Filosofias comparadas: entenda o que é isso

Por Rodrigo Petronio* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A pluralidade dos mundos não pode ser submetida ao mundo humano, se os mundos animados podem não ser ontologicamente distintos dos mundos inanimados, qual seria a fronteira entre vivo o e o não-vivo? A revisão desses conceitos de ontologia, pluralismo, cosmologia e animismo nos conduz ao cerne da mesologia: a relacionalidade. Um dos horizontes dessa ontologia relacional seria a criação de um campo de estudos: Filosofias Comparadas.

 

A unidade racional sempre necessitou da ancoragem em uma unidade real para se autoconstituir como racionalidade. Para tanto, sempre esteve em conexão estreita com a investigação acerca do ser. Se essa unidade existe, haveria apenas um ser e, por conseguinte, as diversas filosofias seriam vias de acesso a esse ser, uno e universal. Totalidade é substância. Substância é unidade. Unidade é razão. Como intuí­ram Franz Rosenzweig e Levinas essa epopeia da totalidade e da unidade seria justamente o que caracteriza a Filosofia enquanto saber unificado, de Tales de Mileto a Hegel , da Jônia a Jena.

 

Entretanto esse primado da unidade impediu um confronto equipolente entre as narrativas produzidas pela Filosofia e as outras narrativas que também produziram descrições do mundo, do cosmos e do ser, ou seja, outras ontologias. Nesse sentido, a possibilidade de um trabalho de ontologias comparadas, que tem sido tematizada pelos antropólogos, é bastante recente na história das ideias. Isso ocorre porque, desde a Antiguidade, as demandas da razão sempre postularam a necessidade de uma unidade, transcendental ou imanente, formal ou material, subjacente a todos os fenômenos. Os aspectos diferenciais presentes no percurso da noesis sempre foram vistos como ruídos a serem assimilados e neutralizados no interior dos grandes sistemas da identidade. Um dos aspectos marcantes do pensamento moderno e contemporâneo, é justamente a emancipação das diferenças e a proposta de criação de uma ontologia da diferença radical.

 

Tendo em vista essa natureza de problemas, o horizonte aberto pela área de ontologias comparadas nos conduz naturalmente a uma área correlata: as filosofias comparadas. Esse estudo parte do pressuposto de uma equipolência entre os diversos discursos acerca do ser. Ao fazê-lo, mesmo a Filosofia ocidental, caso venha a ser concebida como uma unidade, deve ser submetida a um confronto com outras narrativas racionais do mundo. Mais do que isso, um olhar pluralista sobre a própria tradição ocidental da Filosofia, haurido a partir de bases antropológicas, conduzir-nos-ia a suspeitar da coesão e da unidade desse mesmo discurso.

 

Conheça a mesologia

 

Em que medida os discursos [­logoi] de Heráclito, Parmênides e Tales podem ser considerados estritamente filosóficos, do ponto de vista racional [logos]? Em que medida a viagem de Pirro de Esmirna ao Indo, as filosofias e o ascetismo indianos, durante a expansão de Alexandre, contribuíram para a definição de seu ceticismo radical? Se abrirmos mão da grande narrativa da unidade do Espírito produzida pelo idealismo do século XIX, em que medida a Filosofia e o Ocidente podem ser considerados como unidades autoevidentes?

 

Em que medida os veda contribuíram de modo decisivo para a identidade entre mundo e representação em Schopenhauer e não foram uma mera ilustração utilizada para estruturar o sistema eventualmente ocidental de Schopenhauer? Em que medida os relatos dos canibais levados para a França por Jean de Léry e comentados por Michel de Montaigne não contribuíram decisivamente para a relatividade dos valores e o ceticismo de Montaigne, mais do que a tradição do ceticismo antigo? Se Nietzsche é um pensador dionisíaco, em que medida o dionisismo é uma matriz de pensamento helênica e, em que medida, a Hélade é fundante do que se chama de Ocidente? As perguntas se multiplicam ad infinitum.

 

Uma perspectiva pluralista radical não se contenta em responder essas perguntas apenas lançando mão de um ou mais critérios de estabilização epistêmica. Tampouco se contenta com dicotomias coloniais, tais como ocidental e não-ocidental. Da mesma forma que uma eventual ocidentalidade não pode ser elevada à condição dessa unidade universal chamada Filosofia, as demais ontologias produzidas pelos povos não-ocidentais tampouco podem ser concebidas sob o signo de uma universalidade não-ocidental ou não-moderna, a não ser nos termos do senso comum.

 

Desse modo, o estudo de filosofias comparadas possuiria três recusas: uma recusa a submeter ontologias não-ocidentais às ontologias ocidentais, uma recusa a submeter as ontologias ocidentais às não-ocidentais e, por fim, propõe uma recusa à submissão de uma ontologia a outra, sejam elas quais forem. Há que se colocar entre parênteses e derrogar indefinidamente a possibilidade de agrupar ontologias distintas sob a égide de unidades universalistas ou dualistas.

 

Nesse sentido, apoiando-se acima de tudo nas questões levantadas pelo ontological turn das últimas duas décadas, a configuração de um campo de estudos em filosofias comparadas pode vir a ser um passo adiante do projeto da desconstrução e de descolonização do pensamento. Desse ponto de vista, não se trata mais de conceber dualidades centro-periferia e ocidental-não-ocidental, presentes nos cultural studies. Trata-se, sim, de pensar na multiplicidade de ontologias, mundos e filosofias, postas em simetria, equipolentes entre si e incapazes de serem reconduzidas e quaisquer unidades ou dualidades.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed.

Adaptado do texto “Filosofias comparadas”

*Rodrigo Petronio, professor da pós-graduação da FAAP. Organizador dos três volumes das Obras completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva (Editora É). Coorganizador do livro Crença e evidência: aproximações e controvérsias entre Religião e teoria da evolução no pensamento contemporâneo (Unisinos).