Hábito socialmente adquirido

Por Clóvis de Barros Filho* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Ninguém nasce corrupto, pois a corrupção não faz parte da natureza humana. Ela é socialmente instigada, ensinada, adquirida. O homem não nasce moralmente egoísta e ruim, como defende Hobbes, nem um ser bom, como ensina Rousseau. Bondade e maldade são características culturais, adquiridas em nossas trajetórias sociais.

 

Um exemplo: dois indivíduos que nunca tinham se relacionado se encontram para um tipo particular de troca. O poder decisório de um é vendido ao outro. Com isso, a decisão tomada permite ao corruptor alcançar o que pretende.

 

Muitas vezes, no entanto, esta relação se inscreve em uma rotina, em uma prática sequenciada. Neste caso, os procedimentos de corrupção se repetem.

 

Proponho um segundo exemplo: um candidato a deputado tem a sua campanha patrocinada por uma grande empreiteira. Em função da milionária doação, o deputado foi eleito. A empresa fez este gesto de falsa generosidade porque espera que o político possa lhe garantir vantagens em legislações e em licitações para venda de seus serviços para empresas públicas.

 

Neste caso, o deputado age como intermediário entre os interesses da empreiteira que custeou sua campanha e o servidor público que, no Poder Executivo, tem a prerrogativa de decidir. Ao aceitar sua ajuda para se eleger, ele se esforça para beneficiar a empresa como recompensa. Ora, o agente corruptor continua sendo a empresa, pois se beneficiará da decisão. O agente corrupto continua sendo o servidor do Poder Executivo. Aquele que vende sua decisão em nome do interesse da empresa corruptora. O deputado é um mero mediador desta relação de corrupção.

 

O deputado poderia agir diferente? Renunciar à ajuda financeira e passar a defender os interesses da ­população que o elegeu? Claro que poderia, mas não seria eleito. Se aquele deputado não pegar o dinheiro, outro candidato irá se vender para ser eleito.

 

Presume-se assim que, tanto o político como o servidor público, que deveriam continuadamente deliberar em função de critérios relacionados à satisfação dos interesses da população, vendam sistematicamente suas decisões com vistas a atender outros interesses. Afinal, se o funcionário público não colaborar ele será perseguido pelos políticos corruptos e pelas empresas corruptoras – beco sem saída, o ­trabalhador sempre é o lado mais fraco. Vitória do conceito de “banalização do mal” da filósofa Hannah Arendt.

 

Porém, esse habitus corrupto dentro do Estado também estrutura relações entre agentes pertencentes a outros campos sociais distintos. Neste caso, a corrupção pode levar um agente vinculado a um campo a interferir no funcionamento de outro – alterando os percursos legítimos e as estratégias oficiais de acesso aos troféus. E redefinindo posições internas àquela área de atuação em função de conduta que lhe é não só exterior, mas de significação complexa.

 

Assim, imaginemos a título de exemplo a relação entre um jornalista e um profissional da Política, pertencentes a universos sociais específicos. O jornalista joga o jogo do jornalismo, tabuleiro este que agrupa dominantes e dominados, regras, troféus, estratégias autorizadas, hábitos de comunicação, uso de jargões, expressões e assim por diante. O político, por sua vez, pertence ao seu reduto, espaço relativamente autônomo de posições, onde os agentes também disputam troféus específicos em função de certas regras, de certa distribuição de capital, uso de jargões próprios etc.

 

Ninguém duvidará que os troféus do campo jornalístico não se confundem com os do campo político. Em outras palavras, o que os grandes jornalistas disputam como reconhecimento, glória, prêmios e troféus nada tem a ver com o que está em disputa no campo dos profissionais da Política. Assim também a presença no campo jornalístico implica o domínio de certas competências, de certa maneira de entender o mundo, de pensar a realidade. Também fica fácil de perceber que o capital propriamente jornalístico de prestígio e de legitimidade está distante do capital propriamente político de prestígio e de legitimidade. Portanto, os campos jornalístico e político são diferentes e relativamente autônomos entre si.

 

Ora, a relação entre os agentes destes dois campos pode ser lucrativa para eles. O jornalista precisa de fontes privilegiadas. O profissional da Política carece de um filtro favorável na hora de tornar públicas suas atividades. Assim, as decisões editoriais podem aliviar a barra ou demonizar a performance do político. E este poderá decidir para quem conta os fatos mais quentes de que tem ciência, pois o jornalista decide de acordo com um critério que favorece sua fonte. E o político se dedica a narrativas por vezes distantes de seus afazeres para comprar a docilidade do temido agente do quarto poder. Nesta cumplicidade, leitores e cidadãos foram, de certa forma, preteridos e manipulados.

 

Ora, neste matrimônio de conveniência recíproca é muito difícil estabelecer algum parâmetro de mensuração das vantagens e, consequentemente, dos favores devidos.

 

Espero que tenha ficado claro que as relações de corrupção são habituais em certos universos sociais elitizados, pois políticos, jornalistas e funcionários públicos de alto escalão pertencem a um grupo social e econômico privilegiado. Assim como os pobres habitualmente se ajudam para enfrentar seus problemas, a elite habitualmente se ajuda causando problemas para os cidadãos do primeiro grupo. Quem diz que a corrupção e o atraso do nosso país têm como causa o voto dos pobres é cínico ou ignorante das relações sociais de manutenção do poder.

 

*Clóvis de Barros Filho é professor de Ética da ECA/USP e conferencista do Espaço Ética. www.espacoetica.com.br

Adaptado do texto “A corrupção:habitus socialmente adquirido”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 103