Impessoalidade da tecnologia

Por João Teixeira* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Onde você está? Onde está seu corpo? Hoje em dia, essas questões estão se tornando cada vez menos importantes. A primeira vez que enviei um e-mail tive a sensação de estar escrevendo uma carta para um destinatário cujo corpo pode estar em qualquer lugar do planeta. Eu nunca saberia onde ele estava, a não ser que alguém me respondesse.

 

No fim de semana passado, fui a uma lanchonete. Ao meu lado havia quatro pessoas sentadas em torno de uma mesa. Cada uma tinha um smartphone na mão e digitava compulsivamente. Mas em nenhum momento vi essas pessoas trocarem sequer uma palavra entre elas. Estar ao lado de alguém não é mais garantia de presença. Uma dessas pessoas poderia estar conversando com um amigo nas Filipinas e outra, fechando um negócio com um empresário de Mumbai. Não é mais o corpo que determina quem está perto de mim e que, por isso, seria meu interlocutor natural.

 

Resolvi me sentar em outra mesa. Ao lado, havia um rapaz com piercings e tatuagens em várias partes do corpo. Ele devorava um sanduíche, mas seus olhos estavam voltados para um tablet em cima da mesa, ao seu lado. Reconheci o fundo musical e a voz de um apresentador. Era um jogo de futebol que havia sido transmitido pela televisão dois dias antes. Não é mais necessário estar diante da tela em determinado dia e horário para assistir qualquer programa de televisão.

 

Essas cenas apenas comprovam o que já se sabe há muito tempo: por um lado, as tecnologias digitais aumentaram exponencialmente a informação, mas, por outro, diminuíram, paradoxalmente, a comunicação. Mas há um outro aspecto dessas tecnologias que preocupa ainda mais: por destruir nossos esquemas tradicionais de espaço e de tempo, essas tecnologias estão excluindo nossos corpos do mundo.

 

Essa parece ser uma consequência inevitável que decorre da própria arquitetura de nossos computadores. Desde a invenção dos PCs, dos desktops e, mais tarde, dos smartphones, os computadores são uma espécie de cérebro sem corpo, através dos quais enviamos e recebemos informação. O cérebro sem corpo ou o  “cérebro na proveta”, como foi batizado pelos filósofos da mente dos anos 1970, é uma espécie de sonho (ou pesadelo) cartesiano de uma mente totalmente separável do mundo físico.

 

No entanto, a busca por um corpo saudável e bonito que ocorre hoje em dia vai, e claramente, na contramão dessas afirmações. Frequentar uma academia, cuidar do corpo para que ele não se torne um fardo para a família ou para a sociedade na velhice se tornou uma obrigação moral. Se existe uma medicina avançada, quem tem acesso a ela não tem nenhuma desculpa para não a procurar. Temos todos que ter uma aparência jovem e bonita. Por isso, os salões de beleza estão sempre lotados. Mas há um outro fenômeno, muito mais poderoso para reinserir o corpo na sociedade: o esporte profissional.

 

 

Nunca se valorizou tanto as habilidades do corpo como nas últimas décadas. Esportistas profissionais ganham fortunas e, rapidamente, se tornam astros na mídia. Os esportes passaram a ser parte fundamental do entretenimento e se globalizaram. Copas do Mundo e Jogos Olímpicos cativam milhões de espectadores, que podem estar nos estádios ou, simplesmente, assistindo esses eventos em casa, pela televisão. Como conciliar a perda progressiva do corpo imposta pela tecnologia, com a supervalorização que recebe nos esportes? Como resolver essa contradição?

 

Uma resposta possível é conceber essa supervalorização do corpo dos atletas como reação natural a uma cultura que cada vez mais nos desenraiza do mundo físico e nos convida a trocá-lo pelo virtual. Mas não é só isso. Para muitas pessoas os atletas são como heróis que trazem de volta ao mundo um encantamento que foi praticamente eliminado pela racionalização da vida e pela tecnologia.

 

O filósofo alemão Martin Heidegger e, antes dele, o sociólogo, também alemão, Max Weber detectaram que o desencantamento, uma espécie de melancolia generalizada, seria um efeito colateral inevitável da expansão da tecnologia.

 

 

O filósofo belga Gilbert Hottois observou que o homem de outrora, por meio de suas relações sólidas com a natureza, retirava espontaneamente a impressão de um certo mistério do mundo. Hoje em dia, o homem mantém relações com objetos manufaturados e, por isso, esse mistério desapareceu. Um mecanismo, por mais complexo que seja, nunca será um verdadeiro mistério, pois há técnicos que o conhecem perfeitamente.

 

No entanto, o esporte, atualmente, traz reencantamento. Um jogo de futebol é um ritual público que nada tem de racional nem de pragmático. São 90 minutos nos quais tanto os jogadores como a audiência do estádio e os telespectadores estão momentaneamente reinseridos na sua corporeidade. No estádio, as pessoas podem extravasar suas emoções e restaurar, provisoriamente, uma empatia perdida, sobretudo por saber que nunca mais se encontrarão.

 

Quando desligamos a televisão os semideuses desaparecem e voltamos à nossa rotina, na qual ninguém conversa com ninguém, embora todos tenham que estar sempre disponíveis para atender seus telefones sob pena de serem considerados grosseiros. Ou simplesmente para não serem despedidos.

 

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

www.filosofiadamente.org

Adaptado do texto “Corpos Olímpicos”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 119