Filosofia e o mundo corporativo

Filosofia nas empresas não é resposta à pergunta como a Filosofia pode ser útil para as empresas, mas, sim, uma maneira de romper o estreito modo de pensar utilitarista para permitir um melhor ângulo de visão fora dos limites ideológicos

Por Jadir Mauro Galvão* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O império da eficiência e da eficácia profissional acabou por se tornar mais importante do que a reflexão filosófica mais profunda. A dificuldade é que esse modo de pensar colocou no balaio das coisas inúteis uma generosa porção de coisas de real valor e que, cedo ou tarde, cobrariam seu preço. O modo corriqueiro de pensar da maioria das pessoas do nosso mundo globalizado ocidental está embebido dos pés à cabeça dos pressupostos de uma única corrente filosófica: o Utilitarismo. Tal modo de pensar, por ser compartilhado por muitas pessoas durante muito tempo, acabou por ganhar reputação de certo e, no mais das vezes, único. Muitos dos empresários e gestores altamente capacitados não percebem que seus próprios pensamentos e predileções rendem culto a essa corrente. É menos um modo de pensar autônomo e, sim, produto de certo tipo de doutrinação ideológica que nos impede de perceber suas limitações e mesmo de pensar fora das regras de seu próprio jogo.

 

Duas faces da moeda

Se for possível oferecer um sonoro elogio ao mundo corporativo, este deve ser feito, indubitavelmente, àqueles pontos em que ele mesmo se gaba de sua excelência: a objetividade, o foco, o planejamento, a racionalidade em sua administração e a busca incessante pela superação e o aprimoramento. Estes são traços característicos que distinguem a empresa que prospera daquela que padece ou da que fecha suas portas. O estímulo à competitividade exigiu a profissionalização e a especialização de seus quadros e foram, com isso, selecionados os melhores, cada qual em sua função. Foram exatamente esses traços que acompanharam, e por que não dizer, puxaram o desenvolvimento de nossa atual organização econômico-social: o capitalismo.

 

O grande apreço ao lucro e a acumulação de recursos conduziu o mundo que vivia no século XVIII um momento de escassez de recursos, pouco desenvolvimento tecnológico e uma pobreza generalizada, a um patamar de Ciência, Medicina, indústria farmacêutica, ­produção de alimentos e abundância de recursos, jamais experimentado pelo homem em qualquer época anterior. O ser humano atingiu o milagre da multiplicação dos metros quadrados. Responda depressa: como colocar centenas, senão milhares de pessoas em, no máximo, cem metros quadrados de solo? Uns sobre os outros em arranha-céus de inúmeros andares. Essa potencialização dos resultados trouxe um máximo aproveitamento dos recursos disponíveis e cada empresa atuando em seu campo obteve tanto a maximização de seus resultados como a minimização de seus custos e de seus insumos, sempre no intuito de obter uma melhora produtiva e administrativa. A curva da excelência buscando sempre seu ideal: ampliação de mercado, diversificação de produtos, transformação de seus processos produtivos, novas matérias-primas, novos modelos de gestão, transformaram o mundo corporativo em centros de excelência.

 

 

Talvez seja justa a crítica feita a outros setores. Não alcançamos o mesmo patamar na Educação, na administração pública e mesmo na saúde pública. Dessa forma, esses setores quando se tornam iniciativa privada de bons gestores acabam por trazer bons serviços e bons produtos. Os benefícios produzidos pela iniciativa privada conferiram uma qualidade de vida inimaginável. É tão grande a confiança do modelo que na Declaração de Estocolmo se afirmava: “Hoje em dia, a capacidade do homem de transformar o que o cerca, utilizada com discernimento, pode levar a todos os povos os benefícios do desenvolvimento e oferecer-lhes a oportunidade de enobrecer sua existência”. Tem-se aqui um enunciado com ares de verdade absoluta. A confiança dos seres humanos no modelo capitalista somada ao naufrágio de seus concorrentes diretos levou-os a crer que as eventuais falhas nos processos fazem parte de um aprendizado constante no caminho que almeja a perfeição.

 

Mito da Caverna no mundo empresarial

 

Por outro lado, se podemos nos arvorar a oferecer uma crítica ao modelo de administração praticado pelas empresas, não podemos deixar de anotar suas mais sonoras falhas, e estas se dão na objetividade: o foco, o planejamento, a racionalidade na sua administração, a busca incessante pela superação e pelo aprimoramento. Virtude que se transforma em vício oferecendo a outra face da mesma moeda. Podemos ver a questão da objetividade de dois modos diferentes: o primeiro na conta de que o importante é o resultado observável, isto é, objetivo em oposição ao subjetivo. Essa objetividade é louvável, mas também retira para plano inferior a interioridade dos seres humanos envolvidos no processo. Elogiar os objetivos alcançados nem sempre terá o mesmo resultado do reconhecimento do esforço dos colaboradores. Digamos que esse expediente retira um bocado de humanidade do processo. O segundo modo de se ver a objetividade é oferecendo mais importância ao objetivo final do que ao percurso. Por vezes somos desafiados a superar limitações físicas ou psicológicas, de capacidade ou de tolerância e relacionamentos. Esses desafios afrontam nossas dificuldades mais delicadas e, por vezes, o objetivo a ser alcançado tem uma importância bem menor do que o que colocamos em jogo nessas superações. Ou seja, na maioria das vezes o percurso é muito mais importante do que o objetivo. Ainda que para a empresa o mais importante seja atingir o objetivo, parece que a realidade insiste em reconduzir a atenção ao dado que a vida considera mais importante: o crescimento dos seres humanos. Aliás, com frequência, os objetivos são visados apenas no intuito de nos furtar a superar algumas dificuldades. Trocando em miúdos, muitos gestores fazem questão de atingir certo objetivo no prazo determinado apenas para escamotear seu mais profundo receio de ser considerado incompetente e ter de se defrontar com o mercado novamente.

 

Quanto ao foco, tão estimado e querido no mundo corporativo, é preciso compreender que quando nos focamos em algo, também esmaecemos todo o restante. Clamamos ao foco a solução de inúmeras dificuldades e, sem perceber, reduzimos nossa atenção a todo o restante que poderia ser uma solução simples, completa e definitiva de inúmeros problemas. E aqui não existe meio-termo. É obrigação do foco realçar um ponto, tornando-o mais nítido, tanto quanto esmaecer todo o restante. Por vezes isto é positivo, mas usado sem cautela acaba por retirar da vista uma série de grandes outras oportunidades, tanto quanto uma generosa porção de surpresas que se insinuam graciosamente e surpreendentemente.

 

O planejamento, talvez, seja o vício mais insuspeito, afinal de contas, um bom planejamento é sempre visto com bons olhos. Mas é preciso encará-lo com mais zelo e cuidado. Quando um planejamento realmente funciona, e é justamente isso que se espera de todo e qualquer planejamento, certamente ceifará qualquer possibilidade de novidade. Positiva e negativa. O que se pode obter é somente o que foi planejado e nada mais do que isso. A surpresa negativa foi completamente evitada, mas a surpresa positiva também. E talvez seja justamente a surpresa a responsável por momentos evolutivos e prazerosos. O erro, a falha, o fracasso somente se dão no confronto com as expectativas, mas quantas vezes perdemos, apenas pelo medo de errar, oportunidades de crescimento, ­aprendizado e até de inovação? Pior que isso é que alguns tipos de fracasso são puníveis com demissão, e profissionais de extrema qualidade muitas vezes são expurgados apenas por uma falha. Prejuízo, muitas vezes, maior do que a própria falha. Mais do que isso, o planejamento é um meio de formatar o futuro a marteladas. É exigir que o futuro, que é prenhe de novidades, se torne apenas uma repetição do passado ou atenda a uma expectativa pobre e já pensada anteriormente. Perde-se toda uma gama de riquezas que o futuro poderia graciosamente oferecer, apenas para cumprir um planejamento.

 

Outra daquelas (quase que) verdades absolutas parece ser a racionalidade da administração. A curva ideal entre custo e benefício. Mas ainda aqui entra o conflito entre teoria e prática. Ao utilizar adequada e perfeitamente a racionalidade da administração, é possível perceber que o trabalho automático, feito por máquinas ou computadores, tem um menor índice de inadequação do que o trabalho humano. Isso leva a uma racionalidade que acaba por prescindir da atividade humana, privilegiando a máquina em detrimento do homem. Do ponto de vista administrativo isso não é problema algum. Contudo, o melhor administrador deve trabalhar arduamente para que o seu próprio trabalho seja, sempre que possível, dispensável. Atitude que relega o homem para o terceiro plano, logo abaixo do lucro e da eficiência. Ainda que o anseio do ser humano tenha sido ao longo de toda a história do capitalismo o de se livrar das tarefas mais árduas e dedicar mais tempo ao ócio ou a atividades estéticas, o problema da falta de trabalho ainda não foi resolvido. Uma vez que os recursos necessários à vida em nossa sociedade só são conseguidos com dinheiro e só é possível consegui-lo (licitamente) com trabalho, a falta dele coloca o ser humano diante de uma situação difícil de superar. Mesmo que o homem tenha conseguido se livrar das atividades mais árduas, ainda precisa dedicar longas horas ao trabalho, pois existe uma mediação social baseada no dinheiro.

 

Outro ponto que é bastante interessante é a busca incessante pela superação. Historicamente a competitividade foi justificada por conseguir o estímulo necessário ao aperfeiçoamento e a busca pela superação pessoal. Baseado nesse estímulo, muitas alternativas foram abertas, como cursos técnicos, de pós-graduação, MBA, cursos de informática, línguas… Aliás, o mercado acabou ficando mais exigente e tais aperfeiçoamentos tornaram-se indispensáveis. A dificuldade é que os esforços no sentido de ganhar competitividade acabaram retirando do foco as coisas que mais diferenciavam os profissionais e tornando-os semelhantes e mesmo indiferentes. O esforço para se diferenciar acabou formando commodities humanas compradas ao menor preço. No esforço de ganhar a dianteira, os funcionários acabam por ficar todos alinhados e no mesmo nível. Do ponto de vista da empresa, esse parece ser um bom negócio: profissionais mais bem preparados e mais baratos. Todavia, tal mesmice retirou o brilho das diferenças e a genialidade particular. Passou a formar profissionais com títulos, mas sem brilho, mais medíocres.

 

Paradigma de verdade?

Mas essa característica de não perceber os limites tênues entre virtude e vício não é privilégio apenas do mundo corporativo. Em geral, o próprio capitalismo em sua essência acabou por padecer do mesmo erro. O grande apreço ao lucro e a acumulação de recursos que conduziu o mundo da escassez para a abundância produtiva acabou por se transformar em uma máquina geradora de marginalidade. A economista britânica Joan Robinson (1903-1983) diz que “o capitalismo moderno acha-se bem adaptado para produzir sucessos técnicos fabulosos, mas não para fornecer a base da nobre vida acessível a todos […]”. Nascida sob a bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade, ainda que tenha permitido a todos (ou ao menos a alguns) a liberdade de ascensão social, não ofereceu a mesma igualdade de condições para todos. De fraternidade nem sequer pode-se mencionar, pois essa ficou, por demais, restrita a pequenos círculos. De sorte que, embora tenha produzido riquezas que o mundo nem havia imaginado, não foi capaz de oferecê-la democraticamente a todos. Preservou a mesma característica excludente do modelo anterior a que sucedeu.

 

Por uma economia de novos valores

 

Mesmo seu viés utilitarista que se transformou em paradigma de verdade e alavancou um progresso gigantesco para o mundo acabou por colocar o homem diante do futuro mais concentrado nos espelhos retrovisores do que nele próprio. A ideia de utilidade só faz real sentido quando é possível saber antecipadamente a função prática de determinada ação ou recurso. Se sua utilidade já é sabida, tal conhecimento só pode advir do passado. Não há como saber para que serve aquilo que não conhecemos, o novo, o desconhecido. Ainda mais olhar para o futuro apenas visando a algum tipo de utilidade, parece acabar empobrecendo e restringindo a amplitude de visão. Encolhendo as perspectivas. Esse futuro prenhe de possibilidades novas se revela inusitado, mas a ideia fixa da utilidade ceifa toda novidade apenas para reproduzir o passado no futuro ou uma expectativa que nos priva da surpresa, do surpreendente.

 

 

Mesmo o próprio capital que foi o motor de um portentoso crescimento, na medida em que nos ofereceu meios de obter valores que antes não tínhamos acesso, acabou por transgredir sua índole de meio e transformar-se em fim em si. Parece que hoje mais trabalhamos para obter o dinheiro apenas pelo próprio prazer de possuí-lo do que como meio de obter coisas de real valor. Isso parece produzir certo vazio de sentido para muitos de seus profissionais. Vazio que torna o ato de despertar pela manhã um esforço hercúleo. Os músculos e mesmo o cérebro dos seres humanos teimam em resistir àquilo que muitos deles tentam se convencer de que o dinheiro pelo dinheiro seja importante por si mesmo. Vazio de sentido que muitos tentam, em vão, preencher com a roda do consumismo, com uma roupa nova, um carro novo. Vazio que parece se arrefecer ante a propriedade do magnânimo cartão de crédito. O ato de comprar parece se tornar mais prazeroso que o próprio produto. Mas essa característica também foi absorvida pelo mercado que se beneficiou dessa busca insaciável e acena alegremente com outra compra. Droga lícita que faz girar o mercado e a economia.

 

Influência filosófica

Mas foi exatamente esse caldo filosófico que acabou por se disseminar na cultura das empresas. Menos pelo seu próprio vigor conceitual e mais pelas condições históricas propícias ao seu desenvolvimento, disseminação e consolidação. O homem habituou-se ao modo de pensar utilitarista e ele acabou por se transformar em paradigma de verdade corrente e até no modo correto e bem-sucedido de pensar. A apologia ao sucesso o tornou símbolo de correção e todos os outros resultados foram relegados à condição de fracasso. O apreço à ideia de útil dividiu o mundo em coisas úteis e inúteis. O próprio ser humano acabou por se adaptar a essa ideia e ele mesmo quando não se mostra como útil, acaba por se sentir e mesmo ser considerado inútil.

 

Os profissionais foram por muito tempo (e hoje ainda o são por muitos) chamados e considerados como “recursos humanos”. A diferença entre os recursos materiais parece ficar reduzida e, nesse caso, nossa conduta passa a ser a mesma tanto para um quanto para o outro. Se o recurso material dá algum defeito, quebra ou se torna obsoleto, consertamos ou jogamos fora e substituímos por outro. Com muitos profissionais a conduta é a mesma. Se não é mais útil, joga-se fora ou substitui-se por outro mais novo. Tal procedimento que, olhado de determinado modo pode até parecer correto, pois, em geral, os custos e a produtividade parecem vir antes da dignidade humana, produz um ambiente profissional bastante insalubre. Quando um companheiro de equipe diminui sua produtividade, acaba por se tornar um risco à sobrevivência no jogo das empresas e num passe de mágica se transforma em uma engrenagem ­enferrujada que deve ser substituída, sem que se considerem fatores outros que não a própria produtividade e utilidade.

 

 

No mundo corporativo, a busca por selecionar os melhores gerou, nos outros, um sentimento de extinção, ou pior, o de demissão! Nessa esteira, para salvaguardar seu posto, muitos são aqueles que remam apenas para que não existam vencedores, pois deste modo eles seriam derrotados. Parece que a lei da Física se mostra eficiente: puxar para baixo dá menos trabalho e oferece menos risco do que empurrar para cima.

 

Algumas empresas prosperaram por terem uma percepção sagaz do mercado que as permitiu vislumbrar oportunidades de negócio de necessidades dos seres humanos e da sociedade. Outras, não tendo a mesma perspicácia, não se sentiram, por isso, prejudicadas, pois a posição de vantagem que ocupavam ofereceu a possibilidade de criar algumas dificuldades deliberadamente apenas como meio de vender e lucrar com a venda da facilidade, como solução do próprio problema que criaram. A inovação de seus produtos deu luz ao conceito de obsolescência programada.

 

Outro dos símbolos de eficiência, aquele que divide as empresas em departamentos, no intuito de serem mais bem administradas, nosso conhecido organograma, acabou por produzir competições políticas internas em disputa de poder que acirraram uma luta por espaços que prejudicam o bom andamento da empresa, dada a competitividade que vê no fracasso de um ou outro projeto a justa oportunidade de ganho de um espaço político de prestígio dentro da empresa.

 

 

Em suma, as empresas, junto com uma organização nascente, forjaram para si, para sua consolidação, uma estratégia de funcionamento que privilegiou o útil, o prático, o eficaz, a ascensão social, o lucro e todo um conjunto de valores que relegou o homem, a beleza, a arte, o sagrado, o lúdico, o ócio, o pensamento crítico mais consistente e a metafísica para planos bastante inferiores. Sem a real noção do risco que corriam, tomaram cegamente seus signos e seus valores em detrimento de outras coisas de grande importância, mas que não se alinhavam aos objetivos escolhidos. Fizeram suas escolhas, mas sem se atentar para as renúncias inerentes a elas. Criaram para si uma cultura que perdura até nossos dias atuais, mas que hoje gera mais dificuldades do que benefícios. Criam um ambiente corporativo corrosivo e insalubre.

 

Essa pode ser considerada uma crítica piegas, mas apenas o será para aquele que está em vantagem no jogo. Aquele que experimenta o sucesso e ainda goza de seus prazeres. Mas esse também terá, cedo ou tarde, seu dia de caça e ao repensar seu próprio esforço no sentido de obter ou manter seu próprio patamar de prestígio social, pagará o preço da competitividade e será ultrapassado por outros nesse jogo que parece considerar que a vida foi feita para o trabalho e não o trabalho foi feito para a vida. Quando percebermos que a ideologia conduziu a carroça para frente dos bois, e que, no jogo, a vida é um preço baixo a ser pago em prol do trabalho já será tarde demais e teremos perdido a vez para outro jogador que nos conduzirá para a parte mediana do jogo.

 

Prenúncios de mudança

A despeito de todas as dificuldades relacionadas e que ainda persistem como modelo de conduta, já é possível perceber alguns sinais de transformação. O tema da sustentabilidade, que exigiu um novo olhar das empresas para as questões sociais e para as questões ambientais, acabou por revelar alguns erros e tem reconduzido paulatinamente nossa atenção a coisas de real importância. O paradigma cartesiano das partes parece estar sendo substituído pela ideia de um pensamento sistêmico complexo. Mesmo os organogramas exigem um redesenho de sua arquitetura. Os muros departamentais estão ruindo, ainda que timidamente. O interesse crescente pela Filosofia parece ter a capacidade de retirar as estruturas meramente ­burocráticas da caverna para oferecer um caráter mais verdadeiro e reconduzir as carroças e os bois cada qual para seu lugar. A equação começa a colocar os fatores em outra ordem sem modificar o resultado do cálculo. Se trabalhamos para viver ou se vivemos para trabalhar. Se o trabalho serve para termos uma vida boa ou se a vida boa pode ser sacrificada em prol do trabalho.

 

O termo “recursos humanos” vem paulatinamente sendo substituído por “capital humano”, a hierarquia rígida de outrora dá espaço para iniciativas de equipes autolideradas. Pesquisas de clima organizacional vêm sendo estimuladas e a sinergia dentro e entre equipes é fomentada. Ainda que tais iniciativas tenham como finalidade o aumento da produtividade e, com isso, do lucro, elas conspiram para uma mudança de paradigma. Ainda não ficou claro o que é causa e o que é efeito. O declínio da produtividade, o aumento de erros nos processos não são a causa do declínio nos lucros. Mas o foco apenas no lucro é a causa do declínio de produtividade e o aumento de erros nos processos. Não se trata de esquecer o lucro, mas de reencaminhar as prioridades para uma escala de valores mais lógica e menos ideológica. Pessoas e produtos são mais importantes do que o lucro. Liderança de mercado no paradigma quantitativo não produz valor para o ser humano, apenas desumaniza a vida. Ainda que timidamente, algumas empresas parecem se encaminhar para o paradigma qualitativo. Produtos sustentáveis e com qualidade para durar mais tempo rompendo a ideia de obsolescência. Ainda que corram o risco de, durante certo tempo, padecer e se verem ultrapassadas no aspecto quantitativo, num segundo momento reassumirão a ponta quando o que imperar for a qualidade. Estão dando não um passo para trás, mas um salto em direção ao novo milênio.

 

 

O mundo das empresas passa por transformações. A influência utilitarista que transformou o mundo, mas estreitou nossas perspectivas, parece ter cumprido bem seu papel, mas agora deve ceder a outras visões com maior alcance, amplitude e profundidade. Seu jeito tacanho de observar as coisas, apenas vendo sua utilidade, tira da vida a beleza, o sagrado, o convívio com familiares, amigos, a vida cultural, o conhecimento gratuito e a possibilidade de criar. Foi bastante interessante obter inúmeras respostas para as perguntas antigas, mas talvez já esteja na hora de fazer novas perguntas. Questionar o real sentido das coisas e de nossas atividades diárias. Ainda teremos de lidar com a parte prática de nossa vida, mas precisamos entender que ela não pode nos roubar todo o restante.

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 107

*Jadir Mauro Galvão é filósofo, escritor e palestrante. Mestre em Filosofia pela PUC-SP, coach, master practitioner em PNL e professor universitário. Ministra cursos de desenvolvimento pessoal e coordena grupo de pesquisa em PNL. O artigo na íntegra e sem edições pode ser acessado no blog: http://filosofianasempresas.blogspot.com.br/

Adaptado do texto “Filosofia e o mundo corporativo”