Felicidade em conta-gotas

Por Albio Fabian Melchioretto* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Qual foi a porta de entrada da droga em nosso mundo? Houve uma porta de entrada ou ela sempre esteve aqui? Se caminharmos pela História veremos que a ideia de droga vem sofrendo diferentes interpretações de acordo com o tempo e o espaço. Na leitura de Derrida a partir de textos platônicos, vemos uma aplicação da ideia de droga para o texto. Sócrates olhava para o texto como algo que impede o verdadeiro conhecimento, pois o sujeito não é sabedor das coisas, mas é um recorrente da consulta.

 

Phármakon é o termo que ­Derrida usa para designar droga. Nesse termo, droga possui um sentido amplo, pode ser um remédio, um veneno, ou, ainda assim, um filtro. Mas, como o remédio, o veneno ao entrar em contato com o corpo sugere mudanças do estado em que o corpo já se encontra para um novo estado, seja da cura da enfermidade, seja da introdução à enfermidade. A função da droga, no contexto lido por Derrida a partir de Platão, é um contexto que sugere uma transformação que consiste em trazer para fora algo que está dentro, mas não se sabe exatamente o que é. Um êxodo sem uma terra prometida. O problema do êxodo não é a terra prometida, mas a necessidade de fazê-lo. Assim, o phármakon torna-se uma necessidade, porque propicia uma (falsa) sensação de felicidade, uma constante busca rumo, uma constante busca rumo à terra prometida sem haver, de fato, a existência de tal terra. Derrida questiona a quem pertence o poder de determinar o valor do phármakon. Ao rei, a Deus? Esse valor é universal, é dado em todo momento de maneira igual no tempo e no espaço? O valor que é estabelecido se mostra como uma estrutura de poder e de determinação hierárquica. Existe uma grave questão: Como estabelecer o valor e o conhecimento sobre aquilo que é dito, sobre o discurso? E como chegar-se-á ao valor do phármakon?

 

Embora a ideia de phármakon colocada nas linhas de Derrida refira-se a uma atitude específica de Sócrates, a reflexão que ele propõe é pertinente. Nas linhas provocativas do filósofo francês, encontramos pistas que nos colocam diante da encruzilhada a que nossa civilização está submetida. Até agora vemos apresentarem um olhar genérico sobre o problema das drogas, sem classificá-las de nenhuma maneira. Seguindo essa linha, faz sentido uma frase de Platão citada por Derrida: “Não há remédio inofensivo”. Derrida faz uso da citação para justificar que a ideia de phármakon jamais pode ser apenas benéfica, mas que, diante dela, é preciso olhar a totalidade. Esquecendo um pouco o uso de Derrida e voltando para a citação em si e da forma como habitualmente usamos o termo drogas, encontramos dados do Brasil que são assustadores.

 

Segundo os dados da ONU no Relatório Mundial sobre as Drogas publicado em 2013, o Brasil, junto com a Costa Rica e o Chile, é o país que mais consome analgésicos. Já em relação aos remédios para emagrecer, o Brasil e a Argentina são os maiores consumidores. Esses números mostram que, em certo grau, temos um uso irracional e desenfreado de remédios; o brasileiro é adepto convicto da prática do automedicar-se. Segundo Bauman, “de maneira distinta do consumo, que é basicamente uma característica e uma ocupação dos seres humanos como indivíduos, o consumismo é um atributo da sociedade”. Nesse caso, a automedicação e a compra irracional em drogarias nada mais são do que consumo. Só que em se tratando de “drogas”, o consumismo não pode ser considerado apenas como consumo de um produto comum. O remédio não pode ser banalizado às prateleiras do self-service de um mercado.

 

Estamos em constante busca por mudanças do estado corpóreo e psíquico, seja pelo ideário de beleza, seja pela manutenção da saúde, seja pelo restabelecimento do que já se encontra enfermo ou ainda na busca do paradigma de felicidade. Sim, a felicidade se compra em farmácias. Seguindo a lógica perversa do mercado, não nos damos, enquanto sociedade, o direito à tristeza. O consumo e o hedonismo se impõem como valores supremos. Diante do fracasso das metas capitalistas, o que resta ao consumidor não é outra cosia senão deixar de encarar o próprio fracasso e buscar na ideia da phármakon o contorno momentâneo. Enquanto o indivíduo busca a cura, a sociedade adoece. Alcançar a felicidade é a insana justificativa para o uso de drogas, seja de natureza lícita ou ilícita. O problema não está na legalidade, mas na alteração que ela provoca. E a sociedade da liquidez busca essas respostas em prateleiras de farmácia.

 

É preciso deixar claro que mesmo diante da citação de Platão usada por Derrida, em que nenhum remédio é inofensivo, não se estabelece um juízo moral sobre o assunto. O que Derrida nos lembra é o fato de que o uso da phármakon pode ser ao mesmo tempo bom e penoso. O grande problema está nas penas atribuídas ao corpo e à mente do usuário de drogas de qualquer natureza.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 98

Adaptado do texto “Felicidade em conta-gotas”

*Albio Fabian Melchioretto é especialista em Filosofia e mestrando em Educação pela Universidade Regional
de Blumenau (FURB). Professor da disciplina de Ética no Senai/SC, pesquisa sobre o uso das redes sociais virtuais no ambiente escolar. albio.melchioretto@terra.com.br