Liberdade e liberalismo, subjetividade e individualismo

Uma pequena análise sobre estes conceitos que têm uma longa história, desde a Antiguidade até hoje, atravessando toda a Idade Média e a Modernidade e impactam nosso dia a dia

Por André Roberto Ribeiro Torres* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O conceito de liberdade tem uma longa história, desde a Antiguidade até hoje, atravessando toda a Idade Média e a Modernidade. É claro que não há condições de abordar todo esse caminho aqui. A intenção deste texto não é de elaborar um tratado sobre o tema ou alcançar uma definição final sobre ele. A intenção é refletir um pouco sobre a liberdade e algumas de suas possíveis derivações.

 

Liberdade talvez seja um dos temas mais distorcidos, manipulados e mal compreendidos da nossa cultura. Ela se confunde com uma série de compreensões subjetivas e costuma ser utilizada como uma espécie de “palavra-bandeira”, estimulando as pessoas a tomarem partido em um conflito através de um valor absoluto e unânime sobre a liberdade – mas sem se esquecer dos limites morais, nesse caso, já tendendo ao uso político. Tornou-se comum em nossos tempos que líderes políticos declarem guerra em nome da liberdade e recebam como parte do combo o Prêmio Nobel da Paz.

 

Também é popular a conexão entre a noção de liberdade condicionada aos valores morais com as condições econômicas e sociais das pessoas. Esconde-se aqui novamente a ideia de que todos são livres, mas deveriam seguir determinado caminho previamente aprovado. Sendo assim, a falta de sucesso financeiro e social se deve à libertinagem exercida pelo sujeito, sendo o castigo socioeconômico merecido e exemplar. Os pais e mães demonstram aos seus filhos os malsucedidos do nosso sistema e recomendam que é melhor se empenharem nos estudos e no trabalho para não sofrerem tal punição.

 

 

Dessa maneira, parece haver um tipo de Paideia, ou seja, uma formação integral do sujeito conforme a nossa época. Desde criança, assimilamos determinados conceitos de forma natural para que a adesão na idade adulta seja mais pacífica reduzindo ou até eliminando a possibilidade de conflitos. No caso, uma forma de Paideia Christi contemporânea.

 

Explicação e dica

Paideia é um nome amplo atribuído ao tipo de Educação e Cultura nas quais forjavam-se os diferentes tipos de cidadãos na cultura grega, atribuindo-lhe uma filosofia de vida específica de acordo com sua funções: guerreiros, filósofos ou agricultores.

 

Paideia Christi é uma derivação medieval da Educação voltada à religião cristã. É uma prática típica do movimento conhecido como Escolástica.

Sobre essa clássica relação entre a liberdade e a religião, cabe aqui um frequente clichê utilizado quando se comenta sobre a liberdade. Esse clichê, no entanto, não é aplicado na tentativa de exaltar as emoções ou por modismo filosófico. A citação se deve à pertinência da pergunta realizada pelo escritor Fiódor Dostoiévski através de seus personagens no livro Os Irmãos Karamázov. Um dos irmãos questiona a existência de Deus durante uma profunda conversa que costuravam. Diante do questionamento, costuma-se extrair a seguinte paráfrase: “Se Deus não existe, então tudo é permitido” (DOSTOIÉVSKI, 2008).

 

Antes mesmo de Dostoiévski, Voltaire já afirmava essa necessidade de uma moral divina, dizendo que, caso não houvesse um Deus, seria preciso inventá-lo. Mas, apesar de toda essa referência a Deus e à religião, a busca da presente discussão não envolve necessariamente esse campo. Trata-se de perceber o quanto a noção de liberdade está sempre cerceada por limites imaginários e subjetivos que acabam por contribuir para a má compreensão do conceito.

 

A ideia de que a liberdade pode ser absoluta ainda que à revelia da moral vigente é assustadora para a maioria das pessoas. Anarquia, no senso comum, é sinônimo de bagunça, caos, violência, destruição. Em nada corresponde com a filosofia dos autores considerados anarquistas, que imaginaram uma sociedade regida pela ética sem a necessidade de controles externos aos indivíduos, principalmente os de coerção.

 

 

A partir de diversos campos da Filosofia e das ciências, acredita-se que é preciso dar limites à liberdade humana. Presenciar as pessoas tomando atitudes que ameaçam minha ordenação de mundo é motivo para desestruturar todo o alicerce psicológico que me fornece segurança e estabilidade na existência.

 

O controle do outro é, na verdade, um controle desesperado de si mesmo, da sua própria visão de mundo. Saber que as pessoas são completamente livres para dizerem e fazerem o que quiserem é aterrorizante. Imaginar que as pessoas ou os acontecimentos históricos não são regidos por ninguém é motivo suficiente para desenvolver uma síndrome do pânico. Como pode ser tudo tão inseguro, tudo tão à deriva?

 

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*André Roberto Ribeiro Torres é licenciado em Filosofia, psicólogo; psicoterapeuta existencial; mestre em Psicologia; professor da Faculdade Anhanguera de Campinas; fundador, coordenador e docente do Curso de Formação Independente de Psicologia Fenomenológico-Existencial em Campinas – SP.

Adaptado do texto “Liberdade e liberalismo, subjetividade e individualismo”