Filosofia alienadora?

Segundo Liliana, o trabalho filosófico pressupõe um exercício de si mesmo que versa sobre o que se pode pensar e o que se pode mudar no que se pensa

Por Fábio Antonio Gabriel* e Jorge da Cunha Dutra** | Fotos: Gabriel Haesbaert | Adaptação web Caroline Svitras

 

Liliana Souza de Oliveira ingressou no Curso de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 1996 e cursou mestrado em Filosofia na mesma Universidade. Atualmente é professora de Filosofia do Instituto Federal Farroupilha de São Vicente do Sul/RS e doutoranda em Educação na UFSM. A reflexão sobre o ensino de Filosofia constitui o objeto de estudo da sua pesquisa de doutorado que vem sendo orientada pela professora Doutora Elisete Medianeira ­Tomazetti. Nesta entrevista, Liliana de Oliveira conversa com a revista FILOSOFIA Ciência & Vida sobre a importância da disciplina de Filosofia para a grade curricular do ensino médio. Como professora, sua abordagem sobre o ensino da Filosofia tem uma perspectiva crítica como a realizada por Michel Foucault. Afinal, o ensino de Filosofia pode também ser alienador? A indagação pode, em um primeiro momento, parecer paradoxal, mas veremos ao longo da entrevista as motivações para as inquietações da pesquisadora.

 

 

FILOSOFIA • Michel Foucault é um dos principais referenciais teóricos de suas investigações acadêmicas. Você poderia nos falar sobre a importância desse filósofo na contemporaneidade e em que medida a Filosofia dele pode contribuir para pensar o cotidiano das pessoas?

Liliana • Michel Foucault é um dos pensadores mais importantes da contemporaneidade. A crítica à tradição ocidental essencialista é um dos pontos essenciais em sua obra. Somos herdeiros de uma tradição que acreditou na essência ou natureza humana e, por isso, nos comprometemos com modos fixos de existência. Acredita-se, ainda hoje, que podemos nos definir, nos limitar. Sofremos com as indefinições, com as incertezas, com a imponderabilidade como se pudéssemos controlar a vida e tudo aquilo que ela carrega. Penso que problematizar a noção de essência pode contribuir significativamente para que possamos construir novas formas de vida, para que possamos nos modificar, para que possamos lidar com as fragilidades, incertezas e imponderabilidades como características eminentemente humanas.

 

FILOSOFIA •  A Filosofia também pode ser uma ferramenta de alienação utilizada pelo Estado para manipular ideologicamente as pessoas?

Liliana • Em princípio, a atividade filosófica é um trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo. Isso implica em problematizar o mundo e a nós mesmos. Assumindo isso, o ensino da Filosofia seria sempre libertador. Entretanto, a Filosofia pode, dependendo do modo como se ensina, ser extremamente alienante. Talvez isso explique o discurso sobre a importância da educação básica e da emergência do ensino da Filosofia. Por meio da educação escolar (seus dispositivos e tecnologias) governamos os sujeitos. E ao governar os sujeitos, os subjetivamos de um determinado modo. Entendo que a obrigatoriedade da inclusão da disciplina Filosofia no ensino médio, no Enem e em diferentes vestibulares do Brasil parece indicar que o ensino da Filosofia é uma tecnologia que, por meio dela, se governam melhor os sujeitos. Sujeitos que serão governados e subjetivados para se adequarem melhor e de modo mais eficaz no mercado do trabalho. Ensinar Filosofia pode ser alienante quando nos atrelamos estritamente à lógica neoliberal ou quando ensinamos uma filosofia morta, com uma palavra morta, que não dialoga com nossas questões existenciais, com nossas angústias, com a constituição e reconstituição do nosso ser no mundo. Por isso é preciso resistir. Fazer do ensino da Filosofia um novo lugar de experiências parece ser uma forma de criar, recriar, resistir. Resistir por meio de uma nova prática filosófica é a possibilidade de fazer do ensino da Filosofia o lugar da ruptura, do deslocamento, do movimento sobre si e sobre a própria vida.

 

FILOSOFIA • A profissão de professor tem sido historicamente desvalorizada. Você ­acredita que a sociedade possa valorizar novamente a profissão docente de modo mais adequado?

Liliana • Acredito que sim. O que me faz pensar que a sociedade possa valorizar a profissão docente é exatamente a falta de interesse pelas licenciaturas no Brasil. Falta de interesse que resulta em um número cada vez menor de profissionais habilitados a dar aula. Por outro lado, as escolas ­continuam exigindo profissionais qualificados. O número de licenciados não atende às necessidades das escolas. Sabemos que a falta de interesse está intimamente ligada à desvalorização e aos baixos salários dos professores. Por isso se faz urgente uma reestruturação dos planos de carreira dos docentes no Brasil. Temos visto um investimento significativo do Governo Federal em Educação nos últimos anos, entretanto, ainda há muito que se fazer.

 

FILOSOFIA • Como você entende a suposta crise de valores que vivenciamos na atualidade?

Liliana • Acho que vivemos uma crise de valores que passa por uma exacerbação do individualismo. Valorizamos cada vez menos projetos coletivos e cada vez mais a meritocracia e o sucesso pessoal. Precisamos pensar na condição humana e reconhecer que estamos todos conectados. Reconhecer que pertencemos a uma comunidade e que os interesses pessoais deveriam estar submetidos aos interesses coletivos. Só assim conseguiremos respeitar o outro na sua condição humana e garantir a todos nós uma vida melhor, mais justa e mais igualitária.

 

 

FILOSOFIA • Em que a Filosofia de Michel ­Foucault modificou sua maneira de posicionar-se diante do mundo?

Liliana • Michel Foucault me atravessou. Arrebatou-me de uma forma que depois dele não posso mais voltar a ser o que era antes. Há lugares de onde não se volta e Michel Foucault é um deles. As leituras de seus textos modificaram meu jeito de ser e de pensar. Com Foucault aprendi a considerar as singularidades. Aprendi que não tenho nenhum compromisso com a permanência, mas sim com a mudança. Aprendi que para cuidar dos outros antes é necessário que eu cuide de mim mesma. Aprendi que só posso cuidar de mim se antes conhecer aquilo que sou. Aprendi que o mestre do cuidado é aquele que articula teoria e prática, desenvolvimento moral e intelectual. Aprendi que a Filosofia é uma prática, uma forma de vida, um modo de existência.

 

*Fábio Antonio Gabriel é professor de Filosofia, mestrando em Educação (UEPG), organizador de Filosofia
e Educação: um diálogo entre os saberes na contemporaneidade (Ed. Multifoco). fabioantoniogabriel@gmail.com

**Jorge da Cunha Dutra é licenciado em Pedagogia (FURG) e em Filosofia (UFPel), mestre e doutor em Educação (UFPel). Atualmente é professor de Filosofia na E.E.E.M. Eng. Roberto Bastos Tellechea, de Rio Grande/RS,e professor substituto da FURG, na área de Didática. profdutrajc@gmail.com

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 103