Há guerras étnicas?

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Durante uns duzentos anos, do século XVIII ao XX, pensou-se que o elo mais forte entre os cidadãos de uma sociedade seria o de uma cultura compartilhada. Foi uma novidade. Na Europa Oriental, nobres de língua alemã governavam vassalos e servos que falavam polonês, íidiche, outras línguas. Mas, no século XVIII, nasceu o Romantismo. Deu romancistas, poetas, músicos, filósofos. Também gerou uma agenda política. Mudou até a forma de amar. Não conheço, na Filosofia ou na Literatura, movimento de alcance comparável. Para ele, há uma verdade intrínseca, que Rousseau diz provir do coração. A verdade do coração, captada “no silêncio das paixões”, não é passional. O coração é constante. Sabe a verdade. Consulte-o, que terá a resposta a suas dúvidas. Essa visão, simples que é, tem forte apelo. Na vida pessoal, manda-nos seguir o coração nas escolhas, no amor ou na profissão.

 

E nos países? O Romantismo coincide com o avanço da participação popular na Política. A cidadania funciona, nesse início da democracia moderna, quando todos expressam uma comum nacionalidade. Isso inclui as mesmas canções folclóricas (Bela Bartók), lendas, religião, roupas, costumes, valores. O Estado nacional, estudado a frio nas aulas de Ciência Política, nasce assim com uma profusão de afetos.

 

Mas o problema é que as fronteiras existentes não batem com as fronteiras étnicas, culturais, afetivas. Sempre que possível, os “parentes” se unirão – é o caso da unificação da Itália e da Alemanha. Mas perduram, na Europa, três impérios multiétnicos, austro-húngaro, russo e otomano. Não é casual que sejam abatidos ao fim da Primeira Guerra Mundial. O princípio étnico rege a construção de novos Estados. Veja-se a Iugoslávia, reino dos eslavos do sul, criada em 1918. Reúne católicos, que pertenciam ao Império Austro-Húngaro e usavam o alfabeto latino, ortodoxos que escreviam com o alfabeto cirílico, e ainda muçulmanos. Tinham em comum o fato de serem eslavos. Mas a dominação sérvia sobre o país, ainda que atenuada no longo governo do marechal Tito, finalmente levou os outros grupos à revolta. O discurso da união de todos os eslavos do sul (1918) foi substituído pelo da independência de cada nação eslava do sul (1991). Como discurso, ambos são românticos, mas geram resultados práticos opostos. A tal ponto que o tradicional servo-croata, uma língua única mas escrita em dois alfabetos, se dissolveu em duas línguas à parte, cujas diferenças se acentuam.

 

Ainda sangram as feridas iugoslavas, assim como vemos os conflitos na Ucrânia. Diz-se que a distinção entre áreas que falam russo ou ucraniano determina a opção política de seus eleitores. Mas eu não me contento com essa explicação. Na verdade, nós, seres humanos, temos muito traços que nos distinguem. Em nosso tempo, chamam atenção a nacionalidade, a língua, a cultura, a religião, às vezes a opção política, mas também a cor da pele, dos cabelos, a altura e, por que não dizer, a beleza. Se tivermos uma escassez pronunciada de bens ou, pior, uma escassez de futuro, criaremos critérios de acesso privilegiado ou mesmo VIP ao pouco que existe. No Brasil, um critério relevante de acesso foi e ainda é ser branco. Em boates, ser bonito ajuda. Na Iugoslávia em crise, cada região adotou sua cultura como critério de acesso. E critérios de acesso sempre incluem critérios de exclusão.

 

Essa hipótese explica por que, superado o desabastecimento de futuro, a paz se faz. Alemães e franceses conviviam razoavelmente bem. dez anos depois de terminada a guerra. Por isso, não devemos dar crédito a quem fala em conflitos milenares. O conflito mais perigoso de nosso tempo é o que opõe Israel aos árabes. Mas, um século atrás, conviviam razoavelmente bem. Os muçulmanos foram melhores do que os cristãos no trato com os judeus. Nas horas terríveis, as pessoas vestem uniformes ridículos, cantam hinos ridículos, cometem ações criminosas – e ridículas. Depois, conseguem se livrar disso. O problema, porém, é que as vidas roubadas não ressuscitam, o ódio criado demora a recuar; em suma, perde-se em humanidade. Devemos dar menos crédito aos ódios.
Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 98

Adaptado do texto “Há guerras étnicas?”

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br