Lidando com a raiva

Por Alcione Marques* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

A raiva é uma emoção primária e inata. O que significa dizer que todos os seres humanos sentem raiva, independentemente de sua cultura, experiências e aprendizado, estando também presente em alguns animais. Embora a raiva seja, na maioria das vezes, uma emoção desagradável, preferimos não dizer que seja uma emoção negativa, uma vez que é natural e necessária. E, se bem direcionada, pode ser bastante útil em nossas vidas.

 

As emoções surgem nos mamíferos superiores como o resultado de um processo evolutivo para aumentar as chances de sobrevivência. As emoções foram um “refinamento” de processos mais básicos de interação com o meio, gerando novos comportamentos, entre eles, o maior vínculo entre membros de uma mesma espécie e o maior cuidado materno das crias.

 

Assim, as emoções envolvem uma reação rápida a um estímulo do ambiente. Os órgãos dos sentidos percebem o estímulo e disparam um mecanismo complexo de reações que preparam o corpo para uma ação específica. A raiva é uma emoção que surge quando o indivíduo se sente ameaçado em seu poder, se sente invadido em seu espaço ou tem uma necessidade ou desejo frustrado.

 

O segredo da filosofia oriental para a felicidade

 

Quando pensamos em nossos parentes ancestrais, podemos imaginar uma cena em que uma mulher primitiva arduamente consegue alimento para seus filhos e seu grupo. No entanto, outro grupo faminto se aproxima para subtrair este alimento tão dificilmente conseguido. Podemos pensar na reação de ameaça e disposição para a luta dessa mulher e de alguns do grupo para garantir que outros não levem aquilo que irá alimentá-los. Mas, com a evolução humana, as coisas tornaram-se um pouco mais complicadas. A complexidade das relações sociais e os elementos culturais trouxeram outros aspectos para a dimensão emocional. Continuamos com o mecanismo inato das emoções, mas a ele juntam-se outros, aprendidos ao longo da vida.

 

Nascemos com a capacidade de sentir raiva e com os gatilhos inatos que a disparam. Porém, vamos adquirindo outros disparadores associados à nossa experiência. Diversas situações adversas do cotidiano podem nos deixar muito, mas muito raivosos.

 

Da mesma maneira, a intensidade das reações e a expressão da raiva serão o resultado de aspectos biológicos, mas também dos modelos e do aprendizado na interação social ao longo da vida. Nossos pensamentos também geram ou intensificam as emoções. A maneira como percebemos e avaliamos o que acontece à nossa volta pode nos tornar mais raivosos. Uma pessoa que interpreta as atitudes dos que estão a sua volta como ameaçadoras ou provocativas pode sentir raiva mais frequentemente e de modo mais intenso. Reações frequentes e intensas de raiva, seja ela internalizada ou mesmo externalizada, podem causar uma série de problemas de saúde física e mental. É necessário que usemos nossos recursos cognitivos e nossa vontade para lidar melhor com nossas emoções. A raiva bem direcionada pode fazer com que nos mobilizemos contra injustiças, que façamos mudanças necessárias, que persistamos em um objetivo ou mesmo que impeçamos abusos contra nós mesmos ou contra outras pessoas. Nesse contexto, a educação emocional é essencial para que as emoções estejam a nosso favor e não contra nós.

 

Crianças em busca de si mesmas

 

O primeiro passo para lidarmos melhor com a raiva é desenvolver o autoconhecimento, ampliar a nossa capacidade de perceber a nós mesmos. Perceber e identificar a raiva no momento em que a estamos sentindo faz com que tenhamos mais chances de direcionar nossa reação. Comece com as pequenas irritações e com os aborrecimentos mais leves, será mais fácil que tentar logo de início com uma raiva mais intensa. Afastar-se da situação, quando possível, “contar até 10” e respirar profundamente são boas estratégias para diminuir a intensidade da emoção no momento em que ocorre.

 

A prática de exercícios físicos regularmente, atividades artísticas ou outros hobbies que nos deem prazer ajudam a melhorar o humor e nos deixar menos irritáveis. Meditação tem sido amplamente pesquisada como uma prática que nos deixa menos reativos e amplia o autoconhecimento e a autorregulação. Tem crescido o reconhecimento da relevância da educação emocional em diversos âmbitos, como no da escola, em que vem se entendendo que esta é uma dimensão importante a ser considerada no processo educativo das crianças.

 

No entanto, ao longo de toda a vida, podemos desenvolver mais e melhores habilidades para lidar com nossas emoções. Começar a pensar a respeito é o primeiro passo.

 

*Alcione Marques é pedagoga, psicopedagoga clínica e escolar, docente na pós-graduação do Instituto Sedes Sapientiae e coordenadora do Projeto Cuca Legal (Departamento de Psiquiatria – Unifesp).

Adaptado do texto “Que raiva!”

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