Jogos filosóficos

O jogo é a manifestação dos seres vivos dotados de independência: Linguagens diferentes, cada uma com suas próprias regras

Por Rosa de Lourdes Aguilar Verástegui* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A ludicidade tem sido considerada um dos objetos de destaque para os pesquisadores interessado pelas ciências. Os jogos são atividades ligadas à natureza humana e a Filosofia reflexionou sobre estas práticas. Todo jogo tem regras. Os jogadores interagem procurando lazer. E o bom jogador destaca-se porque segue estritamente as regras do jogo, acrescentando beleza por meio de sua destreza e habilidade na atividade lúdica.

 

Diante da diversidade de abordagens que atualmente buscam compreender os problemas que envolvem o estudo do jogo, poderíamos questionar: o que foi produzido nos primórdios da Filosofia influiu no modo hegemônico pelo qual atualmente se entende o jogo e sua relação com a educação? Se sim, de que maneira? Quais as contribuições da Filosofia aristotélica para o desenvolvimento da temática da relação entre jogo e educação?

 

A História da Filosofia registra os jogos, como os enigmas e as adivinhações, para questionar as crenças e procurar a verdade. Aristóteles (384-322 a.C.) rejeitava as opiniões utilizando aporias, contradições, paradoxos, enigmas, etc., que conduzem a respostas contraditórias ou ambíguas, porque ele procurava raciocínios coerentes e plausíveis para fundamentar os princípios de sua Filosofia.

 

Alice no País das Maravilhas

Alice no país das maravilhas é um livro escrito pelo britânico Lewis Carroll (1832-1898), e foi levado várias vezes ao cinema. O livro de Carroll se situa no campo da Lógica e tem um repertório riquíssimo de argumentos e situações que a contam. Observa o autor que o jogo da lógica nos ensina a tomar cuidado com a Linguagem para evitar problemas. Nesse livro, a personagem Alice entra no jogo argumentativo e falacioso dos interlocutores, dialogando com eles. Nesse sentido, podemos dizer que a experiência do jogador está parcialmente constituída pela alteridade, o diálogo e as provocações.

 

No jogo das falácias, tanto crianças como adultos podem estar envolvidos, as pessoas entendem o jogo da linguagem e respondem de acordo com a situação criada pelo interlocutor. Em Alice no país das maravilhas, cada interlocutor segue suas regras, quando o Chapeleiro Maluco diz a Alice que ela é louca. Diante da negativa da menina, o Chapeleiro argumenta que nesse universo todos são loucos, e conclui que, se ela está ali, então deve ser também uma louca.

 

Para Carroll, a forma de evitar as falácias é tomando cuidado no jogo lógico da Linguagem, das regras de formação argumentativa. De tal maneira que, falando com claridade e sem ambiguidades evitaríamos muitas situações difíceis. Mas o objetivo do jogo argumentativo de Alice não radica em solucionar perguntas, mas em responder os desafios e argumentar também.

 

No prefácio à quarta edição da Lógica simbólica, Lewis Carroll afirma que sua intenção era popularizar o fascinante tema da lógica e fazer que os jovens tenham acesso à matéria. O livro de Alice no país das maravilhas mostra que a lógica, obedecida até suas últimas consequências, leva a situações absurdas e que a transgressão dos princípios lógicos pode divertir os leitores.

 

A leitura deste livro nos faz observar que podemos participar de diversos jogos argumentativos com a intenção de dar continuidade a  eles, não de dar necessariamente respostas definitivas e certeiras. Os trocadilhos, palíndromos, piadas, alusões a situações tácitas, os duplos sentidos, fazem parte do jogo que a ambiguidade da Linguagem natural nos permite. Desde cedo aprendemos isso e rimos das confusões. A Linguagem não serve unicamente para comunicar fatos, ela também serve para divertir. Assim, entender o jogo que a Linguagem permite não é uma tarefa mecânica, como observamos no filme O homem bicentenário (1999) do diretor Chris Columbus, no qual o robô era incapaz de fazer piadas porque não tinha senso de humor.

 

A lógica de Carroll estimula o leitor a refletir sobre todas as possibilidades e extrapolar o senso comum, por isso ler e desfrutar faz parte do jogo. Assim, devemos entender a intenção do gato que fala com Alice e diz:

“Para começar”, disse o Gato, “um  cachorro não é louco. Você concorda?”

“Suponho que sim”, disse Alice.

“Então, bem”, o Gato continuou, “você vê, um cão rosna quando está bravo e balança o rabo quando está contente. Bem, eu  rosno quando estou feliz e balanço meu rabo quando estou bravo. Portanto, eu estou louco.”

 

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*Rosa de Lourdes Aguilar Verástegui possui graduação em Filosofia pela Universidad Nacional Mayor de San Marcos, mestrado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em Educação (Filosofia da Educação) pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente é professora adjunta da Universidade Estadual de Londrina.