Reportagens
Entrevista

Pensar e compreender


O filósofo português Desidério Murcho, docente da Universidade Federal de Ouro Preto, fala sobre essencialismo, livre pensar, metafísica e os desafios de ensinar filosofia


por Matheus Moura*

Imagem: Shutterstock

Natural de Portugal, Desidério Orlando Figueiredo Murcho está no Brasil desde 2007, ou melhor, em Ouro Preto (MG). Como ele mesmo diz, há uma relação de paixão pela cidade. “Foi mais uma questão de vir para Ouro Preto do que vir para o Brasil. Gostei muito da cidade e fui ficando, na verdade sem planejar. Vim para Ouro Preto um pouco por acaso, mas gostei muito da cidade e continuo a gostar. Trabalhar numa cidade bonita e pequena, onde não é preciso ter carro, era o meu sonho. Realizei-o, e é melhor do que eu pensava!”, conta. Atualmente leciona na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

Mestre em Filosofia da Linguagem e da Consciência, defendeu a dissertação Essencialismo Naturalizado, em 2000, a qual virou livro em 2002, publicado pela editora Angelus Novus, de Coimbra. Filósofo e escritor com vasta produção, Murcho possui vários livros impressos, tais como Sete Ideias Filosóficas Que Toda a Gente Deveria Conhecer (Bizâncio, 2011); Filosofia em Directo (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011); Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade (Quasi, 2006); O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano, 2003); A Natureza da Filosofia e o seu Ensino (Plátano, 2002); e o já citado Essencialismo Naturalizado. Além dessas publicações, participou ainda como coautor de obras como Dicionário Escolar de Filosofia (Plátano, 2009, 2.ª ed.); A Arte de Pensar: 11.º ano (Didáctica, 2008, 2.ª ed.); e A Arte de Pensar: 10.º ano (Didáctica, 2007, 2.ª ed.). Os dois últimos, de acordo com o filósofo, estão entre seus principais trabalhos. Desidério Murcho concluiu seu doutoramento em Filosofia pelo King´s College de Londres.

Kripke
Saul Aaron Kripke é americano e conhecido como um dos mais influentes filósofos vivos. Suas pesquisas perpassam a lógica, a filosofia da mente e a filosofia da linguagem. É autor de A Completeness Theorem in Modal Logic e Considerations on Modal Logic. Atualmente leciona na City University of New York (CUNY). Em 2001 foi contemplado com o Prêmio Schock em Lógica e Filosofia.

Em uma época em que a internet engatinhava por entre a sociedade de massa, 1997, Murcho criou a revista digital Crítica que, apesar de estar no ar, foi descontinuada em 2012 – para conhecê-la acessar o site http://criticanarede.com/. Pouco antes, em 1996, tornou-se membro do concelho editorial da revista Disputatio, também digital – exerceu a função até 2010. Murcho é ainda cronista no jornal Público, revisor da Revista Educação Especial (UFSM) e colunista da revista Os Meus Livros. Como tradutor, trabalhou com obras de George Orwell, William Newton- Smith, Bertrand Russell, Michael Martin, Nelson Goodman, dentre outros. Na entrevista abaixo foram escolhidos alguns temas comuns da Filosofia para serem discorridos por Murcho, como o ensino de filosofia, os desafios do livre pensar, a Filosofia Analítica e a metafísica.

Conhecimento Prático Filosofia: Qual o principal desafio de ensinar Filosofia?
Desidério Murcho: O principal desafio é o total desinteresse da esmagadora maioria dos alunos. Mas este não é um problema específico da Filosofia; calculo que seja exatamente o mesmo que ocorre em outras áreas. Os alunos são hoje subtilmente obrigados a estudar na universidade, porque não se lhes oferece alternativas viáveis e socialmente prestigiantes. O resultado é chegarem à universidade alunos sem qualquer interesse em estudar, sem curiosidade intelectual, sem hábitos de concentração, estudo aturado e raciocínio sofisticado. Tudo o que o aluno espera da universidade é uma certificação para ter um emprego melhor, e pressupõe que tudo é uma farsa em que ele finge que aprende, repetindo os jogos de palavras de que o professor gosta, ao mesmo tempo em que o professor finge que ensina, e no final o professor finge que avalia e o aluno finge que é avaliado. O interesse do professor também não é ensinar bem, porque isso não dá qualquer prestígio. O seu interesse é pesquisar — entendendo-se por “pesquisa” não a investigação do que não se sabe, mas o relato mais ou menos mecânico do que está escrito nos livros.

No que respeita aos alunos com interesse em estudar, a Filosofia acarreta dificuldades peculiares que resultam de duas grandes concepções da disciplina, que têm percorrido a sua vetusta história e que continuam a fazer-se sentir em algumas universidades (mas não em outras). Por um lado, temos uma concepção estritamente cognitivista da Filosofia, concepção que encontramos em filósofos como Aristóteles e Platão, em Tomás de Aquino e Descartes, Hume e Kant, Kripke e Williamson. Mas por outro temos uma concepção não cognitivista que ora vê a filosofia como autoajuda secular, ora como uma prática mística. Estas concepções não cognitivistas de Filosofia são visíveis em filósofos como Epicuro e alguns estoicos (sobretudo romanos), no caso secular, e em Plotino e Dionísio. Ora, os alunos que estão à espera de uma concepção e têm de aturar um professor que tem uma concepção diferente, têm uma experiência pouco aprazível da Filosofia. Isso me acontecia quando era aluno e saía frustrado e cheio de tédio de uma aula cujo conteúdo cognitivo era nenhum, mas que tinha muita conversa fiada supostamente edificante. E, claro, os meus alunos saem profundamente frustrados e cheios de tédio das minhas aulas se estiverem à espera de conversa fiada edificante, porque em vez disso ouvem raciocínios complexos e teorias sofisticadas sem qualquer apelo existencial.

CPF: Suas pesquisas perpassam temas instigantes como o sentido da vida, tendo até mesmo organizado um livro sobre o assunto, “Viver para quê?”. Qual a sua perspectiva quanto a esse anseio humano em descobrir uma razão para viver?
DM: Na verdade, não me parece que exista anseio humano algum para saber qual é o sentido da vida, se com isso se quer dizer que a generalidade das pessoas se preocupa com o tema. Pelo contrário, a maior parte das pessoas preocupa- se muitíssimo mais com quem ganha o jogo de futebol, com o enredo da novela e com muitas outras coisas deste jaez, do que com o sentido da vida. E mesmo entre os intelectuais, raros são os que têm interesse na área. Claro que verbalmente algumas pessoas que não se interessam pelo tema irão mentir e dizer que se interessam. Mas se lhes perguntarmos o que já leram e procuraram sobre o tema, a resposta, “Nada” ou “Quase nada”, mostra que estão mentindo, por razões que não compreendo bem. Talvez seja por acharem que é chique dizer que se interessam pelo tema.

 

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