Os intelectuais odeiam o capitalismo?

A quem interessa pensar assim? Um debate sobre ressentimento, identificação e laço social

Por Alexandre Starnino e Diego Mileli* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Por que os intelectuais odeiam o capitalismo

A tarefa de responder a questão acima é ainda mais difícil quando se tenta encontrar respostas de ordem íntima, como quando se atribui a oposição, por exemplo, a um ressentimento. Mas foi exatamente isso que tentou fazer Andrea Faggion (1979) no texto intitulado Uma velha pergunta: por que os intelectuais odeiam o capitalismo, inspirando-se, segundo ela, em Robert Nozick (1938-2002). A autora partiu do pressuposto de que os intelectuais não apenas se opõem ao, mas odeiam o capitalismo.

Trabalharemos sobre o texto da autora mencionada, pois, apesar de o tema já ter sido bastante debatido ao quase esgotamento, foi a partir da estranheza com o conteúdo do respectivo texto que escrevemos o nosso. A recorrência dessa discussão que visa justicar e conservar o sistema existente é algo também a se destacar.

A que(m) serve passar a impressão de que os intelectuais odeiam o capitalismo? Cabe ressaltar que tal debate costuma ressurgir em tempos de crise política e parece ser uma espécie de ataque preventivo às possíveis críticas e propostas de reestruturação da sociedade, apareçam elas como possíveis ou como necessárias.

No texto em questão, a autora pede primeiramente que aceitemos como axioma que ‘a maioria dos intelectuais odeiam o capitalismo’. O próprio título de seu texto, a pergunta ‘Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?’, parte do princípio de que é fato dado que os intelectuais odeiam o capitalismo. Isto não é posto em questão.

No texto, a autora apenas questiona quais são as razões, quais são os motivos para isso. Antes de mais nada, podemos perguntar: por quais métodos se verifica as motivações dos intelectuais no tocante ao seu suposto ódio ao capitalismo? Ou tal ódio seria declarado por meio de um questionário passado entre os intelectuais, o qual resultou em uma estatística onde os intelectuais responderam: ‘Você odeia o capitalismo? Justique’? Ora, não foi o caso.

Com efeito, ao se dizer ‘os intelectuais’ sem uma definição de local, tempo, área de estudo etc., se está tomando o intelectual como aquele que possui algumas características universais, atemporais e essenciais – neste caso, não ditas – que se encontram presentes em todos os intelectuais e que é justamente o que os torna intelectuais.

Esta assunção por si só já é ousada. Além disso, os intelectuais são sujeitos cujas identidades, da mesma forma que em qualquer outra pessoa, se compõem de uma miríade de aspectos que influenciam seu pensar e suas conclusões.

Não terão suas tradições, histórias, crenças, origens, condições financeiras, culturas, etc. nenhuma interferência significativa no resultado, de modo que se os possa simplificar todos, de todas as áreas e de todos os tempos? Pode-se simplificá-los única e exclusivamente a ‘intelectuais’? Eles constituem de fato um grupo? Uma identidade? Será que está na natureza do intelectual odiar o capitalismo? É realmente o caso que os intelectuais odeiam o capitalismo? Se não for o caso, a pergunta sequer tem sentido.

Seria como perguntar porque os peixes gostam de sorvete. Mas, voltemos à parte afirmativa da pergunta, ou seja, ‘os intelectuais odeiam o capitalismo’. Para entender essa afirmação, três elementos são necessários: os intelectuais; odiar; e o capitalismo.

Então, primeiro devemos perguntar quem é o sujeito da frase; o que é o intelectual? Por falta de alternativa, tomemos por intelectual aquele que tem a atividade
intelectual como ‘ofício’, diferentemente de um trabalho predominantemente manual onde a produção é materialmente bem-disposta e facilmente tangível, pois simplesmente exercer a ‘atividade intelectual’ em sentido lato nos levaria à conclusão de que os seres humanos – e possivelmente outros animais – odeiam o capitalismo.

Dentre aqueles que tem a atividade intelectual como ofício, eles de fato odeiam o capitalismo? Os intelectuais da Índia? Os químicos dos Estados Unidos? Os filósofos da Inglaterra? Os literatos do Zimbábue? Se fala de todos os intelectuais? De todas as áreas? De todos os tempos? De todo o globo terrestre?

A autora do texto diz partir de um texto de Nozick, que se pergunta por que os intelectuais se opõem ao capitalismo. Os problemas acima se aplicam a Nozick também. Apesar de ele definir o que é intelectual, ele não especifica de quais áreas – limitando-se a dizer que são aqueles que trabalham com as palavras –, de quais países, de quais tradições etc.?

Por outro lado, ele ressalta que nem todos os intelectuais tem inclinação ideológica “à esquerda”, mas que a ‘esquerda’ seria mais representada no grupo de intelectuais em comparação à sociedade em geral. Nozick tampouco esclarece de onde vem suas conclusões sobre as tendências políticas, nem como chegou à base de seu argumento para justificar que os intelectuais seriam ressentidos: “Intelectuais esperam ser as pessoas mais valorizadas em uma sociedade, aqueles com maior prestigio e poder, aqueles com as maiores recompensas”, afirma.

Para não desviar o foco, voltando ao texto principal de nossa análise, é curioso que a autora derive ‘odiar’ de ‘opor-se’. Odeia-se tudo aquilo a que se opõe? Se alguém se opõe à construção de um museu quando para isso famílias teriam que ser removidas de suas casas, ou porque o trânsito seria alterado, ou por descaracterizar a arquitetura histórica da região, etc., nesse caso não parece que seria adequado dizer que essa pessoa odeia a construção de museus ou odeia museus. Opor-se e odiar não são sinônimos, como a autora parece utilizar. Isto parece claro a qualquer um.

Adaptado do texto “Os intelectuais odeiam o capitalismo? A quem interessa pensar assim?” da Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 130

*Alexandre Starnino é graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, pesquisador pela Fapesp e mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/FAFESP com período em Paris VII.

Diego Mileli é mestre em Filosofia pela Universität Hamburg – UHH e graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

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