Gilberto Freyre e a diáspora africana

Por Albio Fabian Melchioretto | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Pensar a questão negra a partir da Literatura brasileira é pensar em Gilberto Freyre, especialmente a obra Casa grande e senzala, e não há como permanecer indiferente diante de sua profundidade. Para entender os entremeios que as questões relativas a consciência negra enfrentam nos dias de hoje é preciso voltar à História da sociedade escravocrata e patriarcal vigente após o término do domínio português e entrar na intimidade do povo da diáspora africana. Para cumprir tal necessidade, o melhor caminho a percorrer é a reflexão proposta em Casa grande e senzala, porque ela retrata, por meio de uma sociologia da vida privada, o dia a dia e a estrutura social que compõem um regime que marcou nossa História. Pretendo, nas próximas linhas, fazer menções despretensiosas a Freyre sem entrar nas questões de formação ­etnográfica do povo brasileiro.

 

A obra de Freyre vai muito além das questões políticas. Ao trabalhar aspectos da miscigenação, o autor chama a atenção para os costumes moralmente velados em que eram transgredidos e violados tanto o corpo como a alma da população negra. Viveu-se uma experiência de poder e submissão sobre o corpo. A esta sujeitação é dado o nome de miscigenação, quase uma institucionalização da poligamia. Mas os corpos ainda hoje estão submissos. Palavras que não são inocentes e expressões pejorativas ainda são utilizadas para justificar a mediocridade da submissão. Não é raro em jogos de futebol acompanharmos manifestações descabidas de sujeição por cor de pele. Ainda vivemos sob costumes moralmente velados. O que Freyre escreveu há muito tempo é atual.

 

O autor lembra que a ­invenção do Brasil está montada entre as paredes invisíveis do sistema escravocrata. Os que conduziam o sistema justificavam a construção de um “novo mundo”. Mas nestas edificações a prática da ­conscientização não existe, é um hiato que se estende até os dias de hoje. A ideia preponderante, segundo Freyre, é a ideia do “dono”, figura que, apesar de impedir que a vida livre frutifique, legitimou-se pelos ideais capitalistas dos exploradores que deram a tônica do Brasil colonial.

 

A identidade africana em Achille Mbembeu

 

O que Freyre faz ao longo de sua obra é dar visibilidade àquele que não é visto. Casa grande e senzala nos impulsiona para uma reflexão que vai além da própria obra. Não bastou acabar com a escravidão, é preciso ir além, é preciso acabar com sua herança. A miséria, a desigualdade social, o analfabetismo, o sistema de saúde precário, a violência e o preconceito são problemas maiores entre os descendentes de escravos. O Brasil avançou, sim, é verdade, mas o problema racial ainda não foi superado. Ainda não foi superado porque as discussão para incluir o negro ainda persistem. E enquanto houver discussão significa que ela se faz necessária, porque a superação não ocorreu ainda. O que temos na prática é um racismo velado, cordial. Se fizermos uma pesquisa rápida, a grande maioria afirmará que existe racismo no Brasil, e a mesma grande maioria também afirmará que não é racista. Então onde está o racismo?

 

Os números da violência no Brasil mostram que os negros são as maiores vítimas no confronto com a polícia. Não pretendo fazer uma sociologia dos números, mas questionar: tal fato é um problema policial ou um problema social? É tão social quanto favorecer a entrada dos negros no ensino superior. O sistema de cotas para negros é uma obrigação social. E esse não é o único sistema cotista que temos. Dentre essas políticas, podemos destacar que desde a década de 1990 há cotas para que as mulheres representem partidos políticos, mas esta implementação não parece ser muito discutida; então pergunto, por que há cotas para negros no ensino superior? Sabemos que esta não é a solução para os problemas, mas é uma medida a curto prazo que não exclui a busca pela solução da raiz dos problemas junto de outras políticas de ações afirmativas. Então, como falar de cidadania nesta situação, com uma História que foi escrita pelos vencedores? Os problemas já foram apontados, agora é preciso ir além, é preciso olhar para a necessidade da conscientização. E, a partir da conscientização, como transformá-la em ação? Uma ação clara e efetiva que permita um novo passo. Uma dessas ações é enxergar em Zumbi mais que apenas um dia, um feriado; mas pensar o simbolismo que envolve este grande nome da História nacional. Lembrar que a vitória de Zumbi é a vitória contra a hegemonia dominante. Outro passo necessário é o fortalecimento de políticas públicas que façam uma efetiva ressignificação da condição do negro em nossa sociedade.

 

Foto retirada da revista

Quem são nossos heróis nacionais? Não quero entrar na discussão da construção de heróis, mas sim enumerar os nomes lembrados como tal. No Brasil, quais são os nomes que representam a história não branca? Movimentos a partir dos anos de 1970 fazem um caminhar em busca do reconhecimento de Zumbi dos Palmares enquanto herói, enquanto nome a ser celebrado. No dia 20 de novembro, junto com a memória e luta de Zumbi, também se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra. Mas este reconhecimento teve como marco fundante a Marcha Zumbi dos Palmares, em 1995, ocasião em que aproximadamente 30.000 pessoas marcharam em Brasília contra o racismo, pela igualdade e a pela vida.

 

O Quilombo dos Palmares tem uma história de cem anos de resistência contra a dominação branca. No espaço quilombola prevaleceu o ideário de liberdade e completa organização depois de seus membros terem sido caçados como selvagens pelos capitães do mato. A construção de um espaço de resistência significou mais que um lugar para ficar. Significou a reconstrução da dignidade roubada. O quilombo foi fundado no ano de 1597 por cerca de quarenta escravos fugidos de terras pernambucanas, e sua estrutura mostrava uma organização política. Alguns brancos fugitivos também se abrigaram nos diversos mocambos que formavam o grande quilombo. O espaço teve fim com uma invasão bandeirante patrocinada pelo governo colonial, e a invasão e destruição foram marcada por requintes de crueldade, tendo sido a população quilombola barbaramente violentada e arrasada nas mãos dos assassinos legitimados pelo Estado. Celebrar os feitos de Zumbi, e consequentemente de Palmares, não se reduz a uma rememoração, mas é também um resgate pela luta, organização e emancipação de um povo que ao longo de toda a História ficou esquecido e ainda hoje é vítima da desigualdade social.

 

Diante de tudo isso ainda há uma reflexão que carece de um olhar mais atento. Em 2003 foi aprovada e implantada a Lei no 10.639, que altera a Lei de Diretrizes e Bases, no 9.394, de 1996, incluindo no currículo oficial da rede de ensino a temática “História e Cultura Afro-brasileira” e instituindo no calendário escolar o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”. A questão não é a inclusão, mas a conquista de um espaço para a reflexão das questões das diásporas africanas.

 

De acordo com Paula Sibilia, a escola, como tecnologia de uma época, cria um espaço onde cada corpo constitui-se como uma peça de uma máquina. Esta produção limita a reflexão para espaços pré-produzidos. As paredes cercam física e intelectualmente. A proposta da lei que inclui no currículo oficial a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” é, entre outras possibilidades, a tentativa de quebrar paredes e fazer perceber que a vivência acontece em redes. Mas essa quebra de barreiras somente pode ocorrer quando o educador se despe dos pré-conceitos que carrega, fruto de sua carga histórico-social. Perguntar-se o que significa dizer “escravo”, “negro”, “África”. Fazer a obrigatoriedade a partir do olhar do não negro é dar continuidade a algo que já está posto. Dar sentido à História de um povo/cultura afro-brasileiro é tentar fazer uma epistemologia do outro entendendo uma lógica que não é a lógica branca ocidental. E para isso é preciso, de início, reaprender a ler a História da África, para então compreender como indivíduos trazidos de maneira brutal foram constituintes e formadores da sociedade brasileira. É necessário ir além da obrigatoriedade, fazendo um junto com o outro.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 100

Adaptado do texto “Consciência negra: observar o não visto”

*Albio Fabian Melchioretto é mestrando em Educação e especialista em Filosofia pela Universidade Regional de Blumenau (FURB). Professor da disciplina de Ética no Senai/SC, pesquisa sobre o uso das redes sociais virtuais em ambiente escolar. albio.melchioretto@terra.com.br