? E, quando estão na desgraça e os mandam para as suas casas de campo, nas quais não lhes faltam nem bens nem criados para assisti-los nas suas necessidades, não deixam eles de ser miseráveis, porque ninguém os impede mais de pensar em si”.

 

De que somos feitos?

 

E não importa a posição que um homem possa vir a ocupar, se ficar atento quanto à sua condição humana que é a da finitude, estará fadado à tristeza: “imagine-se um rei acompanhado de todas as satisfações que podem tocá-lo, se  ele está sem ‘divertimento’, deixem-no considerar e fazer reflexões sobre o que é, e essa felicidade languescente não o sustentará; ele cairá por necessidade nas vistas que o ameaçam das revoltas que podem irromper e enfim da morte e das doenças que são inevitáveis; de maneira que, se está sem o que se chama ‘divertimento’, ei-lo infeliz e mais infeliz que o menor dos seus súditos que brinca e se diverte”.

 

Pascal, ao observar o homem e com o auxílio de seus ajudantes para registrar seus pensamentos, chegou à conclusão de que o bem maior de um homem e o que o difere dos outros animais, sem dúvida, é a capacidade de pensar e a consciência que tem sobre o que pensa e o ato de pensar. Sendo assim, qual o problema em estar “divertido”? De acordo com Pascal, “o homem é visivelmente feito para pensar; é toda a sua dignidade e todo o seu mérito, e todo o seu dever é pensar como é preciso: ora, a ordem do pensamento é começar por si, e por seu autor e seu fim. Ora, em que pensa o mundo? Nisso, nunca; mas em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em correr o anel, etc., em construir-se, em fazer-se rei, sem pensar no que é ser rei e ser homem”.

 

A infelicidade não é extirpada e, sim, adiada com o divertimento. Manter-se divertido afasta a possibilidade de se pensar na situação de tédio. O que mantém o homem nessa situação de evitar enxergar e vivenciar o tédio é a vontade de ter algo, isso mantém o homem ocupado: “Nada nos agrada como o combate, mas não a vitória. Gostamos de ver os combates dos animais, não o vencedor encarniçado sobre o vencido. Que queríamos ver, se não o fim da vitória? E, desde que esta se verifica, enfastiamo-nos. Assim no jogo, assim na pesquisa da verdade. Gostamos de ver, nas polêmicas, o combate das opiniões; mas não gostamos, em absoluto, de contemplar a verdade encontrada”.

 

A situação apontada se assemelha ao mito de Sísifo. Apesar de saber da grande chance de tudo dar errado, da rocha retornar ao pé da montanha, Guido  se mantém confiante e perseverante, é preciso manter Josué ocupado. Aqui, cabe salientar que Pascal não entende o divertimento como algo errado, mas, sim, a maneira como o homem encara o divertimento: “Qualquer tentativa de fazer da reflexão sobre o mecanismo  do ‘divertimento’ uma negação do prazer, negação da alegria, negação do lazer, etc., esvai-se frente a textos como este. O filósofo de modo algum indica nem muito menos propõe o fim da diversão, ele não censura o entretenimento, ele mesmo de muitas maneiras se divertia. É preciso deixar claro que a sua censura nessa questão é muito pontual, a saber, combate a ilusão de que o ‘divertimento’ trará uma felicidade verdadeira, pois é fato inconteste que ele não o pode fazer”.

 

Sísifo e a pedra

 

Para que a vida seja bela

Embora A vida é bela tenha ceifado a alegria do Oscar para os brasileiros, o filme é um primor de produção cinematográfica. Calcado na tragicomédia e com um tom jocoso, o longa aborda um ambiente de fantasia com prenúncios de maus momentos. O tom humorístico se deve ao personagem Guido (Benigni), um grande pícaro que percebe a graciosidade em tudo o que o rodeia. Ele consegue transformar as adversidades em situações favoráveis a si. Agarra-se à ilusão e à piada como saída às situações por mais complicadas que sejam, como as cenas iniciais da película mostram.

 

A história do filme se passa em 1938. Guido, um engraçado aventureiro, se apaixona pela professora Dora, noiva de um funcionário público. Perdido de amores por Dora, ele se coloca nas  mais impensadas situações para sobreviver e conquistar o coração da amada. O filme pode ser dividido em duas partes, nessa primeira, mais fantasiosa, remete ao momento da conquista de Dora. A jocosidade aliada aos “acasos” dá ao romance um ar gracioso e de ternura. O espetáculo, que tem por tema a La Barcarolle, prenuncia a efemeridade da vida e da necessidade de se aproveitar o momento. Também é um dos momentos finais da primeira parte. A segunda parte é iniciada pelo aparecimento de Josué, fruto da união entre o ex-garçom e agora dono de uma livraria e a professora. A família vive feliz. Uma vida simples, mas muito amorosa. É nesse momento que se começa a sentir as consequências da aliança de Mussolini e Hitler, primeiro com a proibição da entrada de judeus e cães nos estabelecimentos. Essa restrição, lida em grande parte dos comércios, transforma-se em mais uma das cenas em que o riso amolece o horror do preconceito e depois da violência.

 

A propósito da restrição, Guido explica a Josué que as pessoas possuem gostos diferenciados, ao que o menino prontamente reclama e diz que todos entram no estabelecimento deles, a livraria. Percebendo o descontentamento do filho, Guido diz que organizará um cartaz proibindo a entrada daquilo que ele e Josué não apreciam. O menino se lembra das aranhas e o pai diz  estar farto dos visigodos.

 

Logo a seguir, vê-se a organização do aniversário de Josué e sua insistência, como a de muitas crianças, em não tomar banho, gerando descontentamento em sua mãe, mas isso o salvará da morte. A alegria da família é quebrada pelo recolhimento de Guido, seu tio e Josué para um trem que os levará ao campo de concentração. Aflita, Dora percebe a situação ocorrida ao chegar em casa e ver tudo quebrado e corre para a estação, exigindo que possa se juntar a eles. Quando ocorre o recolhimento dos judeus aos campos de concentração, justamente nesse período, é que se percebe a presença efetiva do que Pascal chamou de divertimento.

 

 

Como já dito, para Pascal, ao estudar a natureza humana, o pensamento é a atitude mais elevada do homem. Para ele: “A grandeza do homem é grande na medida em que ele se conhece miserável. Uma árvore não se conhece miserável. É, pois, ser miserável conhecer-se miserável; mas é ser grande conhecer que se é miserável. Todas essas misérias provam sua grandeza”. Para desviar a própria consciência de tal conclusão, o homem se diverte.

 

Por outro lado, há certa necessidade de se amenizar a aporia da existência essencialmente trágica do homem, nesse sentido se abre espaço para o divertimento. Tanto que os pensadores da Filosofia do trágico como Pascal ressaltam que o problema não reside exatamente na suavização do axioma, mas na maneira que acaba por anular o trágico, ou seja, a incapacidade humana do pensamento crítico.

 

Como o organismo reage ao estresse

 

Daí Pascal ver o divertimento como algo negativo, pois nega ao homem sua faculdade mais elevada: a do pensamento, o conhecimento de si. Por outro lado, Pascal admite que essa capacidade de criar ilusão é inerente à condição humana e isso sempre será um impasse ao homem. De outra forma, pensar na própria morte e no fim inerente ao ser humano dificilmente será aprazível para alguém: “Não tendo os homens podido curar a morte, a miséria, a ignorância, acharam de bom aviso, para se tornarem felizes, não pensar nisso; eis tudo o que puderam inventar para se consolarem de tantos males. Mas é uma consolação bem miserável, de vez que acaba não por curar o mal, mas por ocultá-lo simplesmente por pouco tempo”.

 

Em A vida é bela, para distrair o filho do horror do campo de concentração e da proximidade da morte, o personagem Guido faz que o garoto acredite estar num jogo complicadíssimo que requer muita persistência para se  alcançar a vitória. Nesse ponto, é interessante lembrar a obra de Pascal supracitada. Sem saber, Guido e Josué personificam Sísifo no que tange a persistência em continuar, especialmente Guido, visto que Sísifo, sabendo o que acontece com a rocha quando esta chega ao topo da montanha, jamais desiste. A cada dia passado no campo de concentração, Guido se empenha para manter a ilusão criada para proteger Josué. Isso porque se Josué não ficar distraído, divertido, entenderá o verdadeiro sentido de tudo. É o mesmo caso lembrado por Pascal (já citado neste artigo) no que concerne ao estado do rei. Percebe-se que a ilusão é a chave para o êxito do divertimento. “Uma vez que ele só produz efeito, isto é, só ilude enquanto não é percebido pelo  homem, sua força está no fato de poder atuar camufladamente”.

 

A aula de psicologia em Divertida Mente

 

Mesmo assim, com todo o esforço do pai, Josué se sente cansado daquela brincadeira e pede para ir embora. Guido, atônito com o pedido do filho que não cede aos seus argumentos, simula a partida de ambos, reforçando o divertimento previamente proposto. E Josué acaba por se convencer e “decide” prosseguir no jogo. Pascal, acerca disso, lembra que: “o homem, por mais triste que esteja, desde que se possa conseguir que entre em algum divertimento, ei-lo feliz durante esse tempo”.

 

Para convencer ainda mais o filho, Guido mostra a Josué as crianças que estão concorrendo com ele ao prêmio. Os pequenos que logo virarão botões e sabão, como ressalta Josué tendo um lampejo de consciência daquilo que o  cerca. Esse é rapidamente abafado por Guido, que diz ao filho não passar de uma trapaça tal  informação. Como se pode perceber, o divertimento é bastante flexível. Adapta-se a qualquer necessidade e disfarce. Vê-se também que é realmente a disputa por algo que mantém o homem animado e não sua posse. Assim, Josué recobra a vontade de permanecer na competição pelo “tanque de verdade”.

 

Nesse momento do filme, não só Josué se enche de esperança, mas Guido, ao se encontrar com o médico, em um “exame de rotina”, velho amigo de charadas no Grand Hotel. O médico, como sabia da experiência de Guido em servir, faz que ele seja garçom em um jantar a ser oferecido à elite nazista. Infelizmente, Guido tem sua ilusão perdida totalmente na conversa travada com seu “amigo”. O sistema nazifascista fez que a diretora do colégio de Dora e o dr. Lessing perdessem aquilo que Pascal chama de virtude elevada do homem: o pensamento, “[alguns] suam no seu gabinete para mostrar aos estudiosos que resolveram uma questão de álgebra que não se teria podido solucionar até então; e tantos outros se expõem aos últimos perigos para se gabarem em seguida de uma praça que tomaram, tão estupidamente em minha opinião. E, enfim, outros se matam para notar todas essas coisas, não para se tornarem assim mais sábios, mas apenas para mostrar que as sabem; e esses são os mais tolos do bando, pois o são com conhecimento”.

 

Desolado com o absurdo da realidade apresentada, Guido alenta sua esposa, no outro alojamento, com Belle nuit, (Barcarolle). Com Josué nos ombros após ter conseguido infiltrálo no meio das crianças, filhos dos oficiais, e ter ofertado um bom jantar ao pequeno faminto, Guido retorna ao alojamento e, tentando consolar sua alma, sonha com uma vida melhor. No entanto, é exposto ao axioma da realidade: um amontoado de corpos.

 

 

Com o  fim do conflito se aproximando e na iminência de perder a guerra, os soldados alemães tentam esconder os vestígios do horror no campo de concentração. Acordado no meio da noite ao som de sirenes, o protagonista deseja reunir sua família e na ânsia por essa conquista acaba se descuidando e é capturado enquanto tentava resgatar sua mulher.

 

Um soldado nazista o encaminha a um beco escuro. Percebendo que no caminho passaria por onde estava escondido seu filho, decide, até o fim, protegê-lo. Finge que a caminhada para a morte não passa de uma brincadeira com “os homens maus, que gritam”. Mas a vida é bela e Guido e Josué são vencedores, de alguma forma, do jogo.

 

Após a análise da história exposta pela película, é possível perceber que praticamente todo o enredo de A vida é bela é calcado no divertimento. Na verdade, o trabalho feito a partir do conceito de divertimento é o que dá movimento à história e faz com que essa seja atraente e emocione o telespectador.

 

Cabe ressaltar que Pascal não desaprova o divertimento, mas o que é visto como negativo nesse ato é usá-lo como alternativa recorrente para escapar de qualquer situação desagradável, utilizá-lo como meta de vida ou ainda acreditar que ele trará a verdadeira felicidade. O divertimento é saudável e próprio do ser humano.

 

O  filme comprova que o divertimento, assim como muitos outros sentimentos e/ou atitudes, usado na medida certa, trouxe benefícios e proteção. A Josué, naquele momento, certamente era desnecessário entender o que ocorria, e o divertimento ajudou seu pai a protegê-lo, o máximo que pôde.

 

Sem perder o tom de brincadeira dedicado à criança, o  filme mostra os horrores do Holocausto que é balanceado com o divertimento de Josué. Sem dúvida, muitos pais usam esse artifício para tornar, aos olhos dos filhos, a vida bela.

 

 

*Bárbara Uliano Shinkawa é professora do IFPR (Campus Paranavaí), Líder do grupo de pesquisa Bildung e doutoranda em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Adaptado do texto “O divertimento em A vida é bela”

Fotos: Revista Filosofia Ciência e Vida Ed. 104