Foucault hermeneuta de Nietzsche

Foucault se apropria de forma crucial de diversos elementos do pensamento de Nietzsche; sobretudo no que tange ao estudo dos sintomas e ao diagnóstico do presente, permitindo-se lançar ao futuro respaldado em sua própria Filosofia

Por Vânia Dutra de Azeredo* | Adaptação web Caroline Svitras

Comecemos com a afirmação de Michel ­Foucault (1926-1984), em entrevista a Jean Brochier (1937-2004) publicada em 1975, acerca do próprio fazer filosófico: “Se (…) fosse pretensioso, daria como título ao que faço: genealogia da moral”. Interessante denominação do próprio discurso filosófico enquanto expõe um tributo e uma sequência de Friedrich Nietzsche (1844-1900). A genealogia nietzschiana, sem dúvida, exerceu uma influência decisiva na condução do pensamento de ­Foucault. Todavia, na mesma entrevista, ele se diz silencioso acerca do filósofo alemão, já que “fica mudo quando se trata de Nietzsche”, em que pese declarar ter feito vários cursos sobre ele.

 

Isso nos remete à indagação acerca da leitura que Foucault faz do filósofo alemão e da influência de Nietzsche sobre o pensador francês; mais de apropriação do que de leitura minuciosa e elucidativa de conceitos presentes na obra de Nietzsche. Ainda assim, ­Foucault, em companhia de ­Gilles Deleuze (1925-1995), preocupou-se com a edição das Obras completas de Nietzsche, dado que a edição francesa dessa obra foi dirigida por Foucault, Maurice de G­andillac (1906-2006) e Deleuze. O que nos mostra a preocupação do pensador francês com a necessidade de critérios para a publicação dos textos e para a leitura do autor de Assim falava ­Zaratustra.

 

Na introdução geral às Obras filosóficas completas de ­Nietzsche, lemos: “Desejamos que o novo dia, trazido pelos inéditos, seja o do retorno a Nietzsche. Desejamos que as notas que ele pôde deixar, com seus múltiplos planos, resgatem aos olhos dos leitores todas as suas possibilidades de combinação, de permutação, que contenham de agora para sempre, em matéria nietzschiana, o estado inacabado do ‘livro a advir’”. Uma citação entre outras, datada de 1967, remete à preocupação de ­Foucault com os estudos de Nietzsche, em relação ao rigor e fidelidade às intenções teóricas do filósofo, na proposta de edição de sua obra que venha, em definitivo, suplantar as distorções feitas por Elisabeth Forster (1846-1935), quando da publicação aleatória dos póstumos em A vontade de potência, livro que não foi escrito por ­Nietzsche. Por outro lado, percebemos que tal rigor remete, também, a especificidade do texto nietzschiano observado por Foucault, às múltiplas notas que ensejam, resgatam as possibilidades de leitura, de permuta e o livro inacabado a advir presente nos textos de ­Nietzsche. Com isso, já em 1967, Foucault apontava para a condição singular desses textos, para um modo diverso de leitura e compreensão filosófica introduzida por Nietzsche, mas ele já havia mencionado essa distinção em 1966, em entrevista a C. Jannoud: “Não é menos verdade que o surgimento de Nietzsche constitui um corte na história do pensamento ocidental. O modo do discurso filosófico mudou com ele”. Reconhecia haver “um antes” e “um depois” de ­Nietzsche assinalado pela ruptura com um Eu anônimo, o que pode nos remeter à afirmação do filósofo alemão que atravessa toda sua obra: “De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que o sangue é o espírito”. No final da mesma entrevista, ­Foucault escreve: “Nietzsche multiplicou os gestos filosóficos. Ele se interessou por tudo, pela literatura, pela história, pela política etc. Ele vai buscar a filosofia em tudo. Nesse aspecto, mesmo se, em certos domínios, ele permanece um homem do século XIX, antecipou genialmente a nossa época”.

 

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De certa forma, a filosofia de ­Foucault busca, no filosofar de ­Nietzsche, imbuir-se do seu discurso aplicando-o às leituras que o pensador francês faz da Literatura, da História e da Política, acrescente-se a loucura e a sexualidade. Enfim, não busca Foucault também a Filosofia em tudo? Não estaria o silêncio ou a mudez de 1975, alusivo a ­Nietzsche, transposto para um fazer nietzschiano? Afinal, guardada a pretensão, Foucault diz fazer uma genealogia da moral. Não é pretensão afirmar que, Foucault é o mais ­nietzschiano dos leitores de Nietzsche; afirmação que se pretende justificar no final deste texto por meio da retomada das afirmações nietzschianas no que concerne ao tratamento dele e dos filósofos do futuro.

 

Neste momento, vamos apresentar a leitura que Foucault fez de ­Nietzsche apresentada, em julho de 1967, no Colóquio de Royaumont como aquela que inaugura uma nova Hermenêutica. Trata-se de expor a análise do filósofo francês realizada em ­Nietzsche, Freud e Marx como aqueles que procedem à reviravolta em termos de interpretação, iniciando um momento novo e diferenciado na condução dos discursos. No referido texto, Foucault apresenta Nietzsche como inaugurando, juntamente com Freud e Marx, uma nova Hermenêutica.

 

Em julho de 1964, o filósofo francês Gilles Deleuze, organizou, na abadia de Royaumont, um congresso sobre o pensamento de Nietzsche

Consideremos que as análises da Linguagem remetem, via de regra, ao signo enquanto unidade básica de um sistema linguístico e, nesses termos, objeto de investigação da Semiologia. Não obstante, o signo pode não comportar o acréscimo de predicativos desse tipo – unidade básica enquanto referente da interpretação –, o que remete à própria Linguagem, tomada agora como fluxo instituinte, a outra dimensão. Nesse sentido, põem-se em xeque a relação signo/significado e os correlatos ícone, indicador, índice ou símbolo. Querendo assinalar certa fragilidade existente na pressuposição básica de que a análise do signo remeteria ao significado e, com isso, a uma explicitação de sentidos possíveis. Isso requereria, de per si, situar a interpretação em um domínio fixo, pelo menos em termos daquilo que introduz a significação, no caso, o signo. Ora, se, de um lado, essa atitude permitiria o resgate do conteúdo semântico da Tradição e, desse modo, de toda carga de significação construída no decurso da história da civilização ocidental, de outro poderia induzir a equívocos grotescos, uma vez que o signo, em vez de preceder ou assentar a significação, poderia ser o seu resultado. Mas adentrar nessa questão requer, como procedimento inicial, que se tematize as dimensões que situam a interpretação e, assim, a relação intérprete/interpretação a partir das próprias técnicas interpretativas.

 

Nietzsche aparece explicitamente no trabalho de Foucault, como um vetor que orienta a tarefa filosófica e histórica do pensador francês

Parece ter sido essa a intenção de Foucault ao apresentar, nos Cahiers de Royaumont, Nietzsche, Freud e Marx como aqueles que remetem a interpretação a uma nova possibilidade e, com isso, instituem novamente a ­Hermenêutica. Foucault principia sua análise acerca da interpretação apresentando duas suspeitas que a ­Linguagem suscita em nossa cultura: “a de que a ­Linguagem não diz exatamente o que diz” e a de que “a Linguagem ultrapassa, de alguma maneira, sua forma verbal”. Haveria um discurso essencial que subjazeria às palavras e que, todavia, enquanto latente, nem sempre é apreendido, inobstante manifestar-se. Daí ser necessária uma virada em termos de atitude interpretativa. Embora admitindo que cada forma cultural tenha um dado sistema de interpretação, em termos de técnicas e métodos, eles, até o século XIX, apresentavam noções definidas. Em especial, Foucault toma como exemplo o século XVI, cuja demarcação em termos de unidade mínima e lugar geral da interpretação é a noção de semelhança, possibilitando decifrar aquilo que foi dito. Aos séculos XVII e XVIII coube justamente colocar em suspenso essa noção e, com ela, os postulados do conhecimento anterior. Foi, contudo, no século XIX que se introduziu uma cisão radical em termos da substituição de noções que permitiriam a compreensão daquilo que se diz, por meio de um redimensionamento da própria interpretação: “nós nos interpretamos por essas técnicas”. Isso porque com Nietzsche, Karl Marx (1818-1883) e Sigmund Freud (1856-1939) não houve uma substituição de signos, ou o estabelecimento de outros sentidos, mas destituição do signo de qualquer unicidade e fixidez e, com isso, eles “transformaram a natureza do signo e modificaram o modo como o signo em geral podia ser interpretado”. O que transparece nesses autores, seja por meio da crítica de Nietzsche à profundidade ideal – profundidade da consciência –, apresentando o intérprete como escavador que deve atingir a profundidade, mas sem entendê-la como interioridade, ou, de modo análogo, de Marx mostrando ser preciso penetrar as noções burguesas a fim de identificar por trás da profundidade na concepção burguesa a mediocridade, e, ainda, de Freud, por meio do espaço de interpretação constituído tanto na topologia da consciência quanto nas regras para a atenção psicanalítica. É a recusa peremptória de uma interpretação instituinte a partir do signo, pois os signos, antes mesmo de poderem ser oferecidos como elementos para uma interpretação, são eles mesmos a própria interpretação.

 

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A interpretação é tomada, assim, como “tarefa infinita”. Ela não pode acabar, pois não há um fato originário que detenha o sentido. Isso transforma o signo, ao retirar-lhe o predicativo de unicidade e acrescer-lhe o de “abertura irredutível”, o que gera o inacabamento da interpretação que, segundo Foucault, se encontra expresso analogamente em Marx, ­Nietzsche e Freud.

 

Esse inacabamento constitutivo da atitude interpretativa assenta no dado de que, em não havendo algo a ser interpretado, pois que tudo é sempre interpretação, a mesma não pode atingir um estado terminal. “Cada signo é em si mesmo não a coisa que sofre a interpretação, mas a interpretação de outros signos”. Destituindo assim os lugares fixos do ­interpretandum e do interpretans, posto serem, agora, intercambiáveis, dos quais se exclui a passividade e aos quais passa-se a atribuir a violência, o inacabamento e a infinitude. Daí uma impossibilidade congênita de paridade entre a Semiologia e a Hermenêutica, uma vez que a ­Semiologia, ao crer na existência absoluta do signo, retira da interpretação seus pressupostos básicos. Convém mencionar que esta leitura é, sem sombra de dúvida, tributária da foucaultiana no que tange à afirmação de que, em Nietzsche, não há nada a interpretar porque tudo é interpretação.

 

Foucault fez declarações de repúdio à ditadura militar brasileira após presenciar a prisão de diversos estudantes enquanto ministrava um curso na USP, em 1975

 

Em outro texto de 1971, Foucault detém-se a investigar o papel da genealogia nietzschiana com relação à História. Analisando o sentido dos termos origem (ursprung), ­proveniência (herkunft), ascendência (abkunft), nascimento (geburt) e surgimento (­entestehung), procura mostrar onde a genealogia de ­Nietzsche rompe com a pesquisa da História desde a origem e ­passa a situá-la no nível da proveniência, já que “tem o cuidado de escutar a História em vez de crer na Metafísica”. Tal afirmação de ­Foucault nos remete a uma diferença de procedimento evidenciado pela distinção entre o ato de escutar e o de crer. No primeiro caso, trata-se de deixar falar o longo texto difícil de decifrar do passado humano, supõe-se a atitude de abertura ao diverso, ao descontínuo, ao novo e inusitado que se oculta nos documentos do passado. No segundo, uma fixação do dado, um culto ao existente, mais do que interrogação, submissão ao previamente postulado, e, por que não dizer, mera atitude de adesão ao que se afirma através da crença inabalável e inquebrantável diante do posto.

 

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A originalidade da leitura ­foucaultina sobre Nietzsche acerca da genealogia e da História está em precisar os termos origem (ursprung), proveniência (herkunft), ascendência (abkunft), nascimento (geburt) e surgimento (entestehung), por um lado, e, por outro, em terminar sua análise mostrando os três usos que o sentido histórico nietzschiano comporta em termos de oposição, ao que ele denomina três modalidades platônicas da História. São eles: o uso paródico e destruidor da realidade; o dissociativo; e o sacrificial e destruidor. No primeiro caso, Foucault aponta a oposição à História como reminiscência e, nesse sentido, reconhece a crítica que Nietzsche fazia à veneração na História monumental como paródia; nos últimos escritos de Nietzsche, o uso paródico da História consiste em mostrar que “a genealogia é a História como um carnaval orquestrado”.

 

Com o objetivo de explicar o conceito de signo, significado e representação, Foucault analisou a obra Las meninas (1656) do pintor espanhol Diego Velásquez

No segundo caso, encontramos a recusa à história como tradição; o uso dissociativo processa a dissolução das identidades ao remeter ao múltiplo e distinto. Foucault apresenta esse uso dissociativo como oposição ao sentido antiquário da História trabalhado nas Extemporâneas; em que ­Nietzsche caracteriza a história antiquária por uma espécie de piedade que faz que o olhar se volte para trás com fidelidade pela sua própria proveniência. O terceiro uso, o sacrifício, consiste em aniquilar a neutralidade do sujeito de conhecimento por meio da exposição da multiplicidade de afetos que falam. No limite, para Foucault, Nietzsche retoma em certo sentido, na genealogia, as modalidades reconhecidas em 1874. Contudo, esse retomar consistiu num modo de superação das objeções que fazia à História em nome da vida, mediante a transformação delas. “Mas retorna a elas, metamorfoseando-as: a veneração dos monumentos se torna paródia; o respeito às antigas continuidades se transforma em dissociação sistemática; a crítica das injustiças do passado pela verdade que o homem detém hoje se torna destruição do sujeito do conhecimento pela injustiça própria da vontade de saber”.

 

Nos textos Nietzsche, Freud e Marx, a genealogia e a História, propõe-se um comentário de textos, a interpretação filosófica, em suma, atingir a precisão conceitual dos relatos nietzschianos. É o momento do discurso filosófico de Foucault em que ele fala sobre Nietzsche. Contudo, em 1975 diz ter ficado mudo acerca do filósofo. O que se processa de 1967 e 1971, quando Foucault falava sobre Nietzsche, para o emudecimento que se segue a 1975? O que se gesta entre um e outro momento no pensamento de Foucault? Por um lado, o entendimento dele acerca do sentido referente ao pensamento de um ­filósofo, atestado pela afirmação que encontramos na entrevista a G. Barbedette. Referindo-se a Martin Heidegger (1889 -1976) e a Nietzsche, em 1984, Foucault diz: “Talvez eu escreva sobre eles algum dia, mas, nesse momento, eles apenas serão para mim instrumentos de pensamento”. Consideradas duas experiências fundamentais, Foucault entende Heidegger e Nietzsche como autores com os quais pensa e trabalha, embora sobre eles não escreva. Tendo lido mais ­Nietzsche do que Heidegger, a ele dedicou muitos cursos e os ensaios de 1967 e 1971. Todavia, a eles se seguiu o silêncio do comentador para a gestação do filósofo. Por isso, o tratamento de Nietzsche como instrumento de pensamento. A partir de um dado momento, Foucault vale-se de Nietzsche para pensar suas próprias questões filosóficas e, com isso, passa a realizar uma genealogia da moral, conforme afirmação a Brochier, em 1975. Mas Foucault se diz nietzschiano e contamos mostrar como se processa esse nietzschianismo que o atravessa mediante a afirmação de Nietzsche aplicada ao seguinte comentário de Foucault: “Sou simplesmente nietzschiano e tento, dentro do possível e sobre um certo número de pontos, verificar, com a ajuda dos textos de Nietzsche – mas também com as teses anti nietzschianas (que são igualmente nietzschianas!) – o que é possível fazer nesse ou naquele domínio. Não busco nada além disso, mas isso eu busco bem”.

 

A obra A verdade e as formas jurídicas foi baseada nas conferências realizadas por Foucault em 1973, no Rio de Janeiro

 

Nietzsche escreve, em sua autobiografia: “ordeno que me percais e vos encontreis”. A nosso ver, é isso que se processa com Foucault de 1967 e 1971 para 1975; Foucault deixa de falar de Nietzsche para falar como Nietzsche e, em vista disso, começa a realizar a genealogia da moral foucaultiana, perdendo em certo sentido, o filósofo alemão a fim de se encontrar e, se formos observar a afirmação de Nietzsche em Ecce homo, veremos que Foucault torna-se mais nietzschiano, porque, ao abandoná-lo, encontra o filósofo em si. Nasce a genealogia do poder e do saber.

 

*Vânia Dutra de Azeredo é doutora em Filosofia (USP), fez estágio pós-doutoral na École Normale Superièure, Paris. Atualmente é professora e pesquisadora (PUC-Campinas). Coordena a Coleção Nietzsche em Perspectiva. É autora dos livros Nietzsche e a dissolução da moral (Discurso Editorial); Nietzsche e a aurora de uma nova ética (Editora Humanitas); Nietzsche e a condição pós-moderna (Editora Humanitas).

Fotos: Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 89