Lições de vingança em GoT

Por Flávio Paranhos* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Depois do último suspiro do último Stark adulto no último episódio da terceira temporada de A Game of Thrones, minha esposa deu aquela risadinha superior de quem já sabia o que ia acontecer, pois já leu os três primeiros livros da série, e disse: “Impressionante como esse autor não se apega aos personagens, né?” Como se eu estivesse ainda processando o inusitado daquela cena, demorei a processar também a verdade do que ela dissera. Não bastasse matar Ned Stark, o justo, o virtuoso, já na primeira temporada, agora aquilo!! Robb Stark, o virtuoso filho do virtuoso, e sua virtuosíssima esposa (grávida!!), a mãe teimosa, e todos os demais. Justo quando estávamos comemorando a estratégia de tomar Casterly Rock dos Lannister, os detestáveis (exceto Tyrion, claro), os que nunca deixam de pagar uma dívida (e de cobrar também).

 

Por outro lado, pensando bem, não deixa de ser uma tática antimalthusiana eficaz por parte de ­George R. R. Martin, já que são tantos personagens que se você fica sem ver (ou ler) por uns tempos, tem dificuldade em juntar os muitos pedaços do enredo. Ainda assim, uma crueldade. Não com os Stark, mas conosco, que vínhamos estabelecendo um canal empático forte com eles, torcendo por eles, assim como pelo anão Tyrion Lannister e pela Khaleesi Daenerys Targaryen. Embora impossível, queremos que os três vençam. Por exemplo, ­Daenerys poderia ser rainha, Tyrion o senhor de Casterly Rock e de mais uns três feudos, e os Stark, senhores do Norte. Não sem antes Cersei Lannister morrer lenta e terrivelmente, juntamente com o pai, e como aconteceu com seu detestável filho. Sansa, a sonsa, seria finalmente deixada em paz.

 

 

Por instigante coincidência, estava eu fazendo o que mais detesto junto com o que mais gosto, para que o segundo torne o primeiro suportável, quando me deparei com um contraponto absoluto à cena final da terceira temporada, que acabara de ver. Die Entführung aus dem Serail (O rapto do serralho, ou harém, para ficar bem entendido) é uma ópera leve, como soem ser as de Mozart, popularizada pela famosa cena (que diz a lenda ser verdade), no filme Amadeus, em que o imperador manda Mozart cortar algumas notas, pois a ópera tinha “notas demais”.

 

Em resumo, a ópera Die Entführung aus dem Serail é a estória de um nobre espanhol que vai à Turquia resgatar sua amada, que estava presa, juntamente com a criada e um criado, no harém do paxá Selim. Constanze, sua amada, não se entregara ao paxá, a despeito de suas várias investidas galanteadoras, já que era um paxá diferente, esclarecido, que não dominava as mulheres com violência. Seu funcionário Osmin, por sua vez, a quem foi dada de presente a bela Blonde, criada de Constanze, era um grosseirão que vivia praticando bullying contra Pedrillo, o fiel criado de Belmonte, o nobre espanhol. Depois de encontros e desencontros, desconfianças e mal-entendidos, como só acontece em óperas leves, a planejada fuga é frustrada (claro, senão não teria ópera!) e os quatro correm o risco de serem duramente castigados pelo paxá (tudo o que Osmin queria).

 

Aqui entra o contraponto com Game of Thrones. Não só Belmonte quer roubar sua amada Constanze, como o paxá ainda descobre que ele era filho de seu pior inimigo, uma pessoa que o prejudicou bastante, ­privando-o de seu grande amor (não Constanze, mas outra – pelo visto o paxá não era muito constante em seus amores) e de viver em sua própria terra. Diante disso, o que faz o paxá? Se ele fosse um Lannister, sabemos bem o que faria, mas não. Pelo visto era um Stark, pois escolhe não pagar o mal com o mal. Não há vingança pior, acreditava ele, do que pagar o mal com o bem.

 

 

Sabe de nada, inocente! Veja, pra essa equação dar certo, é preciso que o outro lado jogue pelas mesmas regras. Senão, é o mesmo que entrar num ringue contra alguém disposto a dar soco abaixo da cintura. Será nocauteado com um doloroso golpe naquele lugar, que até teve chance de aplicar também, mas não o fez porque respeita as regras. Pagar o mal com o bem pressupõe que o outro sinta… vergonha. Uma palavrinha mágica, uma das colas que mantém o quebra-cabeça social, mas que precisa de outra para existir… honra. Está aí uma virtude para a qual não há excesso ou falta. Não consigo imaginar “honra (ou honradez) demais”.

 

Voltando à cena do massacre dos Stark, temos ali os mesmos elementos da cena final de Die Entführung aus dem Serail – poder, quebra de palavra (Robb Stark estava prometido em casamento para uma das muitas filhas de um dos muitos casamentos do velho asqueroso Walder Frey, mas se apaixonou por outra e quebrou o juramento feito pela mãe para assegurar a aliança entre eles), amor, família, etc. Embora até se possa ponderar que, ao quebrar um juramento, os Stark feriram a honra de Frey, e este teria então o direito a uma vingança, e ainda que este não estivesse disposto a pagar o mal com o bem, nada justifica o traiçoeiro massacre. Frey poderia ter escolhido recusar as desculpas e quebrar a aliança, mudando de lado na guerra “honestamente”.

 

Acontece que no meio havia um Lannister, havia um Lannister no meio do caminho dos Stark. E um Lannister sempre paga (e cobra) suas dívidas. Uma vingança para um Lannister é coisa séria. Ganhar uma guerra, também. Vale tudo, soco abaixo da cintura, facada em barriga gestante, assassinato coletivo em plena festa de casamento da filha do aliado, com a morte da jovem última esposa desse aliado sem causar uma levantada de sobrancelha do asqueroso Walder Frey.

 

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Qual é a regra do jogo, afinal? Do jogo da vida, eu quero dizer. Os leitores que cometem o desatino de seguir essa coluna já devem imaginar minha resposta – é a regra dos Lannister. O ser humano é essencialmente canalha, blá, blá, blá, não os cansarei com minha cantilena chorona dessa vez. Mas tem um problema. Há, sim, Starks espalhados pelo mundo. São a minoria, podem deixar de ser a qualquer momento, mas eles existem. E esses são presa fácil para os Lannister.

 

Já sei o que está passando por sua cabeça, nesse exato momento, leitor(a): você se imagina Stark, não é mesmo? E imagina que eu me imagino um também. Pois está certo(a), já que “sendo o termo da vida limitado, não há limite para nossa vaidade”, como diria o filósofo brasileiro Matias Aires. Não há vaidade maior do que imaginar-se virtuoso. O que acaba por se configurar num paradoxo: o vício da vaidade alimentando a virtude da honradez. Matia Aires concordaria com isso, é a vaidade que move o mundo. E a regra do jogo chama-se vencer.

 

*Flávio Paranhos é médico (UFGO), doutor (UFMG) e research fellow (Harvard) em Oftalmologia. Mestre (UFGO) e visiting fellow (Tufts) em Filosofia. Professor da PUC-Goiás. Autor de Filosofia & Cinema (Kindle Portuguese Edition) e do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial).

Adaptado do texto “A regra do jogo”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 101