Reportagens
Ensaio

Adorno e o ensaio como forma


Em oposição às pretensões totalizantes e esquemáticas do método científico, o ensaio pretende, de acordo com o teórico frankfurtiano, ser um convite às formas criativas de reflexão, captando, assim, o movimento do pensar


por Henrique Iafelice*

"O ensaio coordena os elementos, em vez de subordiná-los; é só a quintessência de seu teor, não o seu modo de exposição é comensurável por critérios lógicos"

Gilles Deleuze
Gilles Deleuze (1925-1995) foi um filósofo francês, autor de livros como Nietzsche e a Filosofia, Proust e os Signos, Diferença e Repetição e, com Felix Guattari (1930- 1992), O Anti-Édipo e Mil Platôs.
Domínio Público

Segundo Gilles Deleuze, é possível pensarmos em duas críticas. A primeira relaciona-se as "falsas aplicações" em que é criticada a falsa moral, a falsa religião, falsa filosofia etc. A segunda procura focalizar-se na verdadeira moral, na verdadeira religião. Ou seja, ela ataca diretamente o conhecimento ideal, as verdadeiras formas. De forma semelhante, a crítica presente no ensaio não busca criticar o falso, o inverdadeiro, pois caso o fizesse já estaria afirmando de antemão a possibilidade de uma verdade final e objetivante. Ao criticar o falso, supõe-se que o verdadeiro exista e, nesse caso, seria necessário trazê-lo à luz. Tal crítica impõe de forma implícita valores de verdade que fogem ao propósito do ensaio, pois, em si mesmo, ele não comporta qualquer afirmação que não seja apenas movimento e passagem para algo que ultrapassa as suas próprias delimitações. "Enquanto se satisfaz em criticar o "falso" não se faz mal a ninguém a verdadeira crítica é a crítica das verdadeiras formas e não dos falsos conteúdos (...)"(DELEUZE, 2006, p. 179).

Ao desenvolver a sua crítica, percebe-se, no ensaio como forma, a inclinação de não deixar-se limitar pelas próprias afirmações, pois toda a sua verdade sempre o leva para além de si mesmo. Por mais paradoxal que pareça, o ensaio não poderia estabelecer-se de forma final em suas próprias afirmações, pois isto já o colocaria dentro de uma forma limitada em que suas afirmações seriam elas mesmas a destruição de toda possibilidade de estabelecer-se além de suas próprias afirmações. Segundo Adorno, "no ensaio, elementos discretamente separados entre si são reunidos em um todo legível; ele não constrói nenhum andaime ou estrutura (...) Essa configuração é um campo de foças, assim como cada formação do espírito, sob olhar do ensaio, deve se transformar em um campo de forças".

Ao criticar o falso, supõe-se que o verdadeiro exista e, nesse caso, seria necessário trazê-lo à luz. Tal crítica impõe de forma implícita valores de verdade que fogem ao propósito do ensaio, pois, em si mesmo, ele não comporta qualquer afirmação que não seja apenas movimento e passagem para algo que ultrapassa as suas próprias delimitações

NIETZSCHE E ADORNO
Fica clara aqui a influência de Nietzsche sobre Adorno. Segundo a teoria das forças de Nietzsche, todo fenômeno se constitui a partir da relação de forças. A própria história de uma coisa se constitui a partir do confronto entre forças. Deleuze, em seu livro Nietzsche e a Filosofia, descreve que "um fenômeno não é uma aparência nem sequer uma aparição, mas um signo, um sintoma que encontra o seu sentido numa força atual (...) Um coisa possui tanto mais sentido quanto haja forças capazes de dela se apoderarem" (DELEUZE, 2001, p. 8)

A lógica discursiva não leva em conta as diversas forças presentes em todos os fenômenos e não é por menos que o ensaio instala-se exatamente nesse campo de combate de forças, pois ele busca recuperar aquilo que a lógica discursiva não possui. Ele reconhece que há uma multiplicidade de sentidos presente em um único objeto. Mas por outro lado, isso não quer dizer que ele descarte a lógica por completo. Ao contrário, o que ele faz é ultrapassá-la, ir ao seu limite, buscar um campo em que a própria lógica possa ser superada dentro de seus próprios limites. Se a lógica discursiva buscava a subordinação, a hierarquização de conceitos, no ensaio, sua lógica busca a coordenação desses conceitos. Nas palavras de Adorno: "O ensaio coordena os elementos, em vez de subordiná-los; é só a quintessência de seu teor, não o seu modo de exposição é comensurável por critérios lógicos".

Penso que o texto de Adorno deixa claro que o ensaio como forma abre a possibilidade de se estabelecer novas interpretações, novos olhares que, apesar de não estarem alinhados às estruturas lógicas e deterministas do discurso científico, podem trazer novas formas de conhecimento que colocam o subjetivo em evidência, ao contrário da lógica abstrata que só reconhece o valor do geral. Aceitar a realidade do instável, da mudança, do instante, é natural ao ensaio, por isso que para Adorno "a lei formal mais profunda no ensaio é a heresia. Apenas a infração à ortodoxia do pensamento torna visível, na coisa, aquilo que a finalidade objetiva da ortodoxia procurava, secretamente, manter invisível".

Apesar de estar, de certa maneira, determinado pela lógica discursiva, presente no discurso, o ensaio consegue subvertê-la indo além, estabelecendo novas interpretações conceituais que seriam impossíveis caso não houvesse uma estrutura que reconhecesse as complexidades e os conflitos presentes no próprio objeto de estudo.

REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor, W. Notas de Literatura l. Trad. Jorge de Almeida. São Paulo: editora 34.1991
DELEUZE, Gilles. A Ilha Deserta e Outros Textos. São Paulo: Iluminuras. 2006 ______________ Nietzsche e a Filosofia. Trad. Antônio M. Cavalcanti. Porto: 2001

*Henrique Iafelice é graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e mestrando em Filosofia pela mesma instituição, com o projeto de pesquisa intitulado "Educação e ética do acontecimento à luz da filosofia de Gilles Deleuze. Da consciência moral à existência ética".

 

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