Hannah Arendt e a ralé

Hannah Arendt torna-se peça importante e lugar comum no cenário intelectual diante de uma situação na qual ideias desumanas e antidemocráticas ganham força

Por Rodrigo dos Santos Manzano* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Falar da filósofa judia Hannah Arendt (1906-1975), usar seu pensamento como lente de leitura do mundo atual, tornou-se lugar comum entre os intelectuais brasileiros. Diante de um cenário aterrorizador no qual o país, assim como o mundo, tem se visto envolto nos últimos tempos – aqui, sobretudo desde as eleições de 2014 –, as reflexões dessa autora tornam-se cada vez mais atuais e úteis para identificar os problemas que vêm tomando conta da sociedade, seja a brasileira, seja a do resto do mundo.

 

 

Vivemos atualmente no mundo um cenário de crescente intolerância. Vejamos três exemplos marcantes dessa situação. Em primeiro lugar, a crise na Síria envolvendo o chamado “Estado Islâmico”, grupo terrorista extremista que tem levado a consequências desastrosas não só no Oriente Médio, mas também na Europa. Os recentes atentados promovidos por esse grupo, contra a sede do jornal Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, assim como o ocorrido em novembro do mesmo ano, ambos em Paris, e, mais recentemente, o ocorrido em Bruxelas, em março de 2016, acirram (ou tornam-se pretextos para acirrar) o preconceito contra muçulmanos no Velho Continente. Em segundo lugar, a candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, reforçando o preconceito estadunidense contra latinos e contra muçulmanos, vendo nesses grupos os grandes causadores do retrocesso do país diante da crise econômica. E, por fim, em terceiro lugar, a crise política no Brasil, em que posturas de intolerância tornam-se cada vez mais fortes e mais visíveis, sobretudo nas redes sociais, seja por questões políticas, seja por questões de nacionalidade (dois fatores que, muitas vezes, aparecem associados). É importante observar que aquilo nomeado por Hannah Arendt como “ralé” começa a ganhar força no cenário mundial, e parece ditar os rumos da política e das sociedades ao redor do mundo – ou ser usado para conferir uma pretensa autenticidade a essa situação.

 

Democracia e conflitos

 

Hannah Arendt e a ralé

Diferentemente da concepção de ralé para o senso comum – para o qual designa as pessoas excluídas da sociedade, marginalizadas, os mendigos – Arendt entende por esse nome, em geral, um grupo de pessoas que estão insatisfeitas com a situação de seu país, de sua sociedade – inclusive, quase sempre com razão – mas que não têm uma percepção mais profunda sobre as possíveis soluções para o problema. Não têm consciência de que, para se obter uma solução definitiva, é preciso uma mudança nas regras do jogo, e não somente nos jogadores. Arendt via esses grupos como fundamentais para dar suporte a governos como os que Hitler e Stalin implantaram, baseados na criação de um inimigo comum a combater (no caso de Hitler, os judeus, bem como comunistas e os demais opositores ao sistema; e, no caso de Stalin, basicamente os trotskistas). O povo passa a ver nesses representantes a solução personalista dos problemas mais profundos da sociedade. Torna-se presente nessa situação um forte messianismo, no qual o governante-ditador é visto como alguém acima do bem e do mal, não só a solução para os problemas que os governos anteriores, corruptos e incompetentes, não foram capazes de eliminar, mas que, além disso, pode colocar a nação no rumo de um futuro grandioso. Devido à falta de politização desse grupo – seja por meio de envolvimento partidário ou sindical, seja pela adesão lúcida a uma ideologia –, a solução por ele vislumbrada passa por erradicar os grupos atrasados e causadores de atraso. A democracia, consciente ou inconscientemente, é apenas uma grande farsa na qual corruptos se beneficiam deste regime, lenientes. Ideologias políticas nada mais são que discursos bonitos para manipular o povo. Para a ralé, no fundo, não há compromisso por parte das instituições democráticas com o bem comum, e quanto menos delas houver, menos “sanguessugas”­ ­haverá, vivendo às custas de impostos e sem oferecer nenhum benefício ao bem social.

 

O conceito de minoria

 

Os membros da chamada ralé dirigem seu descontentamento de forma especial aos membros do Estado, pois veem no mesmo uma estrutura ineficaz, mas também a determinados grupos da sociedade, vistos como parasitas. Na Alemanha nazista, os judeus foram o principal alvo, por, em certo momento histórico, terem enriquecido pela exploração das demais classes, muitas vezes com a cumplicidade do Estado. Volta aqui o forte clamor anticorrupção da ralé, e seu descontentamento torna-se ódio a todos os “parasitas”, seja os do governo, seja os beneficiados por ele. O regime democrático, como foi dito acima, cai em descrédito, pois é um regime facilmente corrompível. Por tal motivo, a solução torna-se o surgimento de um grande líder, alguém acima de qualquer suspeita, com forte discurso moral, resgatando valores perdidos no decorrer da história (Deus, pátria, família etc.), bases de uma sociedade justa e fraterna (mesmo justiça e fraternidade aplicando-se só a alguns). Não precisamos pesquisar com profundidade para saber o fim trágico desse tipo de situação na história da humanidade.

 

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*Rodrigo dos Santos Manzano é especialista em Filosofia Contemporânea e História pela Universidade Metodista e graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção. Atua na rede pública de ensino do Estado de São Paulo.

Adaptado do texto “O fortalecimento da ralé”