Identidade na obra de Jorge Amado

O romance sociológico Tenda dos milagres aborda o preconceito e a intolerância religiosa exaltando a identidade nacional, resultante da miscigenação e do sincretismo religioso

Por Barbara Poli Uliano Shinkawa* | Adaptação web Caroline Svitras

Se você está lendo este texto, provavelmente, alguma coisa lhe chamou a atenção para ele. Ainda que em um processo provisório e efêmero, algo do título lhe remeteu a algum assunto de seu interesse e o fez voltar os olhos a estes escritos por alguns instantes. Se prestarmos atenção às nossas escolhas, nossos gostos, nossas opiniões, estamos sempre sendo atraídos por algo que nos parece próximo, que interesse a nós, por fim, que nos identifique.

 

Os processos identitários são temas de vários estudos e estudiosos. Stuart Hall (1932-2014), por exemplo, desenvolveu diversos trabalhos abordando questões importantes acerca desse assunto. Como o pesquisador mesmo observou, as questões identitárias envolvem demandas sérias relacionadas à estrutura social, à cultura, às crenças, à formação de comunidades, à legislação, à possibilidade de governança (ou a falta dela), até mesmo, de um país; com isso é possível ter uma leve ideia da influência desses processos.

 

Hall, ao longo de suas pesquisas, percebeu que o sujeito pós-moderno, e podemos nos incluir nessa categoria, quebra todos os paradigmas até então montados para a ideia do que era ser sujeito. Stuart Hall chama esses paradigmas de “velhas identidades”: “A questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social […]. As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada ‘crise de identidade’ é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando estruturas que davam uma ancoragem estável no mundo social”.

 

 

Parte dessas mudanças reside no ser humano pós-moderno. O autor coloca que esse sujeito compromete a ideia fixa de identidade, porque sua característica é ser multifacetado.

 

Isso se dá pelo fato de que somos diferentes. Podemos dizer que somos as múltiplas interferências recebidas. Então, tendo por base a análise de Hall, somos, ao mesmo tempo, seres únicos e fragmentados. Por isso, o pesquisador sugere que, “em vez de falar da identidade acabada, deveríamos falar da identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é ‘preenchida’ a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nos imaginamos ser vistos por outros. Psicanaliticamente, nós continuamos buscando a ‘identidade’ e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude”.

 

Como o autor coloca, mesmo entendendo que não possuímos uma identidade fixa, pronta e acabada e que por isso mesmo estamos em processo de formação identitária, há uma busca, ainda que ilusória, por essa identidade pronta. E esse caminho pode gerar muitos conflitos, muita violência e morte. A história humana está repleta disso, infelizmente. As guerras, sejam elas por quais motivos, e a violência gratuita por diferenças de crenças religiosas, por diferentes opções de vida, de sexualidade, de origem, entre outros, acabam por serem fomentadas pela diferença existente na mesma condição humana.

 

No entanto, se nos dispusermos a analisar a situação com mais cuidado, veremos que aquilo que identifica também é o que afasta. Stuart Hall e Kathryn Woodward colocam que a diferença é constituinte da identidade. “As identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença”. E é se atendo radicalmente a esse princípio, por questões majoritariamente descabidas, que cada dia mais presenciamos cenas grotescas de puro terror e alta carga de violência. É interessante lembrar a importância dos discursos acerca do assunto, como Hall coloca: “É precisamente porque as identidades são construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos”. Também Pardo, citado por Silva, expõe uma reflexão importante sobre a questão da diferença, consequentemente, da identidade: “respeitar a diferença não pode significar ‘deixar que o outro seja como eu sou’ ou ‘deixar que o outro seja diferente de mim tal como eu sou diferente [do outro]’, mas deixar que o outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu, que eu não posso ser, que não pode ser um [outro] eu; significa deixar que o outro seja diferente, deixar ser uma diferença que não seja, em absoluto, diferença entre duas identidades, mas diferença da identidade, deixar ser uma outridade que não é outra ‘relativamente’ a mim ou ‘relativamente ao mesmo’, mas que é absolutamente diferente, sem relação alguma com a identidade ou com a mesmidade”.

 

Pensando nessas palavras, passamos a compreender melhor a importância do que Hall coloca como identificação, um processo contínuo e suscetível à différance: “Há sempre ‘demasiado’ ou ‘muito pouco’ – uma sobredeterminação ou uma falta, mas nunca um ajuste completo, uma totalidade. Como todas as práticas de significação, ela está sujeita ao ‘jogo’ da différance. Ela obedece à lógica do mais-que-um. E uma vez que, como num processo, a identificação opera por meio da différance, ela envolve um trabalho discursivo, o fechamento e a marcação de fronteiras simbólicas, a produção de ‘efeitos de fronteiras’. Para consolidar o processo, ela requer aquilo que é deixado de fora – o exterior que a constitui”.

 

Woodward esclarece que o conceito de différance, de Jacques Derrida (1930-2004) que é utilizado por Hall, consiste em um constante adiamento de significado. Não há fixação. Stuart Hall, reiteramos, entende que a identidade é um conceito não acabado, não definido.

 

Diante disso, percebemos que esses assuntos são parte de nosso cotidiano. Rapidamente, pensemos em quantas notícias já lidas e ouvidas sobre fatos (infelizmente, a maioria, tristes) que envolvem os itens brevemente expostos neste texto. Certamente, isso acontece várias vezes. Refletir sobre identidade/diferença, os processos identitários e de identificação, é importante e necessário.

 

Na arte literária, há vários autores empenhados em abordar o assunto, que, como vimos, está longe de ser insignificante. Jorge Amado (1912-2001), em suas obras, procurou trabalhar com elementos diretamente ligados aos processos identitários como a cultura, as crenças religiosas, em especial, a mistura entre elas, a mestiçagem, entre outros aspectos.

 

Identidade em Jorge Amado

Na obra Tenda dos milagres (1969) há diversas cenas que ilustram as ­características anteriormente ­levantadas. Escolhemos uma delas para verificar como a construção da identidade religiosa do personagem Pedro Archanjo ocorre.

 

No romance, há dois planos temporais divididos entre presente e passado. O presente se dá por volta do ano de 1968 e conta a preocupação da sociedade baiana em homenagear o ilustre desconhecido, até então, Pedro Archanjo, que passa a ser importante após a palavra de Levenson, um homem da ciência dos Estados Unidos e Prêmio Nobel.

 

É interessante notar o papel legitimador de Levenson. Ele se torna um elemento que possui “autoridade” para dizer o que é ou não “bom”. Acerca disso, Pierre Bourdieu (1930-2002) destaca que “pelo fato da dessimetria da situação de pesquisa e de sua posição social, [o pesquisador] está investido de uma autoridade que facilita a imposição da legitimidade”. É só a partir disso, da palavra legitimada de Levenson, que Pedro Archanjo é lembrado.

 

O segundo plano narrativo ressalta a trajetória de Archanjo. As aventuras amorosas, os vários filhos, os enfrentamentos sociais e religiosos passados pelo Ojuobá – os olhos de Xangô. Como pano de fundo, as teorias raciais e a supremacia da Medicina. Por meio dos médicos racistas, espalhava-se a intolerância aos mestiços e tudo que se refere a eles. Isso é o mote da pendenga entre o bedel da faculdade, Pedro Archanjo, e o lente, Nilo Argolo, representando no livro o famoso médico Nina Rodrigues, mas com um boa dose do Conde (de) Gobineau.

 

O conflito, mais especificamente, surge entre os dois, porque Archanjo produz um livro sobre os encontros raciais das famílias baianas da alta sociedade. Nilo Argolo, sendo um dos representantes da classe alta, não aceita sua origem mestiça. Assim se dá início a uma intensa batalha ideológica, verbal e, em algumas ocasiões, física (pensemos na violência praticada contra os candomblés), para, de um lado, esmagar o preconceito racial e religioso, e do outro, tentar aniquilar a voz estridente da multidão menosprezada.

 

Construção identitária

A construção identitária de Pedro Archa­njo envolve popularidade e elementos sobre-humanos e é essa magia entre homem e orixás que irá lhe ajudar.

 

Acerca da popularidade, é importante lembrar que Jorge Amado sempre se afirmou, em várias oportunidades, um contador de histórias do povo, especialmente, dos mais necessitados, e aquilo que produzia, em grande parte, fora vivenciado por ele. O escritor revelou esses detalhes de sua criação a muitos entrevistadores, como Alice Raillard: “Creio que em todos os meus […] livros meus personagens, meus heróis sempre têm algo a ver comigo”.

 

O candomblé, a capoeira e as festas populares da Bahia fazem parte do universo de Pedro Archanjo, escritor, sábio, malandro e personagem central da obra Tenda dos milagres

 

O professor doutor Sérgio Paulo Adolfo destaca que, “Jorge Amado, como bom baiano e brasileiro, é também um apaixonado pelas manifestações e realizações do povo descendente de africanos. Autor muito polêmico, adorado pelas massas baianas, como cidadão de destaque, faz parte do Opô Afonjá como um dos ministros de Xangô, desprezado pela crítica universitária, repudiado pelos intelectuais negros é, no entanto, o mais lido dos nossos autores fora de nossas fronteiras. Mestre Jorge talvez seja quem melhor evidencia a nossa verdadeira face, ao mesmo tempo, negra, branca e índia, num país que teima em ser europeu”.

 

Logo de início, a referência ao empenho de Pedro Archanjo no mundo do conhecimento no sentido de desmitificar e esclarecer noções absurdas sobre quem eram os mestiços e negros naquele momento. Como já posto, Archanjo, mesmo sem integrar um local oficial do saber, consegue, autodidata que era, ter acesso a “instrumentos científicos” como os livros, orientações de amigos lentes, como o professor Silva Virajá.

 

Considerado representante de seu povo e, como forma de defender e de se fazer respeitar sua identidade, Archanjo transitará nos meios “oficiais” e legitimadores imprimindo sua cultura e crença. Em vários momentos, é possível efetuar recortes sobre questões identitárias envolvendo Pedro Archanjo. Talvez uma das mais importantes ocorra no terreiro durante mais uma invasão violenta de Pedrito Gordo e seus brutamontes.

 

Pedro Archanjo figura como uma espécie de enviado para trabalhar na questão da mestiçagem

 

Procópio mantém a celebração aos orixás e isso desafia as ordens de Pedrito Gordo, delegado adjunto, que se auto intitulou representante dos bons costumes morais, da família e da ordem. Gordo, apoiado por Nilo Argolo e outros figurões da cidade, se tornara o maior inimigo do povo de santo. Intuindo que Procópio não se daria por vencido, Pedrito e seus comparsas ficam atocaiados esperando o momento de atacar.

 

Logo após o início da cerimônia, o delegado com seus capangas, um deles Zé Alma Grande, adentra o terreiro proclamando a sentença de morte a Procópio. Diante do perigo representado por esse encontro, acontece algo inesperado, definitivamente uma prova clara da presença dos orixás na vida de seus filhos. Reginaldo Prandi (1946) ressalta essa possibilidade na vida real do povo de santo e, no mundo literário, Jorge Amado a explora muito bem em seu real maravilhoso. Ocorre que Zé Alma Grande recebe seu orixá e se volta contra seus comparsas.

 

Assim, para escapar da fúria de Zé que abatera dois de seus companheiros, Pedrito Gordo correu covardemente. Pediu demissão da polícia e viajou à Europa com o pretexto de estudar. A notícia correu pela cidade e chegou até a tenda de Lídio e Archanjo. Pedro, comentando com seu amigo sobre os acontecimentos, fala sobre o futuro: “Um dia vai se acabar, meu bom, não será no nosso tempo, camarado. Vamos morrer brigando, na briga nos divertindo. Pedrito na frente, na corrida, Ogum atrás, as mãos de cobras, deixe-me rir, compadre, coisa tão engraçada nunca vi. Vamos morrer brigando. Jovens e afoitos, meu bom. Fit-o-fó para a polícia, viva o povo da Bahia!”.

 

Questionado pelo professor Fraga Neto sobre como um homem de ciência poderia crer em tais ritos, Pedro Archanjo reafirma sua identidade mestiça, já que o “homem antigo”, o que crê em seus ancestrais africanos, vive no homem da ciência. Pedro Archanjo, pela trajetória desenvolvida, mexe com as chamadas, por Hall, “velhas identidades” e reafirma sua identidade mestiça, e por que não, brasileira: “Meu materialismo não me limita […] Sei de ciência certa que todo sobrenatural não existe, resulta do sentimento e não da razão, nasce quase sempre do medo. No entanto, quando meu afilhado Tadeu me disse que queria se casar com moça rica e branca, mesmo sem querer pensei no jogo feito pela mãe de santo no dia em que ele se formou. Trago tudo isso no sangue, professor. O homem antigo ainda vive em mim, além de minha vontade. Agora eu lhe pergunto, professor: é fácil ou é difícil conciliar teoria e vida, o que se aprende nos livros e na vida que se vive a cada instante?

 

“— Quando se quer aplicar as teorias a ferro e fogo, elas nos queimam a mão. É isso que você quer me dizer, não é?
— Ouça, meu bom, um dia os orixás dançarão nos palcos dos teatros. Eu não quero subir, ando para a frente, camarado”.
Archanjo esclarece que “anda para a frente”, assim, está sempre aberto a novas experiências e aprendizados. Porém, isso não significa perder de vista o legado, no caso africano. Como um mestiço, de certa maneira, idealizado, Pedro mantém a ideia da mistura, da interpenetração, do sincretismo mesmo, em tudo o que lhe diz respeito. O Ojuobá exemplifica o que Hall fala sobre a identidade não estar pronta totalmente, de ela viver em um contínuo processo de modificação e apreensão.

 

Em Tenda dos milagres, Jorge Amado procurou trabalhar com as questões do preconceito da melhor maneira possível. Em seu momento, cria na miscigenação como saída para o racismo. Desse modo, Archanjo resulta de diferentes encontros culturais, religiosos e raciais. Tendo em vista, por exemplo, o sincretismo amadiano, Pedro, em suas crenças, é a união da influência dos orixás, no caso, Xangô (também era querido por Exu), do homem antigo e do homem da ciência. Esses e outros aspectos marcam a construção identitária de Pedro Archanjo.

 

Orixás são ancestrais divinizados africanos que correspondem a elementos da natureza

 

As questões da diferença, da identidade e da identificação se fazem amplamente presentes e frequentes, na vida e na arte. Em nosso meio familiar, na roda de amigos, em nossa comunidade há diversas maneiras, opiniões, opções de ver, viver, de ser, de se identificar. O fato de nos identificarmos com algo ou não, não nos dá a segurança ou nos legitima a determinar que aquilo que escolhemos esteja certo, seja verdade ou que somos melhores ou piores do que os outros.

 

Daí o processo de identificação, ao qual Hall se refere, ganhar importância, especialmente no Brasil, já que a diferença é o grande ponto em comum das pessoas. Somos formados por inúmeras influências que Jorge Amado, ao seu estilo, exibiu. E por isso mesmo, é difícil entender como existe o racismo e tantos outros crimes dessa categoria. Poderíamos imaginar uma espécie de “democracia racial”, afinal somos provenientes de tantas misturas.

 

No entanto, a xenofobia está bastante presente em nossas relações e em nossas construções identitárias. Como explica o professor Kabengele Munanga (1940), para começar a compreender por que o racismo existe e persiste no Brasil, devemos assumir que somos racista. “A primeira atitude corajosa que devemos tomar é a confissão de que nossa sociedade, a despeito das diferenças com outras sociedades ideologicamente apontadas como as mais racistas (por exemplo, Estados Unidos e África do Sul), é também racista”.

 

Munanga coloca que, para o racismo, ninguém possui soluções prontas e que elas não existem, na verdade. Mas a Educação pode, sim, começar a mudar o pensamento ­preconceituoso formado pelas próprias culturas humanas. Embora existam leis punitivas às atitudes criminosas relacionadas à xenofobia, é um tanto quanto sobre-humano uma legislação capaz de impedir o pensamento preconceituoso: “não existem leis no mundo que sejam capazes de erradicar as atitudes preconceituosas existentes nas cabeças das pessoas, atitudes essas provenientes dos sistemas culturais de todas as sociedades humanas [e] ninguém dispõe de fórmulas educativas prontas a aplicar na busca das soluções eficazes e duradouras contra os males causados pelo racismo na nossa sociedade. Aqui está o grande desafio da educação como estratégia na luta contra o racismo, pois não basta a lógica da razão científica que diz que biologicamente não existem raças superiores e inferiores, como não basta a moral cristã que diz que perante Deus somos todos iguais, para que as cabeças de nossos alunos possam automaticamente deixar de ser preconceituosas. Como educadores, devemos saber que apesar da lógica da razão ser importante nos processos formativos e informativos, ela não modifica por si o imaginário e as representações coletivas negativas que se tem do negro e do índio na nossa sociedade. […] No entanto, cremos que a educação é capaz de oferecer tanto aos jovens como aos adultos a possibilidade de questionar e desconstruir os mitos de superioridade e inferioridade entre grupos humanos que foram introjetados neles pela cultura racista na qual foram socializados”.

 

A alegria e a receptividade brasileiras tão difundidas pelo mundo afora não deveriam confundir e ofuscar ­demandas sérias da organização social. A multiplicidade, em vez da diversidade, como levanta Silva, como formadora da população brasileira, deve ser motivo de inclusão e de integração.

 

 

Acerca disso, Hall atesta que “a lógica política multicultural requer pelo menos duas outras condições de existência: a expansão e a radicalização cada vez mais profundas das práticas democráticas da vida social”, pois “a desvantagem e exclusão raciais impedem o acesso de todos, inclusive das ‘minorias’ de ‘todos’ os tipos […] esse acesso constitui precondição para a legitimidade do chamado à identificação de todos”.

 

Calcados nas palavras de Hall, pensamos que, possivelmente, entendendo que somos preconceituosos e que nossa sociedade é preconceituosa, como já dissera Munanga, há chances de que haja um olhar realmente diferenciado para o assunto. Assim, pode surgir um maior número de ações, com mais eficiência e eficácia, voltados ao tema. Essas medidas poderiam e deveriam angariar maiores espaços nos planos governamentais, escolares, comunitários, domésticos (por exemplo, durante a boa e necessária conversa entre pais e filhos. Diálogo esse, lamentavelmente, um tanto quanto apartado de algumas famílias).

 

O movimento de identificação implica em se lançar em um caminho a ser feito. Como vimos, não é um processo pronto e fixo. Recebemos continuamente influências várias que nos integram e nos deixam quando há outro encontro. Mas, muitas vezes, isso não é algo simples de compreender. Por isso, comprometer-se com esse processo de identificação e trabalhar as questões da identidade e da diferença é tentar assegurar o que Pardo explanou: “que o outro não volte à mesmidade”, “que ele não seja definitivamente um outro eu”. A instauração desses temas nas ações educacionais, como sugere o professor Munanga, certamente abrirá mentes e modificará olhares para o assunto e isso, indiscutivelmente, trará benefícios amplos a todos.

 

*Barbara Poli Uliano Shinkawa é docente do Instituto Federal do Paraná, campus Paranavaí (IFPR). Doutoranda em Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL). E-mail: barbara.poli@ifpr.edu.br

Adaptado do texto “Identificação na obra de Jorge Amado”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 114