Liberdade de pensamento

Thana Mara de Souza reflete sobre os horizontes de Sartre e Malraux

Por Fábio Antonio Gabriel | Foto: Divulgação | Adaptação web Isis Fonseca

Thana Mara de Souza

Dra. Thana Mara de Souza, é doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo, com a tese: “Da estética à ética: uma análise compreensiva das obras literárias de Sartre e Malraux”, e que com muita propriedade dialoga conosco sobre o pensamento desses importantes filósofos contemporâneos sobre a liberdade de pensamento.

Atualmente é professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). A professora responde a questionamentos, como: Será que realmente somos livres plenamente ou a sociedade determina nosso comportamento e modo de pensar? Será que a filosofia pode dialogar com a literatura? Qual é a relevância de Sartre na filosofia contemporânea? Estas são algumas das questões a respeito das quais a nossa entrevistada propõe-se a refletir. Thana também nos oferece discussões vigentes na ética contemporânea.

Há quanto tempo você estuda o pensamento de Sartre? O que a fez interessar-se pelo pensamento desse filósofo?

Estudo Sartre desde a metade de minha graduação em Filosofia na USP (Universidade de São Paulo), em torno de 2000, quando comecei a fazer Iniciação Científica.

Passei a me interessar por Sartre por conta de uma disciplina dada pelo Prof. Dr. Franklin Leopoldo e Silva, na qual tentávamos compreender o filósofo francês a partir do romance A Náusea e do texto: A transcendência do Ego.

E acredito que ter começado a ler Sartre justamente pela questão do papel da arte, da relação entre arte e filosofia e ética, foi fundamental para que eu me interessasse por seu pensamento.

Como pesquisadora de Sartre, você acredita que realmente somos tão livres assim? Ou seríamos também determinados por condicionantes históricos e sociais?

Antes de tudo, é preciso compreender bem o que significa, dentro da filosofia sartriana, dizer que estamos condenados a ser livre. O que é, afinal, essa liberdade absoluta? Ela não é sinônimo, aqui, de vontade ou de obter o que se deseja, mas é apenas a condição da própria ação.

Ou seja: ser liberdade significa dizer que o ser humano é, por um lado, um ser-no-mundo, impossível de descolá-lo totalmente da realidade; e, por outro lado, um ser diferente das coisas no mundo.

Sendo no mundo, o humano tem um modo de ser distinto das coisas, que são completas, plenas em si mesma. Então, ser liberdade é o mesmo que dizer que sempre haverá ao menos a possibilidade de ação.

Nesse sentido, acredito sim que somos livres, dado que essa liberdade implica pensar sempre mediante nossa realidade, e não desconsiderar os condicionantes históricos e sociais.

O que Sartre coloca, e isso é fundamental compreender, é que a liberdade significa: dada tal condição histórica, dada tal facticidade, como vou significá-la? Como vou reagir? É como possibilidade de ação e significação que a liberdade se descreve no pensamento sartriano.

Assim, não temos desconsideradas em nenhum momento as questões concretas, históricas. Mas isso não significa o seu oposto, que não haveria possibilidade alguma de modificação da realidade por parte dos seres humanos. E é exatamente essa condição de ação que Sartre entende como liberdade de pensamento.

Qual é a importância de Sartre para o pensamento filosófico contemporâneo? De quais filósofos ele sofreu influência e quais ele influenciou?

Sartre possibilita pensar uma filosofia que critica a modernidade sem, no entanto, abandonar os ganhos que essa época, principalmente com as noções de subjetividade e liberdade, trouxe.

Mesmo que pense em termos de uma separação de direito entre Para-si e Em-si, concretamente, essa separação deixa de existir, já que o Para-si só existe
em relação com o Em-si e este só adquire sentido no modo como o Para-si o vivencia.

Isso é importante para se evitar uma diluição tal dos termos que levará a não identificarmos mais o que é propriamente humano no mundo; ou seja: Sartre mantém uma ambiguidade fundamental para não reduzir o ser humano ao mundo, e, ao mesmo tempo, não pensá-lo sem o mundo.

Do mesmo modo, a ligação entre filosofia e arte, e entre estética e ética mantém essa ambiguidade: sem que uma desapareça na outra, cada termo está ligado intrinsecamente ao outro.

Dentre os filósofos que mais diretamente influenciaram Sartre, podemos destacar três – aos quais se refere incessantemente em O ser e o nada: Husserl, Hegel, Heidegger. Mas também podemos notar uma grande influência de outros filósofos, tais como Bergson, Kierkegaard e Descartes.

Sartre exerceu uma influência significativa em várias áreas, não apenas em relação à filosofia ou à sociologia, com Jacques Rancière e Barthes, por exemplo, mas também em relação ao movimento antipsiquiátrico e às artes, principalmente na área da estética da recepção e no modo proposto de fazer do teatro um teatro de situações.

Confira a entrevista completa na Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 129!