Imersão em mundos virtuais

Por João Teixeira* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

As redes sociais praticamente monopolizaram a Internet; o Facebook, o Twitter e o Instagram criaram uma nação digital paralela, com bilhões de habitantes. No entanto, essas imensas redes, que deveriam aproximar as pessoas, criaram um efeito paradoxal nas relações humanas. O aumento da comunicação levou a uma diminuição da intimidade e da empatia.

 

As redes sociais são construídas a partir do cruzamento de olhares. Como se formassem um imenso estádio virtual, por meio delas todos podem se enxergar ao mesmo tempo. Todos passaram a postar imagens de onde estão e do que estão fazendo. A busca pela visibilidade, mesmo que na forma de uma imagem efêmera, é reforçada e medida pelo número de “curtidas”, o que leva as pessoas, cada vez mais, a tornarem pública sua atividade cotidiana, submetendo-se, voluntariamente, ao olhar dos outros.

 

O mundo virtual se impôs como uma espécie de hiper-realidade paralela na qual a vida humana acontece. A experiência imediata é, cada vez mais, desvalorizada e substituída pela vida digital. As relações humanas passaram a ser mediadas pela internet. Como o tempo que passamos nas redes sociais é inversamente proporcional ao convívio humano, quanto mais nos comunicamos virtualmente, mais nos distanciamos do contato real com os outros. Esse é o paradoxo que vivemos atualmente.

 

 

Uma das consequências devastadoras dessa situação é a perda progressiva do sentido do outro. O isolamento faz com que as pessoas cada vez mais interajam com símbolos ou criaturas cujos corpos estão em lugares desconhecidos. O outro com o qual nos comunicamos através das redes sociais deixa de ser a pessoa em carne e osso e passa a ser uma criatura virtualmente construída, um habitante da hiper-realidade.

 

Estudos realizados por pesquisadores como Nicholas Carr, Susan Greenfield e Andrew Keen mostram que as crianças que “nasceram conectadas” têm maior probabilidade de desenvolverem transtornos de déficit de atenção, provavelmente pela própria arquitetura da internet, que estimula a dispersão. Passeamos por links que nos convidam a abrir outros e, com muita frequência, chegamos até a esquecer daquilo que motivou uma determinada busca. Nesse processo, nossa atenção é sequestrada.

 

Mas haverá outros tipos de transtorno causados pela dependência em relação às redes sociais? Quais serão as consequências de interagirmos a maior parte do tempo com sujeitos virtuais? Será que a expansão quase epidêmica do autismo em alguns países nórdicos e nos Estados Unidos está relacionada com o aumento do tempo que as pessoas passam conectadas a redes sociais?

 

Tecnologia e qualidade de vida

 

Quando nos comunicamos com uma pessoa com a qual nunca houve contato físico, a tendência é representá-la como um ser virtual, como um produto da nossa imaginação. Por vezes é difícil saber se estamos conversando apenas com avatares. Muitas vezes interagimos com sujeitos construídos pela nossa imaginação. Tudo vai se tornando uma grande simulação: as fotos, a aparência física manipulada e as emoções, que passam a ser relatadas através de símbolos. Será que podemos considerar essas criaturas um outro ou serão elas apenas uma pseudoalteridade fantasiada e construída como parte de nós mesmos?

 

Relacionar-se com um outro ­virtual, com uma pseudoalteridade, significa abrir mão das formas elementares da empatia, desenvolvidas por meio da percepção de movimentos corporais de alguém cujas atitudes escapam de nosso controle. Mas um sujeito virtual está sempre sob nosso controle, pois podemos fazê-lo aparecer e desaparecer quando quisermos, bastando, para isso, ligar ou desligar um computador.

 

Quais serão os efeitos de interagirmos, cada vez mais, com sujeitos virtuais? A incapacidade de reconhecer uma alteridade, de atribuir-lhe intenções e desejos a partir de nossos próprios sentimentos, pode levar, no limite, ao autismo. Conversaremos apenas com nós mesmos, da mesma maneira que uma menina conversa com sua boneca, fantasiando suas respostas e interrompendo a brincadeira quando quiser.

 

Impessoalidade da tecnologia

 

O autismo é um transtorno mental com um espectro amplo de sintomas com várias gradações que, em geral, se manifesta desde a infância. Será que as sociedades digitais estão incentivando comportamentos que, em vários aspectos, se assemelham a alguns sintomas dessa condição?

 

Nesse caso, teríamos um autismo especial, inteiramente produzido pela cultura, que poderíamos chamar de ciberautismo. Um de seus sintomas parece ser o fato de depositarmos, cada vez mais, nossas expectativas em relação ao futuro nas tecnologias e não nas pessoas que as usam. Ou, como afirma Sherry Turkle, uma pesquisadora do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, pelo fato de estarmos todos juntos e sozinhos na internet.

 

Será que a internet acentuará nossas tendências autistas? Talvez estejamos ingressando na era do autismo coletivo, uma expressão paradoxal, mas não menos significativa, inventada pela minha amiga Maria Eunice Gonzalez, do departamento de Filosofia da UNESP de Marília.

 

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*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org

Filosofia Ciência & Vida Ed. 101

Adaptado do texto “Autismo coletivo”