Impactos da ideologia neoliberalista

Filosofia para o resgate da boa convivência

Por Maria Madalena Magnabosco* | Fotos: Shutterstock |  Adaptação web Caroline Svitras

Pensando o significado de sombrio a partir da Psicologia Analítica de C. G. Jung, o termo nos remete à Sombra. Na analítica de Jung a Sombra é nossa escuridão interior, o sombrio de nossa alma. É a imagem de nós próprios que desliza em nossa esteira quando caminhamos em direção à luz. Ela é a flagrante inconsciência que a maioria de nós exibe, o lado inconsciente das operações intencionais, voluntárias e defensivas do ego.

 

Segundo Robin Robertson:

A sombra é um guia necessário ao longo do caminho, mesmo que haja uma parte dela que não pode nunca, nem deveria, ser integrada na nossa consciência, pois que pertence às trevas. O desafio da sombra não é tentar o mal para se tornar saudável. Além do mal relativo que pode transmudar-se em ouro, pode estar, de fato, o verdadeiro mal. E jamais devemos ceder a isso; no entanto, é muito mais sensato abstermo-nos de julga-lo, pois podemos descobrir que até o mal pode servir a um objetivo na nossa vida… como Gollum (2004, p.130)

 

Diante o sombrio de nossos tempos e a sombra presente nas relações atuais o que podemos aprender sobre nós e o contexto contemporâneo em que vivemos?

 

Para iniciarmos essa reflexão recorro a Marilene Chauí em uma entrevista realizada aos Jornalistas Livres, a qual pode ser ouvida a partir do link: https://www.facebook.com/jornalistaslivres/videos/475162479274301/?hc_ref=NEWSFEED.

 

Nessa entrevista Marilene Chauí define o Neoliberalismo como sendo o desmonte de todas as formas da social democracia, sendo, portanto, a derrubada de todos os fundos públicos que sustentam os direitos sociais.

 

Os direitos sociais são transformados em serviços que cada indivíduo compra no mercado. Segundo ela, a grande privatização neoliberal não é das empresas estatais, mas a transformação dos serviços que agora são comprados no mercado.

 

Para sustentar essa privatização e oferta de serviços é necessário uma ideologia e essa ideologia é: cada indivíduo é um investimento que a família faz e este passa a pensar a si mesmo como uma empresa. Ele é o empresário de si mesmo.

 

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Crenças

Ao se conceber dentro desse novo modo de ser, ele entra no mercado de trabalho e acredita que negocia de igual para igual com as empresas, pois não é mais um trabalhador, mas um prestador de serviços que vem com um seguro saúde, com um diploma e com uma previdência. Tendo esse plus ele não gera ônus à empresa e tem condições de competir com os outros empresários de si.

 

Essa nova condição de empresário de si mesmo é o individualismo (sombra) levado a seu ponto máximo, pois ao sustentar essa ideologia ele legitima o desencargo por parte da empresa e do Estado de seus direitos sociais. Segundo Gilberto Dupas, o indivíduo é o inimigo número um do cidadão, pois nos dizeres de Tocqueville:

 

O cidadão procura seu bem-estar pelo bem-estar de sua cidade, enquanto o indivíduo não acredita na causa comum; para ele, bem comum é cada um se virar ao seu modo. Para o indivíduo, a única função útil do poder público é garantir que cada um possa seguir seu caminho em paz, protegido em sua segurança física e na de suas propriedades. (2014, p.91)

 

Diante esse posicionamento individualista que todos nós praticamos e nos afetamos em nossas relações sociais, trabalhistas e até mesmo pessoais e íntimas, nos tornamos inimigos da cidadania, e a verdadeira comunidade só é viável a partir da ideia de cidadania. Com o esvaziamento dessa ideia, o sentimento de “nós”, de fratria e de amizade não se sustenta e temos apenas ilusão de intimidade e um simulacro de comunidade.

 

 

As consequências desse simulacro de comunidade, próprio de um modo individualista de estabelecer relações é conhecido como Liberalismo Individualista. Nessa concepção o indivíduo é concebido como um ser humano separado de tudo. Tal concepção difere do conceito filosófico de indivíduo como indiviso, único e singular.

 

De acordo com Guareschi (2005), segundo a perspectiva do indivíduo como separado de tudo, “não há nada nele que o relacione, ou o ligue a alguma coisa. Tudo converge para o centro. Ele é suficiente em si mesmo, não tem nada a ver com outros e não necessita dos outros para sua definição e compreensão”. (p. 35)

 

Competição

O comportamento mais coerente com essa concepção de individuo é o que chamamos de individualismo, egoísmo ou egocentrismo. Na dimensão das relações o que surge a partir dessa concepção é a competição entre pessoas. “Tal competição leva à exclusão, pois ela necessita logicamente, para se concretizar, da exclusão de outras pessoas.” (GUARESCHI, 2005, p.39)

 

A exclusão, enquanto comportamento que legitima o liberalismo individualista, desperta no excluído um sentimento de indignação, de injustiça, a qual traz em seu bojo o desejo de vingança. Na contemporaneidade, tal desejo se expressa pelos altos índices de violência física, simbólica e psicológica entre pessoas, de pessoas para com o patrimônio público e cultural e para com as alteridades, aqueles que são outros e estão de fora no liberalismo individual.

A visão de Marx sobre o trabalho

 

Para refletirmos sobre a violência e sua expressão física, simbólica e psicológica utilizarei um trecho da análise do livro de Tununa Mercado, escritora argentina que passou pelo exílio, no qual denuncia a violência que se expressa pela constante vivencia de exclusão, ou seja, de exílio. O livro traz a estória de uma pessoa que sente-se excluído quando da necessidade de um atendimento médico em um contexto sócio-econômico em que não possuí um plano de saúde.

 

Apenas para situar, existem diversos tipos de exílio, a saber: exílio político, físico (entre regiões, urbano/rural), civil (entre identidades e direitos civis), existencial etc, mas em todos eles – apesar de suas nuances situacionais e contextuais – um dos elementos de semelhança e vínculo é a vivência de sentir-se exilado, ou seja, excluído.

 

Há nesses momentos de exclusão, sem dúvida, muita dor e sofrimento, mas também um embate pessoal, em que entram em jogo questões primárias da vida e da morte, da razão e desrazão, do corpo e das paixões, da identidade e da diferença, da voz e do silêncio, do poder e da existência. A não compreensão das mesmas são as sementes que geram a violência.

 

Durante a primeira infância, o ser humano é capturado pela imagem do adulto e, posteriormente, pela sua própria imagem refletida no espelho, que, para sempre, o alienará nesse “outro” que na verdade, é ele mesmo

 

O livro da escritora argentina Tununa Mercado, En Estado de Memória, tece sua escrita sobre os embates próprios do exílio e da exclusão em uma situação da necessidade de um atendimento médico, o qual traduz a exclusão do paciente em nome do incomodo que ele gera aos representantes do sistema médico e de saúde.

 

O primeiro capítulo, La enfermedad, inicia com a passagem de um personagem por nome Cindal que, em um consultório de psiquiatria, implora por um atendimento mas é tratado com indiferença pela secretária e pelo médico. Ambos não sabiam como manejar esse caso fora de ordem, que implorava por uma internação por estar com uma úlcera. Horas depois Cindal morre.

 

Dor e angústia

A analogia feita pela narradora com o personagem Cindal vem descrever o desespero sentido quando nesses contextos se busca algum amparo, algum auxílio por parte daqueles que imaginamos poder sanar um pouco da dor pelo conhecimento da enfermidade(?!). No entanto, o momento da dor e a enfermidade são solitários, como solitário é o exílio, onde o corpo se desdobra com uma úlcera em permanente comunicação com a mente de Cindal, como se ela fosse uma só e a mesma coisa com o terror que desencadeava sua dor. Ulcera e terror vinham juntos para Cindal.

 

Ulcerado. Este é o primeiro momento vivenciado na violência da exclusão, onde o corpo se torna incômodo para as pessoas e para o próprio sujeito. Nessas horas de dor, de súplica por algum amparo e reconhecimento, o sujeito dessa experiência se dá conta que sua demanda não pode ser atendida. O melhor é não incomodar, até mesmo nos locais que se predestinam ao acolhimento desses incômodos, ou seja, os consultórios médico-psiquiátricos.

 

Essa ulceração do e no corpo de Cindal, com a qual a narradora se identifica e evoca a lembrança em situações similares no exílio, poderia ser considerada como um espaço político dilacerado pelo exercício do poder liberal individualista e seus dispositivos pseudo-legais referenciados pelo médico-psiquiatra como um caso incurável, como um delírio de auto-referência, como uma auto comiseração própria daqueles que não marcam horário, que aparecem, sem que e nem porque, a requisitar uma atenção daqueles que se ocupam com grandes projetos e cuidam de grandes casos clínicos e psiquiátricos. É o corpo físico confrontando o corpo político e social e se tornando o lugar onde se inscreve memórias feridas.

 

Por que nos angustiamos?

 

A morte de Cindal pode ser uma metáfora para expressar o desejo daqueles que se sentiram incomodados em seus grandes projetos da necessidade de esquecimento desses sujeitos enfermos e suas memórias feridas. Pelo esquecimento – que aterroriza um corpo excluído por ser incompreendido em sua linguagem – surge uma fenda, uma possibilidade que poderá permitir emergir uma nova subjetividade nesses corpos. Tal fenda poderá ser percebida pela força de negação do exterior com relação ao sujeito que atravessa a ulceração, que sente o rompimento com o que lhe alimentava a alma pela suposta pertença e identificação com pessoas, lugares, valores, língua e imagens. Essa negação oprime e, ao mesmo tempo, pode abrir espaço para esse mesmo sujeito ser, ao menos, tratado como um “caso clínico”.

 

Nessa posição de ser tratado como um “caso” ele, ao mesmo tempo, abruma mas também tem a possibilidade de iniciar contornos sobre novos limites, pelo menos ao, inicialmente, ser reconhecido como um “caso” para depois, quem sabe, individuar-se pela história de outras memórias. Ele, marginalmente, tem direito a participar do que foi excluído (um tratamento) e, por esta participação, mesmo sendo através do reconhecimento de si como um “caso clínico”, ele vislumbra bálsamos para a ulceração inicial. Será?

 

Essa é a força do exterior se fazendo presente na vivencia do excluído, produzindo um pedido de inclusão onde o sujeito seja, pelo menos, colocado dentro dos ditames legais de uma medicina psiquiátrica e aceite a condição de doente. Esta postura pode iniciar uma outra forma de se olhar, ou seja, pode resgatar uma memória de si como singular, e não meramente massificado pelo codinome de doente ou enfermo mental. É o incluir excluindo coexistindo para o início de novas reflexividades. É o sujeito saindo de grupos e coletividades onde o tratamento é realizado de forma homogênea, para receber alguma condescendência de singularidade, até conseguir por esse incluir– excluir, uma re-inserção crítica onde poderá voltar a si como um outro.

 

 

A partir dessa reinserção podemos perceber esse movimento onde o exterior força o interior, e este também o força, transformando-o, mesmo que no início seja de modo paliativo; mesmo que seja, por um desencargo de consciência por parte do médico, o qual dá esperanças de uma nova direção, sob a forma de indicação para um outro profissional, sob a forma de algum diagnóstico. Por mais que ainda seja um saber institucional de classificação de doença sobre o outro, nesse momento inicial, esse saber vindo de fora é importante para pelo menos situar no dentro-fora o que é pura perplexidade para quem está prestes a perder todas as referências.

 

Aliás, esse é o grande terror para quem se encontra nas exclusões: perder todas as referências, perder-se em mundos, línguas, territórios, costumes, tempos e espaços irreconhecíveis. Essa angústia terrorífica nos é belamente escrita por Brecht:

 

“… Brecht se dava conta de que o exilado é sempre um ser que incomoda. Com sua simples presença, mesmo sem agir ou falar, o exilado torna visível um problema grave, uma situação desagradável que as pessoas não têm nenhum prazer em enxergar.

Além de estrangeiro, “diferente”, o exilado é um derrotado e como tal carece daquela espécie de beleza que costuma ser apanágio dos vitoriosos.

… Muitos escritores alemães passaram pelo dissabor de morar como trânsfugas em países estrangeiros. Eram obrigados a depender de favores; deviam se servir de uma língua que não era a deles e que normalmente não dominavam. Dependiam de tradutores que nem sempre estavam disponíveis e às vezes não eram inteiramente confiáveis. Dirigiam-se a um público leitor com o qual não tinham intimidade, a pessoas que tinham outros hábitos, outras inclinações, outro quadro de referências culturais. (KONDER,1996, p. 47 – 48)

 

Após viver a angústia dos irreconhecíveis, de buscar no outro alguma orientação para se situar, para ser nomeado e identificado, o exilado percebe que esse movimento é ilusório, ou seja, o de fora obriga o excluído a contar com si próprio para não se perder de vez, para manter alguma referência própria, por mais que ela seja vacilante e instável, dependente ainda de tradutores até a construção de uma maior autonomia.

 

Na hostilidade desse espaço-tempo que é o exílio, a política do exilado se torna a de propor uma superação para a dicotomia vivida entre o antes e o agora de si mesmo. Nesse sentido, ele busca intervir inicialmente pela aceitação de uma designação de doente, de enfermo, depois pela decepção de não ser aceito e de não poder participar das ilusórias orientações ou ajudas que lhe foram prometidas, para finalmente se perceber realmente um excluído que necessita reaprender a olhar e a olhar-se.

 

O que define nossa humanidade

 

Assim, a enfermidade inicial do exilado é este estado liminal, ou seja, em meio, nem um nem outro, onde o sujeito oscila constantemente entre o dentro-fora, sendo pura transição, mutantes em processo de outras aprendizagens.

 

Aprendizagens onde deverão (riam) começar outras presenças através do reconhecimento das cicatrizes do corpo, da alma, as quais assinalam rigorosa precisão e implacável memória de feridas, sem entretanto transforma-las apenas em dor, mas em novas possibilidades(?) de ser “nas fronteiras”.

 

Essas experiências de exclusão e tentativa de inclusão via a designação em ser pelo menos um “caso clínico”, se constituem em tentativas de outras problematizações por parte das pessoas que não estão dentro da ordem neoliberal. Em situações de exílio e exclusões na e da política neoliberal elas não estão apenas nessas posições como vítimas, mas como subjetividades que, ao mesmo tempo, denunciam e tentam compreender as questões espinhosas com as quais se defronta a humanidade: uma miséria humana agonizante.

 

A meu ver, uma das agonias é a morte de uma massificação uniformizada para tempos onde as fragmentações e descontinuidades não podem mais serem percebidas e tratadas como doenças, desajustes e loucuras, mas como novos processos sociais que apesar de serem germens de novas críticas, ainda vão se fazer ouvir como alteridades. E, por serem passagens ainda vão oscilar entre o institucionalizado e o que ainda não tem nome (não ter nome é a violência da exclusão, pois é o nome que nos qualifica como sujeitos).

 

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*Maria Madalena Magnabosco possui mestrado e doutorado em Literatura Comparada pela UFMG, além de ser PhD em Estudos Culturais pela UFRJ. Professora de graduação a Faculdade Pitágoras e de Pós-graduação em Análise existencial e gestáltica em Belo Horizonte.

Filosofia Ciência & Vida Ed. 70.