Literatura e filosofia

O diálogo interdisciplinar na poética de Marco Lucchesi ou a estética do labirinto

Por Ana Maria Haddad Batista* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Literatura e filosofia

Mergulhar, da superfície à profundidade, no conjunto de obras do poeta, romancista, ensaísta, tradutor, Marco Lucchesi, é um desafio tão arriscado quanto pular do último degrau da Torre de Babel. (“Do abismo para o abismo”).

Desabar em um labirinto, que como tal, não possui, matematicamente, nenhuma invariável. (Regido exclusivamente por variáveis em espaços de indeterminação). Desvendar “um homem solitário diante de sua dolorosa solidão” e temporalidades (meio-dia?).

Lucchesi possui um conjunto extenso de obras. De uma pluralidade onde o conceito de gênero e interdisciplinaridade, uma vez mais, deveriam ser repensados seriamente.

Ensaios, poemas, romances, traduções e projetos experimentais (tão bem conceituados por Haroldo de Campos). Labiríntico, o percurso poético de Lucchesi não se perfaz em linhas de sucessões, mas por cintilações desestabilizadoras. Não há uma direção a seguir.

Estética do labirinto. (“Onde é o começo? É alguém ou alguma coisa que começa?”). Desdobra-se sob o fascínio do surpreendente. E quando o leitor pensa que encontrou a saída é mobilizado por ressonâncias. Isto é, “o anterior e posterior, o inacabamento e o incomeço que pertencem por essência à ressonância”4.

O leitor, inclusive, há de encarar a sedução proposta por Sartre: “o escritor sabe que fala a liberdades atoladas, mascaradas, indisponíveis; sua própria liberdade não é assim tão pura, é preciso que ele a limpe; é também para limpá-la que ele escreve”. Lucchesi compreende a formulação poética enquanto um pensamento que se deve dizer. Mas não desenvolver. O inacabado.

Nessa perspectiva, para o autor, “poesia e literatura não suportam a insistência de uma significação ou de um conjunto de significações já constituídos e organizando-se pela coerência de um discurso unicamente lógico”, como tão bem adverte Blanchot.

Um dos maiores exemplos disso, no conjunto das obras de Lucchesi, é o alto experimentalismo na obra Rudimentos da Língua Laputar: “Trata-se de uma língua perdida, que procurei, como paciente e desesperado arqueólogo, trazer de volta a nossos dias, na medida de minhas forças, apesar dos inúmeros entraves criados pela mistificação do livro Gulliver’s Travels.

Enfim, a poética de Marco Lucchesi é uma espécie de prova, quase definitiva, de que literatura, acima de tudo, não se faz apenas com ideias vagas e pensamentos dispersos.

Ou seja, as famosas afirmações, sempre esgarçadas, de lugar comum, que banalizam o rigor da verdadeira literatura e subtraem a responsabilidade irrestrita de quem tomou para si desvendar os grandes mistérios que regem, não somente, o Universo.

Eis uma literatura que dialoga, tranquilamente, com a História, Filosofia, Matemática, Astronomia, Física e outras áreas do conhecimento. Subjaz em todo seu diálogo poético interdisciplinar a compreensão de que, (especialmente com Octavio Paz, Gaston Bachelard, Gilles Deleuze e Ernesto Sabato), para os poetas existem zonas de realidade não apreensíveis pela racionalidade.

“Prefiro o céu de Blanqui, mil vezes superior ao esquálido sistema positivo (…) aposto na beleza das janelas diante do infinito”. Além disso, Lucchesi estabelece (em muitas obras) o diálogo, essencial e fundamental, entre Ocidente e Oriente como demonstram sua belas traduções advindas do romeno, italiano, árabe, persa, somente para ficarmos com alguns exemplos.

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*Ana Maria Haddad Batista é mestra e doutora em Comunicação e Semiótica. Pós-doutora em História da Ciência. Pesquisadora e professora da Universidade Nove de Julho.

 

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