Habermas e a importância de ouvir as vozes da fé

Por Daniel Medeiros* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Logo após o ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro, realizado por extremistas religiosos, chamados pela grande mídia de “fundamentalistas islâmicos”, diante do choque e da perplexidade mundial, o que muitas e muitas pessoas fizeram? Encheram igrejas, sinagogas e mesquitas para orar pelos mortos.

 

Esse comentário inicia o discurso feito por Jurgen Habermas, apenas um mês após o atentado, ao receber o Prêmio da Paz, concedido pela Associação dos Livreiros da Alemanha. O que buscava evidenciar o filósofo com essa lembrança de uma população moderna, capitalista, urbana, reagindo a uma ação de fundo religioso por meio de preces aos céus? Que, apesar do processo de secularização da sociedade contemporânea ter atingido mais áreas do que qualquer outro período da nossa existência, a religião – ou melhor dizendo, o sentimento religioso – não abandonou nossa forma de expressar nossa visão sobre as coisas. Qualquer coisa, desde a política, a economia, a vida social, as pretensões pessoais e as grandes decisões coletivas, como a questão da engenharia genética, por exemplo.

 

Habermas, desta forma, destaca uma questão que encontra nas conversas familiares, nas salas de aula, nos debates políticos e nas decisões jurídicas, um ponto de inflexão muito importante: o quanto a linguagem religiosa, suas imagens e sua força mítica continuam a influenciar nossa compreensão e nossa decisão sobre as coisas que nos rodeiam, marcadas cada vez mais pela técnica e pelo capital? E, partindo da influência positiva dessas “vozes religiosas” na nossa autocompreensão das coisas, como devemos tratar a relação entre Fé e Saber no nosso cotidiano?

 

Diálogo

Fé e Saber é justamente o título desse discurso do filósofo alemão, mas sua reflexão sobre o papel da religiosidade na construção do pensamento contemporâneo já aparecem em sua obra mais conhecida: A Teoria da Ação Comunicativa, de 1981 – e continuou a ser objeto de suas reflexões em suas obras posteriores, como Entre naturalismo e religião, de 2009, e Pensamento pós-metafísico II, de 2012. Nesses estudos todos, o que vemos é um pensador buscando entabular um diálogo sobre as questões do mundo atual no qual as vozes religiosas não sejam esquecidas ou recusadas. Afinal, como afirma Habermas, “linguagens seculares que apenas eliminam aquilo em que se acreditava, causam perturbação” ( Fé e Saber,p. 18).

 

Para facilitar nossa reflexão sobre este tema e sobre o autor, vamos entabular um entrevista imaginária que funcionará como uma espécie de tour pela argumentação desenvolvida por Habermas nesse texto, Fé e Saber:

 

Senhor Habermas, de que maneira o episódio das torres gêmeas alterou a discussão em torno da engenharia genética?

Resposta: o episódio demonstra que a dicotomia “secular X religioso” não fica tão claro, tão efetivo em face da ação dos terroristas já que, em vez de o atentado provocar uma reação racional dos atingidos, o que aconteceu é que a tragédia fez vibrar uma corda religiosa no mais íntimo da sociedade secular, as sinagogas, as igrejas e as mesquitas se viram subitamente lotadas em toda parte.

A religião como desculpa para o mal

 

Qual a sua posição em relação ao fundamentalismo?

Habermas • Veja bem, o fundamentalismo é fruto de um processo ocorrido na modernidade, que opôs a cultura religiosa desse povo às transformações rápidas e deformadas em sua sociedade. Na medida em que esse avanço material não se concretiza e, ao contrário, degrada as tradições culturais e religiosas, impede a matização religiosa que se esperaria com a separação entre a religião e o Estado, típicas de nações economicamente mais avançadas.

 

E como superar os perigos desse fundamentalismo?

Habermas • Ah, é necessário um retorno do político sob outra forma, não a forma hobbesiana original de um Estado de segurança globalizado (ou seja, com dimensões de polícia, serviço secreto e forças militares); mas a de um poder mundial de configuração civilizadora – isto é, precisamos refletir sobre o choque desastrosamente silencioso de dois mundos que precisariam desenvolver uma linguagem comum, para além da violência muda dos terroristas e dos mísseis.

 

Émile Durkheim: religião e socialismo

 

Hoje falamos muito em um mundo secularizado. No Brasil, questiona-se os feriados religiosos, alegando-se que vivemos em um país laico. O que o senhor teria a falar sobre esse processo de secularização?

Habermas • Veja, a palavra secularização teve, a princípio, o significado jurídico de uma transferência compulsória dos bens da Igreja para o poder público secular. No entanto, embora a expressão tenha esse significado restrito, acabou assumindo um significado amplo, ao se referir ao surgimento da modernidade cultural e social como um todo. Essa “transmutação” gerou uma dupla versão sobre a ideia de secularização, uma em favor da modernidade, que teria realizado uma bem-sucedida domesticação da autoridade eclesiástica pelo poder mundano, outra como crítica dessa modernidade, relevando o caráter de apropriação ilícita dos bens e prerrogativas da igreja. Ora, as duas explicações cometem o mesmo erro. Elas consideram a secularização um jogo de soma zero entre, de um lado, as forças produtivas da ciência e da técnica, liberadas pelo capitalismo e, de outro, os poderes conservadores da religião e da Igreja. Um só pode ganhar à custa do outro. E essa não é, nem de longe, a resposta para o problema.

 

 

Confira a entrevista na íntegra na revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 126. Garanta a sua aqui!

Adaptado do texto “Habermas e a importância de ouvir as vozes da fé”

*Daniel Medeiros é especialista em Filosofia Contemporânea pela PUC-PR; Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR; professor do Curso Positivo.