Impressoras 3D no espaço da arte

Por Walter Cezar Addeo* | Fotos: Dilgação | Adaptação web Caroline Svitras

Seria mesmo inevitável. O surgimento das impressoras 3D iria suscitar uma discussão sobre o seu uso no universo da arte. Essa questão já acontecera quando do surgimento da fotografia, do cinema e retorna agora no âmbito das artes digitais. Um trabalho executado em impressoras 3D é sempre um trabalho previamente executado em computador. Pertence por direito ao universo das artes digitais com a seguinte diferença. Se as artes digitais ficam confinadas às telas que as exibem, a arte em 3D irrompe no mundo tridimensional. Compete, portanto, com a escultura. Mas dispensam a habilidade manual dos escultores ou fundidores de metal. A impressora 3D transforma, sozinha, o projeto (o programa) num ente físico. Neste sentido, tem mais semelhança com a arte fotográfica que transporta o objeto fotografado diretamente para o negativo e depois para o papel ou, atualmente, para a memória dos computadores de onde pode ser exibido inclusive à distância, via Internet e redes sociais. Os objetos produzidos em 3D, por sua vez, não têm essa ubiquidade, mas os projetos que os criaram podem igualmente viajar pela Internet e ser realizados em qualquer lugar, quantas vezes se queira. Neste sentido é uma arte tão reprodutível quanto a fotografia e o cinema. Ela também, por definição, não tem mais a aura de objeto único e, potencialmente, pode comportar uma serialização infinita.

 

As impressoras 3D que começaram timidamente esculpindo pequenos objetos em resinas plásticas diversas, logo evoluíram para outros materiais mais resistentes e tamanhos. As próprias impressoras também cresceram. Algumas são do tamanho de um ônibus e se destinam a projetos industriais. Atualmente, peças de aviões, próteses biológicas, carrocerias de carros, roupas, calçados e, inclusive, casas podem ser “impressas” em 3D. As consequências sociais já são evidentes. Elas libertam o usuário da grande indústria, uma vez que ele pode produzir seu próprio artefato em seu espaço privado e pode customizá-lo a seu critério, pois ele é o dono e o inventor do seu projeto. O produto final, portanto, terá sempre sua marca e responderá às suas necessidades particulares. Assim, as impressoras 3D estão a ampliar cada vez mais o espaço de atuação individual, permitindo uma independência de produção. Cada um pode, agora, ser seu próprio artesão industrial. Se as lojas não possuem o objeto que se deseja, basta desenhá-lo e imprimi-lo. Um espaço de liberdade operacional se abre em oposição à hegemonia da grande indústria, muitas vezes, oligopolista e totalitária ao impor seus modelos e design.

 

 

Essa nova liberdade, inevitavelmente, acarretaria uma liberdade estética sem precedentes. Todos, em princípio, podem ser seu próprio “designer”. Todos os criativos, evidentemente. Então, a questão da arte em impressoras 3D teria que surgir quase que por exigência interna desse novo modo de produção. O engenho humano não poderia prescindir dessa tecnologia para produzir artefatos artísticos, além dos objetos industriais que já produz.

 

Então, chegou o momento das exposições desses objetos em 3D. Eles irão, lentamente, integrar-se ao grande circuito das galerias e mostras, vencendo a resistência e o preconceito. Nada diferente do que aconteceu com a arte da gravura, da fotografia e do cinema. Tiveram que lutar para consolidar seu direito de integrar o universo das artes. Lutaram por seu espaço. Obrigaram a que se criassem novos parâmetros estéticos. Com as impressoras 3D não será diferente.

 

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Adaptado do texto “Impressoras 3D no espaço da arte”

*Walter Cezar Addeo (W.C.A) é mestre em filosofia pela universidade de São Paulo (USP) e membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), escritor e roteirista. Escreve sobre artes visuais nestas páginas. waddeo@uol.com.br