Institucionalização do ócio

Nas sociedades capitalistas, o ócio é considerado apenas um período de tempo no qual é possível repor parcialmente suas forças vitais para que melhor se dedique ao trabalho alienado posteriormente

Por Renato Nunes Bittencourt* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O ócio é vilipendiado pela moral capitalista por quebrar o regime tirânico da dedicação incondicional do sujeito ao processo produtivo e sua inerente exaustão metabólica. No estado de ócio, o sujeito consciente de seu poder criativo consegue se reencontrar a si mesmo. O grande ofício político da crítica ao artificialismo do capitalismo reside na dignificação do ócio como um instrumento de combate, elevado assim a uma categoria dotada de grande seriedade para auxiliar o ser humano a se emancipar da dominação laboral.

 

Na organização capitalista, a otimização do tempo se torna a soberana que regula todos os corpos, adestrados para o cumprimento rigoroso de metas estabelecidas de forma heterônoma pela gestão tecnocrática da vida produtiva. O lema “tempo é dinheiro” representa perfeitamente o espírito capitalista e sua inerente anulação da contingência da ação humana, que deve ser administrada de maneira racional de modo a se evitar a perda do precioso tempo, fundamento da produção contínua e do possível enriquecimento do empreendedor que se esforça continuamente para superar as metas estabelecidas. A submissão do homem aos imperativos do tempo produtivo representa sua própria despersonalização existencial, pois para que o sujeito consiga efetivar suas capacidades laborais é imprescindível que se dedique poucos instantes para a reflexão. Ao analisar a degradação cultural moderna, Friedrich Nietzsche (1844-1900) argumenta que “as pessoas já se envergonham do descanso; a reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão, enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa – vivem como alguém que a todo instante poderia perder algo. Melhor fazer qualquer coisa do que nada – este princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior”.

 

Entenda o que é trabalho imaterial

 

O empreendedorismo capitalista, em sua configuração clássica, faz do ser ­humano uma máquina automática, sem pensamento, pois pensar é prejudicial para o desenvolvimento do trabalho alienado. O pragmatismo industrial pressupõe que toda atividade que não aumenta a produtividade deve ser eliminada, por isso se coíbe de maneira tão violenta o prolongamento do tempo livre do operariado nos intervalos que lhes são altruisticamente concedidos pelos administradores. Esses gestores industriais não hesitaram em até mesmo cronometrar o tempo disponível para as refeições e cercear as idas dos trabalhadores aos sanitários para a satisfação das suas necessidades fisiológicas. Paul Lafargue (1842-1911), em sua defesa pela emancipação laboral, ironiza: “Trabalhem, trabalhem, proletários, para fazer crescer a riqueza social e as suas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, tornando-se mais pobres, tenham mais motivo para trabalhar e para ser miseráveis. Tal é a lei inexorável da produção capitalista”.

 

No contexto da sociedade industrial, o ócio apresenta caracteres revolucionários, pois é uma insurgência (ainda que muitas vezes de índole insolente, despretensiosa e inconsciente) contra os imperativos automáticos da produtividade.

 

Não se pode confundir o ócio com o tédio. Muitas pessoas imersas no estado de ócio não criativo acabam configurando seus afetos sob os efeitos negativos do tédio, gerador de mal-estar existencial e que exige o preenchimento desse vazio interior com adições externas que somente amplificam a alienação cultural do sujeito. O ócio por si só não vale nada, sua importância existencial somente se consolida quando o sujeito faz do ócio um momento de empoderamento pessoal e de resistência contra a opressão estressante da labuta diária.

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 114

Adaptado do texto “Institucionalização do ócio”

*Renato Nunes Bittencourt é doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ. Professor da FACC-UFRJ. E-mail: renatonunesbittencourt@gmail.com