Filosofia anarquista

Com embasamento em teorias anarquistas, o filósofo da Educação Sílvio Gallo defende que podemos pensar em um ensino público não estatal

Por Jorge da Cunha Dutra | Fotos: Carina Machado | Adaptação web Caroline Svitras

Mestre e doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, o filósofo Sílvio Gallo é atualmente professor livre-docente na Unicamp e fala à revista FILOSOFIA Ciência&Vida sobre o início de sua trajetória profissional na área filosófica. Relembra sua vida estudantil, quando ainda estudava no curso de técnico em Química, e o início do seu contato com a Filosofia, o que o levou a seguir profissionalmente neste campo do saber, lecionando desde a educação básica até o ensino superior. Ao longo da entrevista, aborda, entre outros assuntos, as contribuições que o pensamento anarquista pode proporcionar para refletirmos sobre a educação do nosso país na atualidade. Analisa a presença da Filosofia no currículo do ensino médio brasileiro e comenta sobre a experiência de escrever o seu segundo livro didático para o respectivo nível de ensino. Ainda sobre a presença da Filosofia no ensino médio, reflete a respeito dessa disciplina ser trabalhada na perspectiva da criação de conceitos, definindo a Filosofia como um conjunto de ferramentas conceituais que poderão servir como instrumentos que não resolverão os problemas da atualidade, mas que contribuirão “para enfrentá-los, trabalhá-los, investigá-los”. Ao final da entrevista, Gallo reflete sobre a importância do pensamento dos filósofos franceses e destaca, especialmente, as contribuições que o filósofo René Schérer pode trazer para pensarmos a temática referente à Filosofia da Educação.

 

FILOSOFIA • O que despertou o seu interesse em estudar Filosofia e em seguir nesta carreira profissionalmente?

Gallo • Fui estudar Filosofia porque durante o ensino médio estudei muito pouco a área de Humanas. Fiz um curso técnico em Química, de excelente qualidade, mas com carga horária mínima para Humanas: duas aulas semanais de História no primeiro ano, duas de Geografia no segundo ano e, no terceiro, uma aula de Educação Moral e Cívica e uma aula de Organização Social e Política do Brasil. Tínhamos aula em período integral, de segunda a sexta-feira das 8h às 18h e aos sábados das 8h às 12h, e apenas essa carga horária em Ciências Humanas. Isso, claro, em plena ditadura.

Quando terminei o curso fui trabalhar como técnico em química e sabia que não queria fazer curso superior na área; gostava da Química, mas achava que tinha aprendido o que queria. Durante um ano, optei por não ir à universidade e nesse período acabei fazendo alguns cursos livres de Astronomia, ciência pela qual me apaixonei. Em alguns desses cursos, estudei cosmologia e vimos as teorias gregas antigas sobre o universo, bem como as bases filosóficas da Física moderna e contemporânea. Isso despertou muito minha atenção. De modo que resolvi ir à universidade, cursar um bacharelado em Física para posteriormente fazer uma pós-graduação em Astrofísica. Como segunda opção, Filosofia, por puro deleite intelectual e nenhuma intenção profissional. Por uma série de questões práticas e familiares, desisti de cursar Física e resolvi, então, investir naquela que seria a segunda opção.

Na época, o único curso de Filosofia em Campinas era o da PUC, que tinha uma turma noturna, o que era conveniente para mim, pois trabalhava em indústria química. Esse curso era uma licenciatura, e então fui cursar a Licenciatura em Filosofia, mas por puro acaso e sem qualquer interesse profissional. Durante o curso, descortinou-se para mim ­outro universo da Filosofia, muito mais abrangente que meu interesse inicial em Cosmologia e Filosofia da Ciência. E, pouco a pouco, a paixão pela Filosofia foi aumentando, ao mesmo tempo em que crescia meu desinteresse pela Química. No final do curso, em 1986, o rumo estava traçado: cursar o mestrado em Filosofia da Educação na Unicamp e dar aulas de Filosofia. Deixei definitivamente para trás minha carreira como técnico em química.

 

FILOSOFIA • No período compreendido entre os anos de 1987 e 1992, você lecionou Filosofia em algumas escolas de Campinas (SP). Poderia dizer como foi essa experiência docente no ensino médio? Que aprendizados essa experiência trouxe para a sua vida?

Gallo • Comecei, na verdade, em 1987, a dar aulas numa escola pública estadual, de Educação Moral e Cívica e OSPB, para as séries finais do então primeiro grau e para o segundo grau. Minha intenção era desconstruir essas disciplinas da ditadura, trabalhando com conteúdos de Ética na primeira e de Filosofia Política na segunda. Tive mais sucesso com os alunos do segundo do que com os do primeiro grau. Depois de alguns meses, consegui uma bolsa de mestrado e fui obrigado a deixar as aulas.

No ano seguinte, fui convidado para lecionar Filosofia nas três séries do segundo grau em um colégio particular de Campinas. Ali trabalhei por cinco anos, enquanto fiz meu mestrado e boa parte do doutorado. Foi lá que aprendi, de fato, a ser professor. Despertou meu gosto de trabalhar com os alunos jovens, de estudar Filosofia com eles, de explorar o mundo e o pensamento. Posso dizer que essa experiência mudou minha vida, fazendo-me ser o que sou hoje, pensar o que penso, agir da forma como ajo. Consolidou também meu interesse pelo campo da Educação, fazendo-me permanecer no doutorado em Filosofia da Educação após terminar o mestrado.

Embora tenha depois passado a trabalhar no ensino superior, essa experiência foi marcante. Fui ­trabalhar no curso de Filosofia na Universidade Metodista de Piracicaba (onde fiquei por 15 anos, de 1990 a 2005), que era (e continua sendo) uma licenciatura. Resolvi que não poderia repetir ali o que eu tinha experimentado na PUC, uma licenciatura que funcionava como bacharelado. Isso nos fez realizar várias iniciativas, como a criação do Grupo de Estudos sobre ensino de Filosofia (GESEF), um dos pioneiros nos anos 1990 a trabalhar com esse tema. Isso, claro, com todas as dificuldades impostas pela realidade de uma instituição privada. Na Unicamp, onde estou desde 1996 (desde 2005 em tempo integral, depois que deixei a Unimep) na Faculdade de Educação, meu foco é a Filosofia da Educação, mas o ensino de Filosofia continua a ser uma das linhas de pesquisa a que me dedico.

 

Ética na docência

 

FILOSOFIA • Em seus estudos de mestrado e doutorado, você abordou o pensamento anarquista vinculado à Educação. De que modo a teoria anarquista pode contribuir para pensarmos a Educação de nosso país atualmente?

Gallo • O pensamento anarquista nos coloca na dimensão de uma educação que pode ser vista como pública, antes de ser estatal. Isso é, pensamos a educação pública como um dever do Estado e então a sociedade se desobriga; mas podemos tomá-la em nossas mãos, com a comunidade definindo, de fato, os rumos da educação de seus filhos. Penso que esse é um dos nossos grandes desafios hoje.

Por outro lado, o anarquismo nos coloca na direção de um pensamento autônomo, da necessidade de se pensar por si mesmo. Penso que não há outra possibilidade concreta para a Filosofia senão investir nesse pensamento autônomo, para que o ensino de Filosofia nos coloque numa dimensão libertária da Educação.

Enfim, como não temos condições de nos estender demais sobre o tema, podemos pensar práticas libertárias na relação entre professores e alunos, práticas concretas que podem ser realizadas no ­cotidiano da sala de aula. Praticar relações libertárias na escola ajuda a produzir outra educação, mais aberta, mais livre, mais dinâmica.

 

FILOSOFIA • Com relação à presença da Filosofia no currículo do ensino médio brasileiro, como você avalia a conquista de espaço dentro das escolas, após o término do período de adaptação à exigência da Lei 11.684/08?

Gallo • Em minha avaliação, estamos caminhando razoavelmente bem. É verdade que neste país enorme, a diversidade é imensa e há lugares com avanços interessantes e outros em que muito ainda precisa ser feito. Claro, nas regiões onde há cursos de Filosofia, avança-se mais e programas como o PIBID têm feito uma imensa diferença, provocando efeitos muito interessantes, tanto na formação do futuro professor de Filosofia quanto nas escolas de ensino médio que recebem estagiários do PIBID. Penso que os impactos desse programa já estão sendo percebidos, mas que nos próximos anos teremos sua real dimensão. Para o campo do ensino de Filosofia, ele está sendo fundamental.

Por outro lado, em cidades e regiões onde não há cursos de Licenciatura em Filosofia, temos muitos professores não habilitados e, em alguns casos, a situação chega a ser calamitosa. Mas o problema precisa ser enfrentado, buscando-se a capacitação desses professores não habilitados, num primeiro momento, e a habilitação de professores de Filosofia para atender a essas regiões, em médio prazo.

Enfim, os desafios são grandes. Mas eles só estão postos porque a longa mobilização para que a Filosofia estivesse presente no ensino médio brasileiro teve sucesso.

 

Para Gallo, o ensino enciclopédico teria muito pouco a dizer ao jovem brasileiro, levando a um desprezo pela Filosofia | Foto: Shutterstock

 

FILOSOFIA • Recentemente você publicou, pelo Plano Nacional do Livro Didático – (PNLD) 2015, o livro intitulado Filosofia: experiência do pensamento. Como foi a investida nessa nova forma de publicação? Qual é a proposta didática, no âmbito da Filosofia, que apresenta no respectivo livro?

Gallo • A construção do livro foi um grande desafio. Já havia tido a experiência de produzir um livro didático para Filosofia, Ética e Cidadania – caminhos da Filosofia, publicado em 1997 e que já teve mais de 20 edições. Mas foi algo muito diferente: escrevemos em grupo, para uma realidade em que a Filosofia era disciplina optativa e na maior parte do tempo oferecida em apenas um ano. O livro está dimensionado para isso.

Agora, tratou-se de preparar um livro para os três anos do ensino médio, segundo as orientações do MEC para os livros didáticos de Filosofia, a partir de uma concepção definida de ensino de Filosofia e procurando diferenciar-se de outros bons livros disponíveis no mercado, três deles já aprovados no PNLD anterior. Foi uma grande alegria ver o livro aprovado, pois a avaliação feita pelos especialistas é muito criteriosa e a aprovação indica que o livro tem respeitabilidade na área. Espero que ele se constitua em uma alternativa para os professores de Filosofia que desejem trabalhar de um modo problemático e com uma abordagem mais contemporânea.

A proposta didática foi pensada segundo algumas premissas: tomar a Filosofia como atividade conceitual e seu ensino como um impulso à experimentação do pensamento; centrar-se em problemas vividos, buscando conceitos que nos ajudem a enfrentá-los; dialogar com a história da Filosofia, mas desde uma perspectiva contemporânea; sem deixar de lado os pensadores clássicos, trabalhar também com autores contemporâneos, tentando com isso mostrar a Filosofia como algo vivo, dinâmico, vibrante, que pensa nosso mundo e nosso tempo. Com tudo isso, propor um estudo da Filosofia visando à construção do pensamento próprio e autônomo, mas por meio da leitura de textos dos filósofos e da produção de textos próprios.

 

FILOSOFIA • Com base no pensamento dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, você defende que a Filosofia se constitui como uma atividade de “criação de conceitos”. Poderia nos explicar como o docente de Filosofia pode desenvolver essa postura filosófica nas aulas de Filosofia do ensino médio?

Gallo • Penso que se a Filosofia é uma atividade, ela não pode ser apresentada aos estudantes como algo pronto, finalizado, acabado. Precisamos provocar o pensamento, “empurrar” os alunos para a Filosofia. E podemos fazer isso os trazendo para os problemas, tornando-os sensíveis aos problemas ou tornando-nos, nós, professores, sensíveis aos problemas que eles trazem. E apresentar a Filosofia como um conjunto de ferramentas conceituais que são instrumentos não para resolver esses problemas, mas para enfrentá-los, trabalhá-los, investigá-los.

Sinceramente, não vejo como a Filosofia possa ser outra coisa, principalmente se queremos que os jovens se interessem por ela. Se for apenas mais um conjunto de informações que vão cair na prova, no vestibular ou no Enem, não faz qualquer sentido.

 

Gilles Deleuze e Félix Guattari atribuem à Filosofia uma especificidade que só ela tem: a de produzir conceitos | Foto: Shutterstock

 

FILOSOFIA • Já existe alguma prática filosófica escolar permeada pela Filosofia como “criação de conceitos”? Se existir, como avalia a aplicação e o desenvolvimento dessa metodologia?

Gallo • Poderia falar de muitas experimentações nessa direção, mas não temos espaço suficiente, então destacarei algumas iniciativas. Há anos o Estado do Paraná definiu suas diretrizes curriculares para o ensino de Filosofia e elas foram pensadas segundo essa perspectiva. Desde então, os professores daquele Estado têm trabalhado nessa direção, alguns com avanços muito interessantes, com experimentações surpreendentes, outros com muitas dificuldades. Isso é inevitável.

Em outubro de 2014, durante o encontro da ANPEd Sudeste em São João del-Rei, tive um encontro com a professora responsável pelos estágios e pelo PIBID de Filosofia da UFJF, bem como com um grupo de alunos de Filosofia e duas professoras de Filosofia da rede pública da cidade, que recebem os estagiários da Universidade. Eles me relataram que estão trabalhando nessa perspectiva de ensino de Filosofia e realizando vários projetos nas escolas, com resultados interessantes.

Também em outubro de 2014, a Anpof realizou seu encontro bienal e, pela segunda vez, aconteceu a Anpof Ensino Médio, com apresentação de trabalhos de professores de Filosofia no ensino médio e minicursos. Tive a oportunidade de oferecer um ­minicurso com o título Ensino de Filosofia e Experimentação Conceitual e, ao longo de três dias, trabalhar com professores de Filosofia de vários Estados brasileiros. Também assisti a apresentações de trabalhos relatando experiências como essa perspectiva de ensino de Filosofia, pensada e praticada de diversas formas, o que mostra que temos tido avanços interessantes nesse campo.

 

FILOSOFIA • No ano de 2014, você organizou o livro intitulado As diferentes faces do racismo e suas implicações na escola. O tema do racismo certamente está bastante em voga no momento. De que modo a Filosofia na escola pode contribuir para problematizar as questões referentes ao preconceito, e não só o racial?

Gallo • Esse livro foi organizado a partir de trabalhos do grupo de pesquisa que coordeno na Faculdade de Educação da Unicamp, o DiS – Grupo de Estudos e Pesquisas Diferenças e Subjetividades em Educação, sendo o tema do racismo um daqueles a que nos dedicamos. Pensamos o racismo em sentido amplo, como o exercício de práticas preconceituosas contra aqueles que são diferentes. O racismo mostra uma reação daqueles que não sabem conviver e compartilhar os espaços com aqueles que são diferentes, em qualquer aspecto.

Penso que as aulas de Filosofia podem proporcionar nas escolas espaços para pensar essa problemática. Claro que ela não pode ser enfrentada apenas pela Filosofia, trata-se de um problema a ser enfrentado pelo conjunto das disciplinas e pela comunidade escolar como um todo, mas a Filosofia pode contribuir com uma abordagem conceitual em torno das diferenças e das multiplicidades que permitem que se veja de outra maneira.

No livro didático, a propósito, há capítulos escritos com essa intenção, por exemplo, ao problematizar a sexualidade e as múltiplas formas de vivenciá-la.

 

FILOSOFIA • Nos últimos anos, além de debater sobre a Filosofia no ensino médio, você tem dedicado seus estudos sobre os filósofos franceses (como Michel Foucault, Gilles Deleuze, entre outros). Embora suas teorias não estejam vinculadas diretamente ao campo educacional, de que modo o pensamento desses filósofos pode contribuir para pensarmos a área da Educação?

Gallo • Dedico-me ao estudo da Filosofia francesa contemporânea desde os tempos da graduação em ­Filosofia. Esses filósofos me acompanham desde ­então, estão presentes em minhas pesquisas no mestrado e no doutorado, ainda que não tenham sido o foco principal. Nos últimos anos, o que fiz foi ­desenvolver estudos mais sistemáticos, principalmente de ­Deleuze e de Foucault, no campo da Filosofia da Educação.

Penso que suas filosofias, embora não sejam filosofias da educação, oferecem ferramentas conceituais muito interessantes para pensarmos os problemas educacionais, e é isso que tenho me esforçado em demonstrar, experimentando a potência de certos conceitos produzidos por eles para pensar problemas que eles não pensaram. É o que ­poderíamos chamar de uma prática de “deslocamentos conceituais”, tirar certos conceitos de seu campo problemático original e fazê-los funcionar em outro campo problemático. Segundo Deleuze, isso já é uma atividade criativa, pois quando um conceito é deslocado, ele é profundamente transformado, acaba recriado, torna-se, de fato, outro conceito.

 

A visão teórico-prática do anarquismo no pensamento de René Schérer é um conector com a problemática educativa, algo de grande importância para se pensar a Filosofia da Educação
| Foto: Shutterstock

 

FILOSOFIA • Para finalizar, recentemente você pesquisou o pensamento do filósofo contemporâneo René Schérer [professor emérito da Universidade de Paris 8]. O que a Filosofia de Schérer apresenta de novo para as discussões referentes ao campo da Filosofia da Educação?

Gallo • René Schérer é uma figura apaixonante. Com mais de 90 anos, segue dando um seminário de doutorado todo ano na universidade, com uma vitalidade impressionante. Inquieto, está sempre pensando coisas novas e instigando os alunos de seu seminário.

Infelizmente, é pouco conhecido no Brasil, bem menos que os filósofos de sua geração, que já faleceram e dos quais foi colega (em alguns casos, amigo), como Foucault, Deleuze, Derrida, por exemplo. Apenas um de seus livros foi traduzido no Brasil (­Infantis, Ed. Autêntica, 2009), mas ele é autor de aproximadamente 30 livros, sobre variados ­assuntos, bem como diversos artigos. Dedicou-se a temas como a fenomenologia, a comunicação, a hospitalidade, a infância, o anarquismo no pensamento, a estética, a homossexualidade.

Para o que concerne à educação, publicou algumas obras importantes, de modo especial o livro Émile Perverti (1974, reedição revista em 2006), uma dura crítica à pedagogia moderna, que promove uma “perversão da infância”, ao colocar as crianças num molde produzido pelos adultos. O antídoto ele encontrou no utopista francês do século XVIII, Charles Fourier, cuja obra ele tratou de recolocar em circulação na França: pensar uma “infância maior”.

A educação como objeto da Filosofia

Schérer também não foi um filósofo da educação; mas estou preparando um livro sobre sua obra e seu pensamento, defendendo que podemos perceber uma filosofia da educação em sua trajetória. Uma filosofia da educação crítica do status quo, de um processo educativo que opera segundo aquilo que ele denomina o “dispositivo pedagógico” (tomando de Foucault o conceito de dispositivo e fazendo-o operar na problemática educativa; um exemplo daquilo que chamei anteriormente de “deslocamento conceitual”) e propositiva de um pensamento inventivo e criativo, de um processo educativo que tome as crianças não como seres a serem desenvolvidos e educados para tornarem-se maiores, adultos, mas como seres de desejos e de vontades, que produzem um mundo e suas relações. Uma educação que não defina a priori um processo que deve ser seguido por todos, mas que acompanhe passo a passo as criações das próprias crianças, aprendendo também com elas.

Com Schérer, encontrei outra maneira de pensar o anarquismo (ele afirma em livros do final da década passada que o pensamento é anárquico em sua própria natureza, uma vez que não tem princípios) e a autonomia, novas formas de pensar a educação numa perspectiva libertária. Além disso, ele nos traz também importantes contribuições para pensar o trabalho do professor de Filosofia, isso que ele fez toda sua vida, tanto na educação média como na universidade, investindo no pensamento próprio de cada um, que pode ser experimentado em experiências comunitárias e coletivas, sem deixar de ser singular.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 104

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