Reportagens
Ponto de vista

Narrativa Policial, não ultrapasse


Os programas Operação de risco e P24 pretendem mostrar uma polícia firme no combate ao crime e zeladora dos princípios constitucionais, mas algumas técnicas e procedimentos acabam revelando, sob as camadas da espetacularização, desigualdades sociais


Por Daniel Rodrigues Aurélio

 

Em A Sociedade do Espetáculo (1967), o filósofo, escritor, cineasta e ativista francês Guy Debord (1931-1994), atualizando noções trabalhadas por Marx, Freud, Bakunin e Lukács, anotou o seguinte comentário: "No espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo" (Ed. Consultada: 1997, p. 17). Influência para as manifestações de Maio de 1968, os escritos de Debord têm as tintas fortes do engajamento episódico, mas não deixam de se manter atuais quando observamos, por exemplo, os "espetacularizados" programas policiais (ou telejornais policialescos), cujos apresentadores, juízes de um tribunal mediado pelas câmeras, atribuem-se a função de "porta-vozes" de um clamor popular contra o "avanço desenfreado do crime".


Afanásio Jazadji
Radialista, advogado e político, afanázio Jazadji foi campeão de audiência na década de 1980 com seus programas de rádio. Sua defesa de penas duras, inclusive de morte, alavancou sua carreira política. Nas eleições para deputado estadual em 1986, obteve mais de 500 mil votos. exerceu sucessivos mandatos pelas legendas PdS e PFl. recentemente, atuou como comentarista no boletim de ocorrências, do Sbt, no momento fora do ar.

Esses apresentadores reproduzem discurso similar ao popularizado pelo radialista Afanásio Jazadji nos anos 1980, demonstrado pela antropóloga Teresa Caldeira em Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo (2000). Um discurso típico da "disjunção da cidadania" expresso na máxima "direitos humanos para humanos direitos". Segundo Caldeira, "Afanázio Jazadji é conhecido por sua voz grave, pela maneira desrespeitosa com que se refere aos suspeitos, por sua defesa da polícia e da pena de morte, e por sua oposição radical aos direitos humanos. [.] Sua influência é evidente: as pessoas que entrevistei o mencionavam para justificar suas opiniões e, em 1986, numa campanha baseada totalmente no ataque aos direitos humanos e às polícias de Montoro, Jazadji foi o candidato mais votado para a Assembleia Legislativa." (2000, p. 347).

Dentro da perspectiva da "narrativa do crime" difundida em programas ditos sensacionalistas nas rádios e nas TVs abertas, há diversos elementos capazes de confirmar a tese debordiana. Ao ouvir a indignação de José Luiz Datena, em sua dupla função de apresentador e comentarista do Brasil Urgente (TV Band), bradando que uma determinada infração criminal é nada menos que "um tapa na cara da sociedade", estamos diante de uma retórica cujo "desenrolar é tudo". E os bons índices de audiência atestam a repercussão das opiniões de Datena, talentoso comunicador e criador dos bordões "me ajuda aí", "eu quero imagens", repetidos nas ruas e nas redes sociais da internet.

Mas, apesar dessa teatralidade, é difícil simplesmente esvaziar o conteúdo da fala do apresentador e reduzi-lo a uma luta por "ibope". Ainda mais quando estamos diante de uma nova onda televisiva: os programas conduzidos pelos próprios agentes de segurança pública, caso do Operação de Risco, exibido pela Rede TV!, e do P24, da Band. Inserido no segmento dos reality shows, há neles um forte apelo publicitário. O formato é um híbrido entre o Brasil Urgente e os jornalísticos na linha do Globo Repórter. Pretende trazer para si o telespectador dos "telejornais policialescos", porém utilizando-se de uma linguagem narrativa de documentário/reportagem para retratar o cotidiano das polícias civil e militar do estado de São Paulo em plena "guerra" contra o crime.

Dois fatores estão mobilizados em Operação de Risco e no P24: a imagem da polícia enquanto instrumento, isto é, enquanto "técnica" de uma "governamentalidade" sob os auspícios do Estado, o guardião das leis e das instituições democráticas (FOUCAULT, 2006); e o combate à "criminalidade" e ao "indivíduo perigoso", defi- nido pelo avanço das ciências criminais e psiquiátricas, nos termos de Foucault (1926-1984) no texto "A evolução da noção de indivíduo perigoso na psiquiatria legal do século 19" (2006). Nesse sentido, a narrativa é "espetacularizada", mas o conteúdo é intencional: mostrar uma polícia "legalista" e "humanizada", porém implacável contra o desvio à ordem.

Cesare Lombroso
Médico, cientista e criminologista italiano, Cesare Lombroso (1835-1909) desenvolveu ideias baseadas no positivismo e nos estudos de fisognomia que formaram a base da escola positiva de direito penal. Escreveu o livro O Homem Delinquente (L´Uomo Delinquente, 1876). As principais concepções de Lombroso, em seu tempo hegemônicas, foram desacreditadas.


Em um dos episódios de Operação de Risco, exibido no dia 22/11/2010, foi apresentado aos telespectadores um "dia inteiro" de buscas, realizadas por policiais civis do Garra, a indivíduos com mandados de prisão expedidos, seja por condenação, seja pelo instrumento da prisão preventiva, esta uma figura jurídico-polícial reveladora de uma das pretensões da ciência criminal, qual seja, "antever" o crime e aqueles inclinados a tais práticas e assim "proteger" a sociedade dos "perigosos elementos". A prisão preventiva é uma "sentença" antes da sentença, baseada numa "periculosidade" determinada em laudos, perícias e análises de histórico do sujeito.

Já não se fala como outrora sobre as teses de Cesare Lombroso (1835-1909) ou mesmo de uma antropologia criminal que mede crânios e compleições físicas, mas tal lógica está presente e ressignificada em outras modalidades, práticas e tipos de pesquisas.

 

NARRATIVA E EDIÇÃO
Na análise do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), publicada em seu livro Sobre a Televisão (1997), quando as câmeras são ligadas e o processo de edição é efetivado, é possível "ocultar mostrando" e dirigir uma peça de propaganda com uma estrutura jornalística, documental e narrativa, tal como uma "verdade revelada" a quem assiste. Durante o referido episódio de Operação de Risco, conhecemos a ação de dois destacamentos policiais dinâmicos e enérgicos, porém "respeitadores" dos direitos daqueles que deixarão suas casas rumo ao sistema prisional.

É de conhecimento geral a atuação digna e valorosa de muitos agentes de segurança, mas também sabemos das violações aos direitos cometidos em várias ações policiais. E a câmera do Operação de Risco flagrou, certamente sem a intenção, o grave problema, a começar pela origem socioeconômica dos capturados. Favelas e bairros periféricos foram varridos na operação, jovens que não eram os alvos da procura foram abordados, suspeitos de serem potencialmente "nocivos" por conta inclusive das vestes e tatuagens. Surpreendeu a mim a ausência de palavrões e gritos, e mesmo as gírias comuns ao meio foram utilizadas com economia. Um efeito da gravação dos procedimentos.

O intuito da narrativa policial televisionada é mostrar uma "técnica coercitiva" executada dentro dos parâmetros constitucionais, mas uma das cenas mostrou o contrário, e desnudou o caráter de "exceção" de que se investe o poder. A cena em questão é dos presos, preventivos ou não, algemados uns aos outros e colocados em um caminhão de transferência para fazerem o exame no IML, e "atestar que não sofreram nada" - como adianta um dos policiais - e seguirem para o Centro de Detenção Provisória. De acordo com a antropóloga Karina Biondi, autora de Junto e Misturado: Uma Etnografia do PCC (2010), o chamado bonde é um dos momentos de maior apreensão para as mulheres de presos (2010, p. 34 a 36). Com calor, alguns presos passam mal no trajeto.

É sabido que os "de cima" também comentem atos desviantes à legislação, mas apenas os "de baixo" foram exibidos pelas câmeras de TV

Durante as buscas (editadas e transmitidas de forma cinematográfica) foram reunidos em um só camburão diferentes crimes, de desacato à receptação, o que em si revela uma desordem dentro da ordem, mas aparentemente não houve ali uma reunião de diferentes classes sociais. É sabido que os "de cima" também comentem atos desviantes à legislação, mas apenas os "de baixo" foram exibidos pelas câmeras de TV. Talvez outros episódios do programa tenham mostrado figurões aprisionados, mas não costuma ser a regra. Aquela ação parecia dizer ao telespectador: "misturar em um mesmo camburão diferentes ações criminalizadas, pode; misturar em um mesmo camburão diferentes classes socioeconômicas, não". Registre-se, porém, a preservação da identidade dos suspeitos e a ausência de agressões físicas explícitas o que, em uma leitura otimista, pode demonstrar aos jovens aspirantes ao ofício que não são necessários, tampouco desejáveis, excessos e truculências.

Em contraste com os casos noticiados de figuras da "elite" enrolados com a justiça, mas muitas vezes impunes, aquele episódio de Operação de Risco apenas reforçou, aos olhos atentos, a percepção da "lei favorável aos ricos", expressa pela máxima orwelliana do "todos iguais, mas uns mais iguais que os outros".

REFERÊNCIAS
BIONDI, Karina. Junto e Misturado: Uma Etnografia do PCC . São Paulo: Terceiro Nome, 2010.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

CALDEIRA, Teresa. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Sidadania em São Paulo. São Paulo: 34, 2000.

DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo: Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOUCAULT , Michel. "A evolução da noção de indivíduo perigoso na Psiquiatria Legal do século XIX". In: Ditos e Escritos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

_______________. "A Govermentalidade" In: Ditos e escritos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

DANIEL RODRIGUES AURÉLIO
É GRADUADO EM SOCIOLOGIA E POLÍTICA PELA FUNDAÇÃO ESC OLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO (FESPSP), PÓS-GRADUADO EM GLOBALIZAÇÃO E CULTURA PELA ESC OLA PÓS-GRADUADA DE CIÊNCIAS SOCIAIS (EPG/FESPSP) E MESTRANDO EM CIÊNCIAS SOCIAIS PELA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO (PUC-SP). É EDITOR DAS REVISTAS CONHECIMENTO PRÁTICO FILOSOFIA E GUIAS DE FILOSOFIA E AUTOR DO LIVRO DOSSIÊ NIETZSCHE (UNIVERSO DOS LIVROS, 2009).

 

 
 
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