Filosofia e Religião: construindo pontes

A prática e a observação do cotidiano da sala de aula mostram que entre os estudantes, e até mesmo entre os professores, constrói-se e mantém-se o preconceito de que o saber religioso não pode dialogar com o saber filosófico

Por Flávio Carvalho * | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Não podemos justificar o posicionamento de dicotomia entre o pensamento religioso e o filosófico com base em uma arcaica e “pretensa” ruptura entre mito e Filosofia, posto que o que acontece com o gênero grego diz respeito à criação de nova modalidade interpretativa da realidade, que continuará dividindo espaço com os relatos mitológicos, inclusive entre notórios filósofos como Platão e Aristóteles.

 

O segundo argumento afirma que o pensar foi submetido pela Revelação cristã: não podemos negar a força e o impacto que a Revelação cristã operou em diversos âmbitos da cultura ocidental. Na Arquitetura e na Literatura, na Pintura e na Música, na Política e no Direito, no modo de fazer ciência e na investigação filosófica, com diferentes intensidades e modalidades, a Revelação influenciou e contribuiu para a construção de diversos saberes durante aproximados dez séculos.

 

Pontes epistemológicas

 

 

 

Há um relato mítico, dentre tantos que povoavam o imaginário da sociedade grega, que emerge de um passado imemorial e contém uma compreensão extremamente válida para a discussão que desenvolvemos neste texto. Diz-se que Zeus possuía uma pedra na qual se reuniam todos os conhecimentos sobre a natureza e os seres, nela se incrustava a verdade. Um dos deuses desejava-a para si e conjurou uma situação para roubá-la. Conseguiu roubá-la de Zeus, entretanto, na fuga se atabalhoou e deixou-a cair no chão, o que resultou na fratura da pedra em vários pedaços. Zeus recuperou os fragmentos da sua pedra e em sua divina sabedoria decidiu partilhá-la, destarte, com todos os deuses do Olimpo, concedendo um quinhão da pedra a cada divindade. Por meio deste relato pode-se entender que a verdade passou a não ser mais propriedade de um único ser, dividida assim entre diversos seres com suas diferentes perspectivas e intencionalidades. Todo saber é, portanto, constitutivamente fragmentário.

 

A relação deste relato com nossa discussão se efetiva na medida em que compreendemos que os diversos saberes construídos pelo ser humano criam fragmentos e nuanças da verdade, mas não a verdade integral; não há verdade integral. Os saberes, como modos diferenciados de abordar os objetos da realidade, estabelecem abordagens sempre circunscritas aos seus crivos, desenvolvem instrumentos e estratégias de investigação sempre coerentes com suas expectativas, elaboram suas teorias buscando elementos de congruência com suas hipóteses, bem como orientam suas verificações em vista dos resultados pretendidos. Os saberes, portanto, são construídos segundo esquemas arbitrários, isto é, em todas as etapas do processo de construção de dado saber o arbítrio do investigador orientado por sua intencionalidade dirige as seleções de abordagens, mostras, instrumentos, teorização e verificação.

Ciência e religião devem se misturar?

 

Mobilizado por estas e outras questões epistemológicas, questionava Karl Popper (1902-1994): “Que são regras de método…? Pode existir uma teoria de tais regras…? A maneira de responder a essas indagações dependerá da atitude que se tome diante da Ciência.” Compreendemos a arbitrariedade como um dos elementos fundamentais na construção dos saberes, não comportando interpretação valorativa alguma, posto que consideramos o arbítrio como caráter constitutivo na construção dos saberes, não agregando aspectos de juízo de valor. Todo saber é, portanto, constitutivamente arbitrário.

 

Neste sentido, o ambiente epistemológico da pós-modernidade ­oportuniza a emergência de um novo paradigma de construção do saber, eivado de perspectivas de fragmentação e de ­relativização do saber, com propostas de uso de ­procedimentos investigativos que se orientam pela inexatidão dos resultados e pela perene transição das teorias. As teorias científicas se sucedem, afirma Cornelius Castoriadis, numa alusão explícita ao reconhecimento do caráter social-histórico dos saberes que não escapam à transitoriedade. Não há dogma ou conceito impassível de problematização, revisão ou recriação. Não se reconhece validade epistemológica para a imutabilidade de uma teoria. Novos objetos ou âmbitos são considerados no processo investigativo, antes relegados à ilegalidade ou marginalidade, como por exemplo, o feminino, o irracional, o ecológico, o imaginário. Inúmeros elementos, inúmeras abordagens participam na criação de saberes na complexidade. Todo saber, portanto, é constitutivamente complexo.

 

Razão e fé em diálogo

 

Decerto que outras compreensões e ações podem ser indicadas como elementos contribuintes para a construção das pontes epistemológicas: o reconhecimento crescente da importância da interdisciplinaridade na construção dos saberes e das sociedades, na formação de cidadãos e intelectuais que se reconhecem como seres complexos e interligados com tudo e todos que os cercam; a interculturalidade e a miscigenação tomadas como aspectos inexpugnáveis da formação das sociedades contemporâneas e propugnadoras de diálogos étnicos os mais amplos, que repercutem na transformação das relações endógenas e exógenas em cada sociedade; os constantes movimentos de aproximação e diálogo entre as diversas orientações religiosas, fomentando o ­ecumenismo, quer em nível das instituições e sua ação pastoral, quer em nível da vida dos fiéis, repercutindo nas reiteradas ações de tolerância e respeito à multiplicidade religiosa.

 

Depois do exposto, reservamos para este momento final de nosso texto a compreensão de um último elemento que indicamos como pertinente à construção das pontes epistemológicas. Não se trata de um elemento mais importante, tampouco o inverso. Deixamo-lo para o final porque compreendemos que mediante a sua existência, os outros elementos podem ser buscados e vivenciados. Trata-se de um posicionamento, de uma atitude diante das complexidades da realidade, dos seres humanos, das relações sociais, dos saberes, das instituições, que denominamos atitude de convergência, posicionamento de abertura e acolhimento da diversidade. Durante séculos, como discute Michel Foucault (1926-1984) em A história da loucura e As palavras e as coisas, a comunidade ocidental construiu seus paradigmas de segregação, quer pela instituição de paradigmas de diferenciação dos indivíduos, dos quais os loucos são o melhor exemplo, quer pela instituição de padrões de normalização do sujeito, dos quais as Ciências Humanas são o melhor exemplo. Atualmente, as formulações em torno destes elementos perderam força, entretanto a discussão permanece, posto que mudaram as motivações, os objetos, mas a construção das relações de poder permanece. Compreendemos, diante de tudo que expusemos, que deve figurar como importante papel da religião e da Filosofia no mundo atual a construção de pontes de diálogo, de investigação, de formulação de estratégias e ações, fomentando a atitude de convergência entre filósofos e teólogos, entre a experiência de religar-se ao sagrado e o pensar filosoficamente.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 106

Adaptado do texto “Filosofia e Religião: construindo pontes”

*Flávio Carvalho é professor de Filosofia. Doutor em Filosofia e atua na Licenciatura em Filosofia da UFCG. Coordenador do Grupo de Pesquisa Educação e Ensino de Filosofia UFCG/CNPq e do PIBID de Filosofia da UFCG. flavio.carvalho@ufcg.edu.br