Artigo

Schopenhauer


A vontade é o elemento fundamental a fim de trazer o sentido das coisas e do mundo. É essa união entre o corpo e o sentimento, segundo o filósofo, que proporciona a essência metafísica elementar: a vontade da vida.


por Vilmar Debona*

aspecto racional do homem
É atribuído ao pensador grego Aristóteles a fala: "O ser humano é capaz de ser racional", uma vez que nem todas as ações humanas são guiadas pelo chamado "Sonho da Razão", citando aqui o título do livro do jornalista Anthony Gottlieb.

mundo fenomênico
Conceito também usado na ciência política, o mundo fenomênico referese à manifestação de uma coisa-em-si. Em outras palavras, trata-se de uma realidade onde tudo é uno, não havendo dissociação entre tempo e espaço.

ele é também corpo
Um dos principais sucessos do grupo de pop/rock Titãs é a canção "O Pulso", escrita pelo poeta e compositor Arnaldo Antunes. O estribilho da letra traz os versos: "O pulso/ ainda pulsa/ E o corpo/ ainda é pouco".

Schopenhauer salienta
"Aqui, portanto, o corpo nos é objeto imediato, isto é, aquela representação que constitui para o sujeito o ponto de partida do conhecimento, na medida em que ela mesma, com suas mudanças conhecidas imediatamente, precede o uso da lei da causalidade e, assim, fornece a esta os primeiros dados."
Trecho de "O Mundo Como Vontade de Representação".

O autor faz uma ressalva
"[...] não se deve tomar o conceito do objeto no sentido estrito do termo, pois, por meio do conhecimento imediato do corpo, que precede o uso do entendimento e é mera sensação dos sentidos, o corpo mesmo não se dá propriamente como OBJETO, mas, antes, os corpos que fazem efeito sobre ele." Trecho de "O Mundo Como Vontade de Representação".

Dotado de especificidades
"Portanto, o corpo como objeto propriamente dito, ou seja, como representação intuível no espaço, só é conhecido, justamente como os demais objetos, de maneira mediata, pelo uso da lei da causalidade na ação de uma de suas partes sobre as outras, logo, na medida em que o olho vê o corpo, a mão o toca". Trecho de "O Mundo Como Vontade de Representação"

Podemos dizer que o filósofo Arthur Schopenhauer, nascido em Dantzig (em 1788) e falecido em Frankfurt (em 1860), marcou a História da Filosofia no Ocidente, principalmente por ter valorizado um elemento novo nas discussões filosóficas: a noção de corpo. Nos tempos em que Schopenhauer viveu, as filosofias de Hegel e de Schelling predominavam e se apoiavam somente no aspecto racional do homem . Para Schopenhauer, em vez de a razão definir o homem e "decifrar o enigma do mundo", são o corpo e o sentimento, o que ele chama de vontade, que permitem alcançar e dizer o sentido das coisas. A vontade é o que há de mais essencial no mundo; ela se manifesta em toda a natureza e nos corpos animais, independentemente de serem eles possuidores ou não da faculdade de razão. Todos os corpos do mundo fenomênico são considerados, nessa filosofia, como concretização de um mesmo querer que nunca cessa. A objetivação da vontade não escolhe se vai se manifestar no homem mais inteligente ou numa pedra. Desse modo, em se tratando de espécies, a diferença entre os seres humanos e os demais animais é quase insignificante, visto que tanto o homem quanto o animal têm por base uma mesma essência metafísica, a vontade de vida.

Além disso, o que faz com que a atenção dada por Schopenhauer ao corpo seja vista como determinante é o papel indispensável que este elemento tem na teoria do conhecimento do pensador. Ele acredita que a base da formação do nosso conhecimento racional não é racional, já que começa com as sensações corporais. O que o filósofo chama de representações empíricas só existem porque, anteriormente, o corpo informou dados dos objetos e sensações abafadas ao entendimento que organiza as representações. Nesse contexto, é importante levar em conta que o entendimento também faz parte do corpo do sujeito, já que é entendido como um órgão físico ou o próprio cérebro. Assim, em vez da racionalidade, como se fosse uma rainha do mundo, definir sozinha o conhecimento, ela se torna dependente dos dados corporais; só a partir desses dados a razão pode fazer algo.

Resumidamente, segundo Schopenhauer, ocorre o seguinte: por meio das afecções do corpo, o indivíduo enraíza-se no mundo e passa a intuí-lo pelo entendimento, gerando, assim, o conhecimento. Com efeito, se o indivíduo é sujeito do conhecimento, ele é também corpo . Assim, inserida no campo da discussão da cognoscibilidade humana, a noção de corpo concebida pelo pensador apresenta-se como determinante. Não mais se corre o risco da admissão de uma "cabeça de anjo alada" designando a mente do homem totalmente alheia a seu corpo, algo possível quando se considera apenas o domínio da abstração sem uma base corpórea.

Nesse sentido, se a fim de sustentar a sua teoria do conhecimento, Descartes tomou o cogito como determinante, estabelecendo a dualidade corpo/alma e o primado da res pensante sobre a res extensa; Schopenhauer, em vez de delimitar corpo e alma, une corpo e intelecto. Tanto o corpo quanto o intelecto são expressões de um mesmo em-si, que, acima de tudo, expressam algo que o pensamento e os conceitos não alcançam, a própria vontade.

O ponto de partida do conhecimento
A questão pode ser mais bem detalhada quando consideramos que o corpo é tomado pelo filósofo sob duas perspectivas. Uma que o considera como objeto imediato e outra que o vê como objeto mediato. Nesse sentido, "o entendimento nunca seria usado, caso não houvesse algo a mais, de onde ele partisse. E este algo consiste tão-somente nas sensações dos sentidos, a consciência imediata das mudanças do corpo, em virtude da qual este é objeto imediato."

Além disso, Schopenhauer salienta a que o corpo é a representação que constitui para o sujeito o ponto de partida para o conhecimento. O corpo é, pois, objeto imediato na medida em que é um mero conjunto de sensações dos sentidos que advêm da ação dos outros corpos sobre si. Nesse primeiro aspecto, o corpo designa propriamente a vontade porque cada ato de vontade corresponde a um movimento corporal; e, então, ele passa a ser - além de condição de possibilidade do conhecer - a chave para se descobrir ou se decifrar o "enigma do mundo". Contudo, esse mesmo corpo pode fornecer dados dele mesmo, na medida, por exemplo, em que os olhos veem suas partes e as mãos o podem tocar. Assim é que o corpo passa a ser, tal como os outros, objeto mediato, portanto, conhecido como representação na intuição do entendimento. Para que esse conhecimento ocorra é necessária, através do uso da lei da causalidade, a ação de uma de suas partes sobre as outras.

O autor faz uma ressalva quando toma o corpo como objeto imediato. O corpo não se dá propriamente como objeto por um motivo claro: é que Schopenhauer não o considera de um ponto de vista unilateral, ou seja, tão somente do ponto de vista do mundo como representação, o que justificava designá-lo como objeto, mas, além disso, passa a considerá-lo também a partir do mundo como vontade. De fato, principalmente a partir do Livro II de O Mundo como Vontade e como Representação, ações do corpo e atos da vontade passam a se identificar e, em razão disso, o corpo é também visto como Objeto da Vontade (Objektität des Willens). Assim é que o objeto imediato passa a ser visto por si mesmo e, mais ainda, esse outro modo de conhecimento passa a se distinguir do que é comum à representação. Com isso, a certa altura já não se tem mais tão-somente "sensações dos sentidos", ou seja, um mero meio para algo outro, mas a realidade externa. Esse mesmo meio passa a se definir como objeto e a sua figura corporal começa a ser desenhada, estando ela dotada de especificidades.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>

 
 
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 15/10/14
Estilística e a evolução escrita
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 15/10/14
Língua e cultura
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 15/10/14
Classes de palavras

Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 44 - 2013
A falsa citação de Voltaire


Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 23 - 2010
Mito da Caverna:


Conhecimento Prático Filosofia :: Capa :: Edição 28 - 2011
Hannah Arendt, pensadora da política e da liberdade


Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 23 - 2010
O animal Político



Edição 49

Saiba antes de todos as novidades da revista




Capa
Artigo
Em Debate
Grosso Modo
Idéias
Reportagens
Filosoteca

Expediente
Assine
Anuncie
Fale conosco
Mande suas sugestões
Favoritos

Faça já a sua assinatura!
Conhecimento Prático Filosofia

Assine por 2 anos
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Geografia

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Língua Portuguesa

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Literatura

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!

  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS